UOL Notícias Internacional
 

18/03/2009

Suíços pelados fazem caminhadas pelas trilhas dos Alpes

The New York Times
John Tagliabue Em Appenzell (Suíça)
Os suíços apreciam o seu hábito de segredo, especialmente no setor bancário. Mas em outras áreas, eles são mais abertos. Vejamos por exemplo as caminhadas em trilhas.

Nos últimos anos, tornou-se moda para um número cada vez maior de suíços e alguns estrangeiros caminhar pelos alpes usando pouco mais que calçados para trilha e filtro solar. No verão passado, a quantidade de caminhantes pelados aumentou tanto que quem se encontra nas montanhas parece ouvir todos os tipos de ruído, menos aquele feito por panos de calças.

Christophe Bangert/The New York Times 
Duas pessoas nuas caminham pelos Alpes, próximo à Appenzell, na Suíça

Em setembro, a polícia nesta cidade montanhosa prendeu um jovem caminhante, que foi identificado pelos amigos apenas como Peter, que vagava pelas trilhas nu, usando apenas botas de trilha e uma mochila. Mas eles tiveram que soltá-lo, porque na Suíça não existe lei que proíba alguém de fazer caminhadas pelado. A experiência deixou alarmados os moradores tradicionais da cidade de Appenzell, de 5.600 habitantes, que passaram a temer que a cidade se tornasse uma Meca para os pelados. Assim como a maioria das regiões montanhosas remotas, esta é uma área conservadora.

Há séculos os fazendeiros daqui vivem do seu afamado queijo Appenzeller e de um licor amargo que a maioria das pessoas, com exceção dos admiradores ferrenhos, diz que tem gosto de xarope para tosse estragado. Foi só em 1990 que Appenzell concedeu às mulheres o direito ao voto, com décadas de atraso em relação a outras regiões da Suíça.

As autoridades questionam o que aconteceria se famílias com filhos saíssem para caminhar nas montanhas e encontrassem um grupo de caminhantes pelados. Além do mais, as autoridades alertam que o nome da cidade está aparecendo com uma frequência alarmante nos blogs e salas de discussão de indivíduos que adoram caminhar pelados pelas trilhas.

"Não estamos no Canadá, onde é possível caminhar durante horas por florestas vastas", diz Markus Doerig, 49, porta-voz do governo local, com uma expressão de irritação na face. "Aqui você encontra outros caminhantes em uma questão de minutos. Isso é preocupante".

Konrad Hepenstrick diz que quase nunca encontra pessoas que se sentem incomodadas. "Nós os cumprimentamos, e eles nos cumprimentam, embora no inverno, é claro, muitos nos perguntem se não sentimos frio", diz ele, enquanto come uma salsicha Appenzeller crua e apimentada em um restaurante localizado nas encostas acima da cidade.

Nuvens de neve anômalas para a época obscurecem a vista dos picos ao redor, atrapalhando os planos para que ele faça uma caminhada pelado com este repórter.

Hepenstrick, 54, é um arquiteto que adora caminhar pelas trilhas alpinas pelado. Ele diz que no inverno já caminhou horas a fio em temperaturas negativas, embora admita ter precisado de um chapéu e de luvas. Hepenstrick afirma que caminha nu pelas trilhas há cerca de 30 anos, e que já cruzou colinas e montanhas nas imediações de Appenzell, bem como na França, na Alemanha, na Itália e até mesmo nos Apalaches.

A companheira dele, uma professora, também faz caminhadas, embora não tão au naturel. Mas por que é que ele tira a roupa? Não há muito o que dizer", diz ele. "É a liberdade. Primeiro, a liberdade na sua cabeça; depois, a liberdade do corpo".

Enquanto alguns especialistas suíços em direito argumentam que proibir a nudez em público seria inconstitucional, o governo não tem conseguido responder à questão dos caminhantes pelados. Ele redigiu uma proposta de lei que, caso vigorar, proibirá "o comportamento abusivo ofensivo contra os costumes e a decência", mas é provável que o projeto seja contestado.

