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23/03/2009

Fantasmas de uma era de prosperidade assombram um sistema bancário chinês do século 19

The New York Times
Edward Wong
Em Pingyao (China)
Aquela foi uma época de nova riqueza, uma era de prosperidade durante a qual famílias inteiras fizeram fortuna da noite para o dia.

Para movimentar o dinheiro, os empresários desta cidade no norte da China criaram bancos, os primeiros na história do país. Em breve surgiram agências por toda a China, e elas passaram a conceder empréstimos. O dinheiro fluía de várias maneiras.

Shiho Fukada/The New York Times 
Crise fez o sentimento de nostalgia aumentar em Pingyao, primeira capital bancária da China


Foi então que, tão rapidamente como surgiu, o sistema inteiro desmoronou. Os bancos faliram a a cidade ficou arruinada.

Essa foi a história da primeira capital bancária da China, que floresceu aqui na poeirenta província de Shanxi em meados do século 19, durante a dinastia Qing.

Com a economia global atualmente cambaleante devido à crise bancária que começou nos Estados Unidos, e no momento em que o crescimento econômico explosivo da China começa a sofrer uma desaceleração, o episódio de ascensão e queda de Pingyao pode ser visto por alguns como uma história que recomenda prudência.

Mas a atual crise financeira reforçou a sensação de nostalgia em relação a Pingyao que, com a sua muralha de 11 metros de altura da época da dinastia Ming, é uma das cidades medievais mais bem preservadas do país.

"Os bancos relatam uma história do desenvolvimento financeiro chinês. Por exemplo, a maneira como a China começou a passar do feudalismo para o capitalismo", diz Ruan Yisan, professor aposentado do departamento de Arquitetura da Universidade Tongji, em Xangai, que foi uma peça fundamental para a restauração de Pingyao. "As equipes dos bancos foram treinadas para ser objetivas e altamente responsáveis em relação à contabilidade dessas instituições. Agora, a corrupção é comum e as pessoas não valorizam muito as qualidades morais".

Atualmente, o antigo centro de Pingyao é um local onde 40 mil pessoas vivem espremidas em ruelas estreitas e casas ocultas atrás de decrépitas portas de madeira. A área rural ao redor da cidade é uma área seca composta por campos de painço e milho cobertos pelo fino sedimento amarelo típico do Platô Loess, uma das regiões da terra mais sujeitas à erosão.

No apogeu de Pingyao, os 22 bancos daqui lucravam com o próspero comércio da província de Shanxi, quando a seda e o chá eram exportados do sul da China para a Mongólia e a Rússia, e a lã seguia para o sul do país.

Segundo os acadêmicos, comparados aos excessos atuais, aquela era inicial do sistema bancário constituiu-se em uma época de uma ética empresarial sólida. Não havia hipotecas tóxicas nem instrumentos financeiros nebulosos. A confiança entre os empresários era tão forte que os bancos foram capazes de criar um sistema de transferências monetárias, créditos e emissão de cheques, o primeiro do gênero na Índia. Barras de prata eram a moeda corrente.

Mas algumas das práticas bancárias da época poderiam gerar estranheza nos dias de hoje.

Ainda são visíveis nas fachadas de dois andares dos bancos falidos aposentos para consumo de ópio e mesas para se jogar mah-jongg, bem como quartos nos quais as prostitutas contratadas pelos bancos praticavam a sua profissão para conquistar potenciais clientes.

Segundo Ruan e outros especialistas, quando o sistema bancário entrou em colapso antes da revolução comunista em 1949, isto não ocorreu devido a ganância ou incompetência por parte dos banqueiros. Segundo eles, um fator mais importante foi a derrubada da dinastia Qing em 1911, e o mergulho no caos que se seguiu, bem como a concorrência cada vez maior de bancos estrangeiros que contavam com grandes financiamentos e que tiveram permissão para fazer negócios na China.

O mergulho de Pingyao na pobreza deixou a cidade congelada no tempo.

O governo local não tinha dinheiro para modernizar-se. Assim, as muralhas da era Ming continuaram de pé, ainda que muralhas antigas em outras cidades chinesas, incluindo aquelas em torno de Pequim, fossem derrubadas pelos comunistas. Na área cercada pelas muralhas daqui, as famílias continuam vivendo em antigas residências - algumas delas nas instalações que no passado pertenciam aos prósperos bancos (imaginem a sede do Lehman Brothers convertida em uma área residencial comunitária).

"Os moradores mais velhos da cidade ficaram tristes e chateados", disse Yao Minlin, 48, um nativo de Pingyao que guiava um casal de visitantes estrangeiros pelas ruas estreitas em uma tarde recente. "Eles não queriam que os bancos fechassem porque não teriam mais rendimentos. Todos aqui dependiam dos bancos - comerciantes, guardas, donos de restaurantes".

Estimulados por preservacionistas como Ruan, as autoridades locais começaram a restaurar áreas de Pingyao na década de 1980, conferindo à cidade uma segunda vida como atração turística.

O primeiro banco da China, chamado Rishengchang, ou Alvorecer Sobre a Prosperidade, é atualmente um museu no centro da cidade, assim como quatro outros bancos.

Tão grande é a aura mística em torno dos bancos que líderes chineses fizeram peregrinações de Pequim para cá. Fotografias no Rishengchang mostram visitas de Hu Jintao, o atual presidente chinês; Jiang Zemin, o seu antecessor; e Zhu Rongji, o ex-primeiro-ministro. As visitas deles foram mais tranquilas do que a do imperador Guangxu, que dormiu em um dos bancos de Pingyao quando fugia de tropas invasoras europeias e japonesas em 1900. O povo de Pingyao acredita que os líderes atuais poderiam aprender com as formas antigas de fazer negócios.

"Até o final da dinastia Qing, os bancos de Pingyao tinham boas maneiras e gozavam de confiança", diz Li Yuerong, assessora de gerenciamento do museu no Rishengchang, que recebe cerca de 2.000 visitantes por dia. "Isso traz uma série de benefícios para o gerenciamento e o desenvolvimento financeiro".

Li observa que o primeiro gerente do Rishengchang, Lei Lutai, tinha 53 anos de idade quando começou a trabalhar no banco. Ela afirma que, nos dias de hoje, os empresários carecem da sabedoria conferida pela idade. "Eles querem enriquecer muito rapidamente", diz Li. "Não são capazes de caminhar passo a passo. Estão com pressa". É claro que a ideia de que as transações empresariais daquela época eram isentas de roubo e falcatruas não passa de um mito.

Os aposentos frios e escuros dos velhos bancos revelam a paranoia que crescia à medida que as pilhas de prata se acumulavam. Os cofres dos bancos eram buracos verticais escavados debaixo de estruturas elevadas de camas. Colchões ficavam sobre os buracos. Segundo Yao, que tem um parente que trabalhou no Rishengchang, dois ou três funcionários dos bancos sentavam-se ou dormiam sobre os colchões 24 horas por dia.

O medo criou as versões chinesas do Wells Fargo - companhias que protegiam a prata quando esta era transportada de uma cidade para outra. Os guardas tinham treinamento em artes marciais e portavam alabardas, clavas e machados de combate. Atualmente, nos fins de semana, um mestre ainda ensina kung-fu a crianças em uma das antigas escolas de artes marciais.

As memórias da antiga riqueza ainda persistem em outros prédios. Em um templo, multidões de moradores locais com palitos de incenso na mão curvam-se diante de um altar ao deus da riqueza. As famílias de Pingyao conhecem muito bem o velho ditado: "A riqueza não dura mais do que três gerações".

Tradução: UOL

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