UOL Notícias Internacional
 

22/03/2009

Artista desafia censura na web ao repreender políticos da China

The New York Times
David Barboza e Jonathan Ansfield
Em Xangai (China)
Um dos artistas mais importantes e polêmicos da China está desafiando o governo a parar de encobrir o que ele classifica como incompetência ao administrar a resposta ao terremoto de maio passado na província de Sichuan, que matou mais de 80 mil pessoas.

O artista, Ai Weiwei, 51, que ajudou a projetar o Estádio Olímpico Nacional conhecido como Ninho de Pássaro, está causando comoção na China ao publicar em seu blog comentários raivosos em relação aos esforços de resgate após o terremoto.

Nos comentários, Ai critica a forma com que o governo administrou a resposta ao desastre e reprova o fato de as autoridades ainda não terem fornecido uma contagem total das crianças mortas, tragédia que ele e muitos outros atribuem às construções precárias das escolas.

"Estou cansado dessas mentiras", disse Ai na quinta-feira numa entrevista por telefone de Beijing, onde ele tem um espaçoso estúdio. "Eu fui lá e vi o prédio da escola destruído, do lado de um prédio que não sofreu danos".

Em seu blog, o artista publicou sua própria lista de crianças mortas no terremoto de magnitude 7,9, reunindo mais de 1.500 nomes. Ele também publicou transcrições de conversas que ele e outras pessoas tiveram com autoridades do governo que se recusaram a cooperar. "Você precisa providenciar cartas e carimbos e dizer ao departamento de assuntos civis o que você quer e por que precisa disso", esta é a resposta oficial típica que ele recebeu para suas perguntas, disse.

Comentários como os de Ai são raros, uma vez que ainda não foram censurados ou removidos da internet. Ai não está sendo proibido de criticar o governo em relação a um assunto que é muito delicado em Beijing.

Os críticos mais severos do governo normalmente são censurados, silenciados ou presos, e é comum que os divergentes sejam punidos. Em junho passado, um ativista pelos direitos humanos chamado Huang Qi foi preso e acusado de posse ilegal de segredos de Estado depois de ajudar pais que pediam que os construtores das escolas precárias fossem responsabilizados. Qi havia divulgado esses pedidos em seu site.

Mas Ai, que é filho de um dos maiores poetas modernos da China, Ai Qing, não foi proibido de falar com honestidade num site controlado pelo governo.

"Ele está agindo como um agente provocador", disse Meg Maggio, diretor da Galeria de Belas Artes de Pequim e amigo de longa data de Ai. "Ele é uma figura pública e vem de uma família intelectual muito importante, então talvez tenha atingido uma posição social e possa dizer muitas coisas".

Depois do terremoto de maio passado, o governo praticamente proibiu os jornalistas chineses de falarem sobre a construção precária das escolas e a morte de crianças, de acordo com os vários jornalistas do país.

Pais revoltados de Sichuan se manifestaram e pressionaram o governo para explicar por que tantas escolas ruíram enquanto outros prédios próximos permaneceram intactos. Muitos culparam a corrupção do governo no processo de construção pela diferença na estabilidade dos prédios.
Agentes de segurança pública impediram muitas manifestações e até perseguiram pais que pressionavam o governo.

Quase dez meses depois do terremoto, o governo chinês ainda diz que não sabe ao certo quantas crianças morreram sob os escombros.

Este mês, Wei Hong, vice-governador executivo de Sichuan, disse à imprensa que ainda não havia um número final de crianças mortas e que os especialistas concluíram que a intensidade do terremoto, e não a precariedade das construções, foi a principal razão para o elevado número de mortos.

Ai rejeita a explicação e diz que está determinado a conseguir os nomes das vítimas por conta própria. "Quero fazer isso antes do aniversário de um ano do terremoto", disse.

Ele disse ainda na quinta-feira: "Se você visse as fotos, é inacreditável, é muito triste ver o que aconteceu com aquelas crianças".

Um homem que atendeu ao telefone no escritório geral do governo provincial de Sichuan, em Chengdu, recusou-se a se identificar, mas confirmou que Ai ou um de seus investigadores havia ligado para o escritório.

"Ele é completamente louco, ficou fazendo as mesmas perguntas sem parar", disse o homem. "Meu colega foi bastante cooperativo e paciente. Você sabe, não temos obrigação de fornecer a ele todos os dados e relatórios sobre o número de crianças mortas".

Controvérsia não é novidade para Ai. Ele é conhecido por suas fotografias e esculturas vanguardistas e por mesclar elementos tradicionais chineses com um estilo moderno - e também por sua língua afiada.

Apesar de ter ajudado a projetar o Estádio Nacional, ele prometeu não participar da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Beijing, dizendo que acreditava na liberdade, e não na autocracia.

Agora, ele diz que está determinado a produzir um documentário sobre o terremoto. Ele disse que uma equipe de mais de cem pessoas já conduziu dezenas de entrevistas para o filme com pais de crianças mortas no terremoto.

Ao ser questionado por que motivo seu blog não foi tirado do ar, ele admitiu que está perplexo. "Espero por isso todos os dias, mas até agora não aconteceu", disse.

Tradução: Eloise De Vylder

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