Daniel Kettiger, um especialista em direito, publicou no mês passado um trabalho de seis páginas intitulado, previsivelmente, "Os Fatos Nus: Sobre a Criminalização das Caminhadas Realizadas Sem Roupas", observando que em 1991 a Suíça retirou do seu código penal a proibição da nudez em público.

"O simples fato de uma pessoa ficar nua, sem conotação sexual, não é mais ilegal", disse Kettiger pelo telefone, acrescentando, "Na época havia uma onda de nudismo". Seria ele próprio um praticante das caminhadas em trilhas? "Sim, mas pelado nunca", respondeu Kettiger. "Primeiro porque há o perigo das queimaduras solares, e além disso os Alpes estão infestados de carrapatos, que transmitem a boreliosa, ou doença de Lyme".

O ministro da Justiça de Appenzell, Melchior Looser, tem certeza de que será capaz de criar uma lei que obrigue os pelados a cobrirem-se. "Creio que a medida funcionará da maneira que esperamos", afirma Looser, 63, observando que os caminhantes que não cumprissem a legislação proposta estariam sujeitos a uma multa equivalente a US$ 170.

Ele gostaria que a lei estivesse em vigor já nesta primavera, quando os caminhantes voltam para as montanhas. Mas ele admite que a proposta precisa antes ser aprovada pela assembleia do povo, uma reunião de cidadãos com idade para votar, que ocorre uma vez por ano na praça central da cidade, e que deverá ser feita em 26 de abril. Ninguém pode afirmar se a legislação será ou não aprovada.

Hans Eggimann acredita que será. "Eu caminho em volta da minha casa pelado, mas lá fora eu visto minhas calças", diz Eggimann, 57, um homem corpulento que vende mais de 60 tipos de queijo na sua loja no centro da cidade.

Outros não estão tão certos quanto a isso. "Muitos moradores de Appenzell que conheço dizem que a questão não os perturba", afirma Alessandra Maselli, que trabalha em uma loja próxima à venda de queijos de Eggimann. "Eu diria que as opiniões estão quase que igualmente divididas, e que existe uma pequena maioria favorável à lei", diz ela.

Na livraria Buecherladen, Caroline Habazin, 46, diz que a polêmica fez com que todos dessem uma boa risada durante o desfile de carnaval da cidade no mês passado. Um dos carros alegóricos mostrava dois caminhantes, um homem e uma mulher, usando meias cor da pele, com enchimentos nas regiões dos músculos dos braços e das pernas, bem como das nádegas, simulando um corpo hipertrofiado por esteroides, embora os órgãos genitais do homem estivessem em sua maior parte tapados por folhas falsas de videira. "Acho que é um grupo bem pequeno", diz ela.

A sua companheira de trabalho, Edith Sklorz, 48, diz que não entende como alguém pode apreciar caminhar pelado, embora o seu marido pense de forma diferente. "Posso compreender que uma pessoa nade pelada, mas gostar de caminhar nua eu não entendo", afirma.

Mas algo que a ofendeu igualmente foi a decisão do governo de responder aos caminhantes nudistas com uma lei. Recentemente, a cidade vizinha de Gossau aprovou uma lei proibindo que as pessoas cuspam em público, ameaçando quem cuspir com uma multa de US$ 50. E agora há a proposta de banir os caminhantes pelados. "Para cada pequena coisa existe uma lei", reclama Sklorz.

Ursula Heller vende vestuários e equipamentos para caminhantes de trilhas e montanhistas há cinco anos na sua loja próxima à praça da cidade. Os caminhantes pelados seriam uma ameaça ao seu negócio? Ela dá uma grande gargalhada. Heller e o marido adoram caminhar nas trilhas, mas ela é contra a prática dessa atividade sem roupas.

"Se a pessoa quiser tirar a roupa, sempre é possível usar shorts ou biquini", opina Heller.

Tradução: UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    09h09

    0,27
    3,138
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h35

    0,04
    76.004,15
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host