UOL Notícias Internacional
 

20/03/2009

Mugabe é um obstáculo para mais ajuda de doadores ao Zimbábue

The New York Times
Celia W. Dugger
Em Harare (Zimbábue)
Em seu primeiro dia como ministro da Educação em um governo tão quebrado que a maioria das escolas foi fechada e milhões de crianças estão ociosas, David Coltart disse ter recebido um convite surpreendente.

"Venha receber seu novo Mercedes branco", um funcionário disse a Coltart, um político de oposição veterano, enquanto o presidente Robert Mugabe espiava de um retrato na parede do gabinete do ministro.

A oferta de um Mercedes Classe E para cada ministro na coalização no poder há apenas um mês era um ação clássica de Mugabe, uma oferta para seduzir seus inimigos políticos com os presentes caros que há muito concede a seus seguidores leais.

Coltart disse não, obrigado.

Benedicte Kurzen/The New York Times 
Retrato do presidente Mugabe é colocado na entrada de escola em Chitungwiza, Zimbábue

Membros de oposição como Coltart, que ingressaram no governo de Mugabe no mês passado, já obtiveram alguns sucessos, como fazer com que os professores voltem ao trabalho e conseguir a libertação de alguns presos políticos. Mas muitos deles alertaram em entrevistas que o progresso terá vida curta se os países ocidentais, em reunião na sexta-feira em Washington para discutir o aumento da ajuda, não oferecerem os bilhões de dólares em ajuda necessários para a reconstrução do Zimbábue.

Os principais doadores de ajuda médica e alimentar emergencial do Zimbábue -os Estados Unidos, o Reino Unido e outros países europeus- enfrentam uma dúvida dolorosa diante dos apelos por mais ajuda. Como os países mais ricos do mundo podem injetar dinheiro na economia debilitada do Zimbábue sem financiar Mugabe, alimentando sua máquina de favores e prolongando suas desastrosas três décadas no poder?

Antes de voltarem a se envolver plenamente com o governo do Zimbábue, os doadores disseram que querem ver a libertação de todos os presos políticos, o término da tomada das fazendas de propriedades dos brancos e a volta da liberdade de imprensa. Mas alguns diplomatas daqui disseram que linha-duras da velha guarda de Mugabe parecem determinados a sabotar o acordo de divisão de poder e a entrada de ajuda ocidental, que o público associaria aos recém-chegados, liderados pelo primeiro-ministro Morgan Tsvangirai, do Movimento para Mudança Democrática.

O principal teste para Tsvangirai é se conseguirá cumprir sua promessa, feita na posse, de pagar os funcionários públicos em moeda estrangeira -particularmente os policiais e soldados que atuavam em prol do governo repressor de Mugabe e seu partido, o ZANU-PF, mas cujos salários em moeda local agora não valem nada. Até mesmo alguns diplomatas que estavam céticos em relação ao acordo de Tsvangirai de governar com Mugabe, 85 anos, agora parecem sentir uma oportunidade de enfraquecer "o velho", como ele é chamado aqui.

"Há esta sensação de que estamos em um fim de jogo, de que há uma nova dinâmica aqui", disse um diplomata ocidental que falou anonimamente, segundo o protocolo diplomático. "Nunca antes o governo esteve tão prostrado. Nunca antes o ZANU-PF esteve tão fraco ou a oposição no governo."

Os políticos da oposição também dizem sentir uma oportunidade de enfraquecer o poder de Mugabe.

A experiência de Coltart é um bom exemplo. Ele enfrenta enormes obstáculos, não apenas o fato de que seu ministério ficava em um prédio fétido, que não tinha água corrente para dar descarga nos toaletes quando ele chegou. Mas ele conseguiu convencer a maioria dos professores do país a voltarem ao trabalho com pouco mais que uma magra ajuda mensal de US$ 100 e a promessa de tentar lhes dar mais.

A visão de crianças em uniformes rasgados indo para a escola se tornou outro sinal de um retorno à normalidade -assim como pão a preço acessível e prateleiras dos mercados bem abastecidas- em um país devastado pela fome, hiperinflação e cólera.

Mas os sindicatos dos professores o alertaram de que seus membros em breve pararão de trabalhar a menos que ele consiga lhe fornecer melhores salários, semelhantes às quantias que os britânicos, a ONU e outros doadores já pagam a mais de 20 mil médicos, enfermeiros e outros trabalhadores do sistema de saúde pública falido do Zimbábue.

"Se nas próximas semanas não recebermos um apoio à educação, há o risco real dos professores cruzarem os braços aos milhares, como fizeram no ano passado", disse Coltart.

