UOL Notícias Internacional
 

23/03/2009

Croácia corteja antigo inimigo em busca de turistas

The New York Times
Dan Bilefsky
Em Dubrovnik (Croácia)
Num sinal de que a crise financeira global atingiu o Adriático, a Croácia busca a ajuda de seus antigos inimigos: pela primeira vez desde que as forças da Sérvia e Montenegro cercaram esta cidade portuária histórica em 1991, os empresários aqui estão apelando para os turistas sérvios a ajudarem a recuperar sua economia.

Quando as autoridades de turismo das regiões croatas de Ístria e Dalmácia enviaram uma delegação para uma feira de negócios na Sérvia no mês passado, pessoas dos dois lados observaram com ironia que a inatividade econômica obrigou os croatas a procurarem os sérvios para ajudarem a salvá-los. Muitos aqui se lembram amargamente da guerra de 1991-1995, que explodiu depois que a Croácia declarou independência da Iugoslávia; mais de 10 mil croatas e sérvios morreram, e centenas de milhares deixaram suas casas.

Mas Goran Strok, dono dos hotéis mais sofisticados de Dubrovnik, disse que é tempo de colocar as desavenças históricas de lado. "O que Milosevic e os políticos sérvios fizeram foi imperdoável e deve ser lembrado", disse ele, referindo-se a Slobodan Milosevic, o antigo líder cuja defesa do nacionalismo sérvio desencadeou quase uma década de guerra nos Bálcãs.

"Mas a guerra terminou, e não podemos mudar os nossos vizinhos", acrescentou Strok. "Os sérvios também são pessoas boas, e chegou a hora de procurá-los. Quero ver turistas sérvios em Dubrovnik".

Muitos dos países dos Bálcãs ocidentais - Sérvia, Bósnia, Macedônia e Montenegro - estão entre os mais pobres e menos estáveis da Europa.
Apesar de a Croácia ser mais rica que os outros, a região como um todo continua sendo um ponto fraco da Europa.

Muitos analistas temem que a crise financeira possa acabar com uma década de progresso econômico e político na região uma vez que as exportações e os investimentos estrangeiros diminuam. A Sérvia já se voltou para o Fundo Monetário Internacional em busca de um pacote de ajuda, e seus vizinhos poderão ser os próximos a fazê-lo.

Os problemas da região representam um desafio para a União Europeia à medida que ela luta para evitar uma divisão entre os países ricos que até agora têm enfrentado a crise, e seus integrantes atuais e futuros, que passam por pressões severas nos seus setores bancários e moedas.

Na Croácia, o governo diz que a economia sofrerá uma contração de 2% este ano e que o desemprego aumentou para 14,5% no final de janeiro. A Croácia tem de refinanciar cerca de €6,1 bilhões, ou quase US$
8 bilhões, em dívida externa até o final de 2009, e o crédito e os investimentos estrangeiros estão secando. Crescem os temores de que o turismo - que é a âncora da economia do país, respondendo por 20% do produto interno bruto - poderá diminuir e fazer com que a economia caia drasticamente. Apesar de alguns empresários dizerem que o turismo resistirá à crise porque foi protegido por restrições nos investimentos estrangeiros, outros acreditam que ele ficou ainda mais instável porque o banco Central da Croácia, traumatizado pela hiperinflação dos anos de guerra, fixou rigidamente a moeda local, o kuna, em relação ao euro, mesmo quando outras moedas da região caíram. O forte kuna diminuiu o poder de compra dos possíveis visitantes vindos da República Tcheca, Hungria, Grã Bretanha e Rússia.

Em Dubrovnik, bela cidade medieval murada que é o berço da indústria do turismo do país, líderes empresariais disseram que já sentem as consequências. Eles estão agressivamente tentando atrair os turistas sérvios, mesmo que as relações políticas entre a Croácia e a Sérvia continuem tensas.

Ainda não existem voos diretos entre as capitais dos países, e os turistas sérvios que vão para a Croácia de carro com placas sérvias dizem que normalmente viajam de noite para não serem detectados. A polícia também informou sobre casos isolados de perturbação a sérvios no país. Apesar disso, autoridades de turismo e analistas políticos dizem que o fato de a Sérvia ter se voltado recentemente para o Ocidente, depois da eleição no ano passado de um governo que busca relações com a União Europeia e os Estados Unidos, está quebrando o gelo nas relações entre os dois países.

Depois da guerra, milhares de refugiados sérvios fugiram da Croácia, e muitos venderam suas casas. Mas as autoridades de turismo dizem que os sérvios, que saiam de férias às multidões na costa da Croácia quando a região ainda fazia parte da Iugoslávia, estão lentamente começando a voltar. No ano passado, cerca de 90 mil turistas sérvios visitaram a Croácia.

Tomislav Popovic, um oficial de turismo da península Ístria no norte da Croácia, que foi à feira de turismo no mês passado em Belgrado, capital da Sérvia, disse estar otimista e acreditar que a promessa de férias idílicas no litoral aumente o turismo sérvio neste verão em mais de 50%. "Os sérvios querem vir para cá porque estamos mais próximos do mar, compartilhamos a mesma língua e é uma viagem barata de carro", diz ele.

Mesmo com a esperança no aumento de turistas sérvios, os empresários estão desacelerando. Strok, dono da GS Hotels e Resorts, investiu € 160 milhões, ou US$ 210 milhões, na construção de hotéis de luxo na Croácia, disse que o grupo reduziu os salários dos gerentes em até 25%. Para ajudar a atrair os clientes ricos, seu hotel cinco estrelas Excelsior em Dubrovnik oferece incentivos como vouchers de € 100 para compras em boutiques de luxo na cidade e desconto nas refeições no restaurante japonês do hotel.

O grupo espera que os turistas abastados da Itália, Áustria e Alemanha - países que há tempos têm laços econômicos fortes com a Croácia - desistam de viagens caras para além mar e escolham visitar a Croácia.

"Sem dúvida será um ano ruim a medida que o impacto total da falta de crédito ainda não nos atingiu", diz Strok.

No entanto, muitos empresários e economistas preveem que a Croácia conseguirá superar a crise, dizendo que sua história recente de guerra tornou o povo mais resiliente. Enquanto as economias de todo o mundo adotam pacotes de estímulo para incentivar os gastos, os economistas dizem que as pessoas nos Bálcãs não precisam de tanto encorajamento: a mentalidade de viver o agora é tão dominante que as pessoas gastam seu último centavo, até que não tenham mais gasolina para o carro.

Loius Frankopan, diretor da Zagrebacki Neboder, companhia de empreendimentos imobiliários que é dona de um dos prédios mais altos da capital da Croácia, resumiu a mentalidade do país misturando uma linguagem otimista com a de um banqueiro. "Deus deve ser croata, já que o país não está endividado por perigosos instrumentos fiscais, e os bancos não têm títulos tóxicos", diz ele.

Tradução: Eloise de Vylder

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