UOL Notícias Internacional
 

18/03/2009

Rebeldes e cocaína revivem uma velha guerra nas selvas do Peru

The New York Times
Simon Romero
Em Canayre (Peru)
Primeiro os soldados vieram a Rio Seco, uma aldeia de cultivo de coca nas montanhas das selvas do sul do Peru. "Eles nos chamaram de subversivos e abriram fogo", disse Benedicto Condor, um plantador de coca de 55 anos. Eles mataram quatro pessoas à queima-roupa, incluindo uma mulher grávida de cinco meses, disseram testemunhas. Duas crianças, com 6 anos e 1 ano, desapareceram e supostamente estão mortas.

Quatro meses depois, chegaram os guerrilheiros, acusando os aldeões de colaborarem com os militares. Eles sequestraram o líder da aldeia, que não foi mais visto.

  • Moises Saman/The New York Times

    Cresce o número de civis mortos na região de atuação dos rebeldes

  • Moises Saman/The New York Times

    Policial prende homem que transportava cocaína na região

  • Moises Saman/The New York Times

    Vilarejo dentro da região que é a maior produtora de coca do Peru

As terríveis histórias de violência que saem da selva, à medida que dezenas de famílias fogem de suas aldeias nos últimos meses, aumentam um espectro agourento: uma guerra brutal que aterrorizou o país por duas décadas pode estar de volta.

A guerra contra os rebeldes do Sendero Luminoso, que custou quase 70 mil vidas, supostamente acabou em 2000.

Mas aqui em um dos cantos mais remotos dos Andes, os militares, em uma nova campanha, estão enfrentando a facção rebelde que ressurgiu. E o novo Sendero Luminoso, seguindo o exemplo dos rebeldes da Colômbia, se reinventou como um empreendimento de narcotráfico, se refazendo com os lucros do próspero comércio de cocaína do Peru.

As linhas de frente estão na selva de Vizcatan, uma região de 647 quilômetros quadrados no Apurimac e Vale do Rio Ene. A região é a maior produtora de coca do Peru, o principal ingrediente da cocaína.

Enquanto os militares e rebeldes disputam o controle das aldeias isoladas produtoras de coca, os relatos de aumento de baixas e de civis mortos no fogo cruzado - ainda bem menos do que a carnificina no auge da guerra do Sendero Luminoso nos anos 80 e início dos anos 90 - estão ressuscitando fantasmas que a maioria dos peruanos considerava há muito extintos.

"Os soldados acham que todos nós somos terroristas, e assim acreditam que podem destruir qualquer coisa que se mexa", disse Alfredo Pacheco, um plantador de coca de 45 anos que fugiu de sua aldeia, Nueva Esperanza, em setembro, após os soldados incendiarem as casas de pau-a-pique dali à caça dos rebeldes.

Os oficiais militares dizem que as casas de pau-a-pique eram laboratórios de cocaína.

Estas visões conflitantes praticamente fazem parte do sistema. A coca, a folha levemente estimulante que era mascada aqui desde antes da conquista pelos espanhóis, é legal; a cocaína não é.

A coca, um símbolo do orgulho indígena, é ubíqua aqui. O Qatun Tarpuy, um partido político pró-coca, pinta imagens dela nas casas de pau-a-pique. As mulheres colhem a coca em clareiras ao longo da estrada de terra sinuosa e as crianças secam as folhas ao sol.

Também é quase impossível encontrar um produtor de coca aqui que reconheça que sua plantação é vendida para outra finalidade fora o uso tradicional, mas de alguma forma, apontam os estudos, até 90% da coca plantada vai para a produção de cocaína.

Em 2007, o último ano para o qual há dados disponíveis, o cultivo da coca no Peru aumentou 4%, chegando ao nível mais alto em uma década, segundo a ONU. Ao mesmo tempo, a produção estimada de cocaína pelo Peru atingiu o ponto mais alto em 10 anos, cerca de 290 toneladas, atrás apenas da Colômbia.

Desde que o Sendero Luminoso recuou para cá após a captura de seu líder messiânico, Abimael Guzman, em 1992, ela imitou o grupo rebelde colombiano muito maior, as Farc, ao misturar insurreição esquerdista com narcotráfico.

Apesar do envolvimento do Sendero Luminoso com a coca no passado, ela agora é seu maior foco. Segundo os militares e analistas antidrogas, a facção aqui, apesar de ainda professar ser uma insurreição maoísta no coração, agora está no ramo de proteger os narcotraficantes, cobrando taxas dos agricultores e operando seus próprios laboratórios de cocaína.

"Os guerrilheiros agora são tão eficientes e mortais quanto uma organização de elite do narcotráfico", disse Jaime Antezana, um analista de segurança de Lima, a capital do Peru, que estima que o Sendero Luminoso emprega cerca de 500 trabalhadores no comércio de cocaína, além de cerca de 350 combatentes armados.

Preocupado com a ressurreição dos rebeldes e o aumento da cocaína, o governo intensificou a campanha de contrainsurreição no final de agosto, e com ela ocorreu um aumento do número de mortos.