Os professores da Escola Primária Fungisai, em Chitungwiza, uma cidade ao sul de Harare, a capital, disseram que US$ 100 por mês não chegam nem perto de pagar pelo essencial: aluguel, vestuário, alimentos, taxas escolares. Ainda assim, eles parecem esperançosos.

"O governo está falido, mas é melhor ter alguém prometendo algo melhor", disse Mercy Manza, 38 anos, uma professora da terceira série e mãe de dois. "Antes era como se não existíssemos. Eles apenas nos ignoravam."

A hiperinflação se tornou tão ruim no ano passado que o salário dos professores em dólares do Zimbábue passou a não valer quase nada. Muitos professores emigraram para a África do Sul para trabalhar como empregados domésticos e na colheita de uvas. Manza e Kudzayi Chivasa, uma professora de 44 anos e viúva, disseram que venderam suas roupas, louças e faqueiros em uma tentativa desesperada de levantar dinheiro para alimentar suas famílias.

"Eu passei uma semana em janeiro sem comida", disse Chivasa. Os professores disseram que suas vidas melhoraram materialmente neste ano. O dólar do Zimbábue morreu na prática, e todos os produtos agora são marcados em dólares americanos e rands sul-africanos. Com a suspensão dos controles de preços e de algumas restrições a importados, os bens passaram a ingressar no país e os alimentos básicos custam menos.

A escola Fungisai, um complexo de prédios térreos de tijolos vermelhos, ficou vazia por meses no ano passado. Todos seus 52 professores estão de volta, juntamente com 2.200 crianças bem-vestidas em uniformes azul-escuros.

Mas a diretora, Angela Katsuwa, duvida que conseguirá manter seu quadro de funcionários a menos que recebam um aumento. "Eu temo que possam partir", ela disse. "Eles estão se queixando de que US$ 100 não é suficiente para chegarem até o fim do mês."

Os professores não são os únicos atormentados pelo pagamento magro. Cada ministro no novo governo ganha o mesmo que um professor -ou um faxineiro.

Sentado em seu gabinete no 14º andar, com uma ampla vista da silhueta de Harare, Coltart tirou o recibo amassado de seu pagamento da carteira. Seu salário foi de 4.224 inúteis dólares do Zimbábue e um vale de US$ 100. Coltart é um proeminente advogado de direitos humanos de Bulawayo, que descreve a si mesmo como "pagando tudo do próprio bolso no momento".

Alguns novos ministros dedicaram anos ao ativismo político em um país cuja economia está ruindo. Os diplomatas aqui temem que Mugabe possa explorar esta vulnerabilidade com sua estratégia habitual de "isca no anzol". Muitos novos ministros aceitaram os Mercedes que Coltart recusou.

"Há um risco muito sério de nossos membros e ministros serem comprados", disse o vice-primeiro-ministro Arthur Mutambara, que atualmente dirige um Mercedes E280. "Nossos membros precisam ficar vigilantes e ter princípios."

Eric Matinenga, um dos advogados mais respeitados do Zimbábue e o novo ministro dos Assuntos Constitucionais e Parlamentares, disse que conversou com outros no Movimento para Mudança Democrática a respeito da adoção de uma posição comum em relação aos carros.

"Eu disse: 'Como poderemos justificar o recebimento destes veículos de luxo quando há uma crise humanitária em andamento?'" ele disse. "Para minha decepção, não conseguimos chegar a uma posição comum."

Matinenga, que enfrentou prisão e semanas na cadeia no ano passado após representar vítimas de violência política, aceitou um Mercedes Classe E verde metálico. "Eu sei que não é uma boa desculpa", ele disse, "mas faria diferença se eu o recusasse?"

Diplomatas e analistas locais dizem que apesar de alguns tropeços, os ministros do Movimento para Mudança Democrática, liderados por Tsvangirai e Mutambara, estão conseguindo resistir a Mugabe e exigindo participar nas decisões sobre como o país é governado.

O ministro das Finanças, Tendai Biti, recebeu crédito por tomar o controle da política econômica de Gideon Gono, o presidente do banco central que é amplamente acusado pela emissão desenfreada de dinheiro que elevou a inflação a níveis astronômicos.

"Se o Zimbábue fosse uma empresa, ela teria sido liquidada há muito tempo", disse Biti, um advogado que já foi espancado e preso por acusações de traição durante seus anos na oposição política. "Se fosse um ser humano, ele estaria com morte cerebral."

Pairando sobre tudo isto está o velho. Coltart, de sua parte, não sabe o que fazer com o retrato de Mugabe que está pendurado atrás de sua mesa.

"Talvez eu ache um local mais apropriado", ele disse, "onde ele não pareça estar olhando por sobre meu ombro".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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