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22/03/2009

Todos para o ônibus: Iraque abre as portas para turistas ocidentais

The New York Times
Campbell Robertson
Em Bagdá
Jo Rawlins Gilbert, uma agente de condicional aposentada de 79 anos de Menlo Park, Califórnia, começou a viajar, segundo ela, "como a maioria das pessoas".

Primeiro foi para a Inglaterra. Depois para a Europa. Depois para o leste europeu. Mais tarde, viajou com o marido, que morreu em 2004, para comemorar o aniversário de 80 anos dele no Tibete. Com a idade, ela se tornou uma viajante aventureira, tendo visitado a Síria, o Iêmen, a Bósnia e até o Afeganistão.

O que poderia superar isso? Bem, lá estava ela no saguão de um hotel em Bagdá, ao final de uma viagem de 17 dias para um dos destinos mais perigosos do mundo.

"O Iraque sempre esteve na minha lista", diz Gilbert, que usava um suéter estampado com um gato de desenho animado e a frase "A Vida é Boa". "Se o país se abrisse, eu gostaria de visitar".

Descrever o Iraque como um país aberto é discutível. Mas Gilbert faz parte de um grupo, constituído principalmente por pessoas de meia-idade e mais velhas, que teve a honra de ser o primeiro grupo de turistas permitido no Iraque desde 2003 (fora do território do Curdistão, que é mais seguro). O guia do grupo é Geoff Hann, dono da Hinterland Travel, uma "companhia especializada em viagem de aventura" da Inglaterra. Ele tem 70 anos.

A viagem não foi tão perigosa quanto a maioria esperava. Na noite de sexta-feira - seis anos depois do início da invasão americana - um inglês grisalho e uma mulher compraram garrafas grandes de cerveja Heineken gelada no centro de Bagdá, e caminharam para o hotel no escuro. O Ministério de Turismo e Patrimônio Histórico, que ajudou a organizar a viagem, ofereceu guardas armados, mas Hann disse que eles eram muito restritivos. Então o grupo passeou pela cidade, num micro-ônibus alugado, com pouca ou nenhuma segurança.

Eles foram para Babilônia e Basra, Ur e Uruk, para os templos xiitas em Karbala e Najaf - lugares onde, há não muito tempo, um visitante não precisaria de passagem de volta. Eles fizeram uma visita breve e decepcionante ao templo Askariya, em Samara, cujo bombardeio em 2006 desencadeou uma guerra civil generalizada num Iraque que já era violento.

"A polícia não queria que nós ficássemos por ali", disse Hann, um homem modesto que usa sandálias com meia.

O Iraque está muito mais estável e seguro do que há dois anos. Mas os episódios diários de violência continuam.

Numa noite de quarta-feira, um político sunita foi assassinado em Bagdá quando uma bomba explodiu sob seu carro. Na quinta-feira, de acordo com um porta-voz militar dos EUA, forças aliadas foram chamadas para ataques aéreos contra esconderijos rebeldes na província de Diyala, matando pelo menos 11 pessoas. Na sexta-feira, podiam-se ouvir estrondos de explosões não muito longe do hotel.

Com certeza, não é uma viagem para pessoas mais sensíveis.

Praticamente todos do grupo de oito pessoas já visitaram o Afeganistão. (Além disso, todos são solteiros, o que talvez não surpreenda.) É quase impossível conseguir um seguro de viagem para lá, que tampouco é fornecido pela agência. Por esse motivo, os turistas desse tipo de excursão tendem a ser mais velhos porque já têm uma cobertura financeira e, segundo Hann, "porque no final eles já visitaram vários lugares e não se preocupam tanto, se é que você me entende".

O mais novo do grupo é David Chung, um alegre vice-presidente de uma firma de administração de títulos em Manhattan, com 36 anos. Nos últimos anos, Chung foi à Algéria, Nepal, Sri Lanka, Arábia Saudita, Sudão, Eritréia, Paquistão - e a lista continua.

"Minhas melhores ideias de viagem vêm da lista de alertas do Departamento de Estado", diz. Qual foi a impressão que teve do Iraque?

"O aumento das forças americanas funcionou", disse, descrevendo a segurança e a facilidade de viajar na maioria dos lugares e a surpreendente cobertura de BlackBerry em todos os lugares.

Não que não tenham ocorrido empecilhos.

Primeiro, o grupo chegou a Bagdá num feriado nacional quando a maioria dos lugares estava fechada. Os checkpoints consumiram muitas horas da viagem. Alguns passeios que pareciam viáveis, como uma visita às ruínas assírias no norte, foram declarados muito perigosos pelo governo. Outros, principalmente os pontos turísticos xiitas, foram facilitados pelo governo iraquiano liderado pelos xiitas.

Na noite de sexta-feira, Hann, que veio pela primeira vez ao Iraque nos anos 70 e já voltou dezenas de vezes, quase se enfureceu quando autoridades do ministério disseram subitamente que o passeio do dia seguinte para o museu iraquiano não poderia acontecer. Não foi como da última vez.

Ele esteve lá em outubro de 2003, bem depois que a guerra começou e os rebeldes ganhavam força. Seu grupo de turistas viu um homem apanhar até a morte de uma multidão em Mosul, e ouviu uma bomba explodir no rua em que estavam na embaixada da Turquia. Por outro lado, com a guerra começando e as estruturas da civilização ruindo, aquela acabou sendo sua melhor viagem: dizer aos turistas onde eles podiam ou não podiam ir não era a maior prioridade.

Nos cinco anos seguintes ele foi contatado por turistas ansiosos para conhecer o país, mas a situação era imprevisível demais. O turismo religioso, principalmente de peregrinos xiitas para as cidades sagradas de Najaf e Karbala, nunca cessou de fato, e houve alguns turistas ocidentais errantes, com destaque para um canadense e um italiano que acabaram sendo presos. Mas não houve grupos de turistas ocidentais.

Em novembro de 2008, Hann finalmente voltou ao Iraque para uma conferência de turismo. Ele era um dos poucos ocidentais lá, incluíndo alguns arquitetos espanhóis. Ele logo começou a negociar uma viagem com o Ministério de Turismo e Patrimônio Histórico, e em 8 de março seu grupo chegou ao país. Ele já está planejando suas viagens futuras.

"No momento, tenho um grupo americano da Califórnia para outubro", disse Hann. "E conheço várias pessoas estranhas que querem vir sozinhas. O que eu não aconselho..."

Tradução: Eloise de Vylder

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