Os guerrilheiros mataram pelo menos 26 pessoas em 2008, incluindo 22 soldados e policiais, o ano mais sangrento em quase uma década, segundo analistas de segurança.

Grupos de direitos humanos, por sua vez, estão exigindo investigações das acusações de que soldados peruanos mataram pelo menos cinco civis, assim como sobre o desaparecimento das duas crianças e o deslocamento de dezenas de famílias de aldeias distantes.

Os oficiais militares se irritam com os relatos de abusos. "O pessoal de direitos humanos diz: 'Alguns civis foram mortos, que horrível'", disse o ministro da Defesa, Antero Flores Araoz, em uma entrevista em Lima. Quanto a Rosa Chavez Sihuincha, a mulher grávida morta em Rio Seco, ele sugeriu que ela teve o que merecia.

"O que diabos ela estava fazendo em Vizcatan?" ele disse. "Estava rezando o rosário? Não. Ou transportava folhas de coca para processamento, levava produtos químicos ou fazia parte da logística deste grupo do Sendero Luminoso."

Apesar dos Estados Unidos não estarem envolvidos diretamente na campanha de contrainsurreição daqui, eles forneceram cerca de US$ 60 milhões em ajuda para o combate às drogas no ano passado, cerca de 11% do que gasta anualmente nos esforços de combate às drogas e contrainsurreição na Colômbia.

As autoridades daqui admitem que demoraram a reconhecer o que estavam enfrentando quando Guzman, um ex-professor de filosofia, deu início à sua revolta camponesa nos anos 80, uma experiência que levam em conta enquanto tentam decifrar os rebeldes atuais.

"Há aqueles que dizem: 'Por que nos preocuparmos com algumas poucas centenas de combatentes na selva?'" disse Alberto Bolivar, um especialista em contrainsurreição. "Mas eles esquecem que o Sendero Luminoso iniciou sua luta armada em 1980 com apenas poucas centenas de sujeitos. Duas décadas depois, 70 mil pessoas tinham morrido."

Mas o Sendero Luminoso também parece ter aprendido suas lições.

Os produtores de coca daqui descreveram os maoístas atuais como uma força bem armada, disciplinada, que entra nas aldeias em grupos de 20 trajando uniformes pretos. Pouco se sabe sobre seus líderes, fora a crença de que dois irmãos, Victor Quispe Palomino, conhecido como Jose, e Jorge Quispe Palomino, vulgo Raul, estão no comando.

Os soldados falam com respeito sobre o domínio que os rebeldes têm do terreno da selva e sua capacidade de atormentar com disparos mais de uma dúzia de bases avançadas que foram estabelecidas nos últimos meses. "Suas colunas parecem se misturar à selva", disse o major Julio Delgado, um oficial de uma base em Pichari, uma das maiores cidades no vale.

Uma missão de reabastecimento de suprimentos saída daquela base em um helicóptero MI-17 de fabricação russa ofereceu um vislumbre dos desafios da contrainsurreição. Por meia hora, o helicóptero sobrevoou o que os peruanos chamam de "ceja de selva", ou sobrancelha da floresta, onde a cobertura verde nos picos fornece uma camuflagem impenetrável.

O helicóptero pousou em uma minúscula base das forças especiais em Sanabamba, onde comandos apontavam rifles para o terreno ao redor, aguardando ouvir algo de sua presa escondida. Assim que o helicóptero decolou de novo, a mata verde rapidamente engoliu o posto avançado no topo da montanha.

Os plantadores de coca abaixo nem mesmo se incomodaram em olhar para cima.

Os rebeldes dizem que não mais assassinam as autoridades locais ou semeiam o terror com táticas como plantar bombas em burros em mercados lotados, atrocidades que fizeram a fama do grupo nos anos 80. Esta metamorfose foi confirmada pelo depoimento de aldeões que entraram em contato com eles, entrevistas com rebeldes presos e uma análise de 45 páginas escrita pelos rebeldes, traçando a evolução do grupo de suas origens sob Guzman, que foi capturado pela inteligência militar aqui em dezembro.

Segundo o documento, eles consideram Guzman um traidor "revisionista" e condenam outra facção do Sendero Luminoso, no Vale de Huallaga no norte, por sua abertura à negociações.

Talvez a diferença mais notável entre o novo Sendero Luminoso e o velho seja o novo relacionamento do grupo com os aldeões, que exibe ostensivamente um paternalismo em vez de terrorismo.

Os aldeões se referem aos guerrilheiros como "os tios", apesar de qualquer afeição familiar ser forçada pela ameaça de violência.

É um arranjo volátil entendido desde os mais altos generais até mascates de frutas como Maria Auccatoma, 48 anos, que vende mangas perto da aldeia de Machente, em um ponto marcado com cruzes para os três civis e cinco policiais mortos pelos guerrilheiros em uma emboscada.

"Nós podemos viver em paz", disse Auccatoma discretamente, "desde que obedeçamos aos tios".


Andrea Zarate, em Lima, Peru, contribuiu com reportagem.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,97
    3,127
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,99
    64.389,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host