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24/03/2009

Corpos encontrados deixam novo mistério para famílias de mulheres desaparecidas nos EUA

The New York Times
Dan Frosch
Em Albuquerque, Novo México
Na última vez em que alguém viu Michelle Valdez, ela estava trabalhando nas ruas da Zona de Guerra, um bairro de projetos habitacionais, heroína e lojas de sexo próximo da Universidade do Novo México.

Foi em 2004, e como um crescente número de jovens prostitutas daqui, Valdez, 22 anos e mãe de dois filhos, certo dia desapareceu. Exceto para um grupo fechado de mulheres ao lado das quais trabalhava, e para os pais que a perderam para as ruas, o desaparecimento de Valdez passou virtualmente desapercebido.

Mas em 2 de fevereiro, uma mulher levando seu cachorro para passear encontrou os ossos espalhados por uma área plana elevada na margem oeste da cidade. Logo depois, a polícia encontrou os restos mortais de Valdez e de seu feto de quatro meses. Ela também encontrou os restos mortais de outros 11 corpos, que a polícia diz que podem constar em uma lista de pelo menos 16 mulheres jovens que desapareceram em Albuquerque de 2001 a 2006.

A história dos corpos em West Mesa tem prendido a atenção da cidade por semanas, revelando uma Albuquerque mais sombria, onde mulheres jovens estavam desaparecendo sem que muita gente dessa atenção.

"Apesar de suas falhas, Michelle era sensível, generosa e amorosa", disse Karen Jackson, que estava à procura de sua filha desde o dia em que ela parou de telefonar para casa. "O fato de alguém ter feito isso com minha família, a descartando ali como se fosse lixo, sem nenhuma dignidade, me deixa devastada e furiosa."

Três outros corpos foram identificados - Julie Nieto, 28 anos; Cinnamon Elks, 36 anos, e Victoria Chavez, 30 anos - e a polícia diz que as mulheres se conheciam das ruas. O chefe Ray Schultz do Departamento de Polícia de Albuquerque disse que a cena de crime de 40 hectares é a maior na história da cidade e seu departamento está dedicando recursos consideráveis para a solução do caso.

"Nós estamos analisando todos os diferentes cenários e possibilidades", disse Schultz. "Todo mundo na organização está tratando deste caso pessoalmente."

Essas garantias soaram vazias para muitas famílias que temem que seus entes queridos tenham sido enterrados em West Mesa. Por anos, elas disseram, elas imploraram para que a polícia fizesse algo; mas o detetive encarregado do caso das mulheres desaparecidas, elas disseram, raramente retornava as ligações e mantinha as famílias no escuro.

Lori Gallegos, cuja amiga de infância Doreen Marquez desapareceu em outubro de 2003 e está na lista da polícia de mulheres desaparecidas, disse que a família de Marquez repassou muitas pistas para a polícia, mas aguardava meses até receber algum retorno. Os parentes descreveram Marquez como uma mulher jovem extrovertida que às vezes recorria à prostituição para sustentar seu vício em heroína.

"Você acha que a polícia deveria ajudar", disse Gallegos. "Isso me deixa furiosa. Eles desprezaram Doreen como se seu desaparecimento não fosse importante."

Schultz contestou as acusações de que os casos foram ignorados porque muitas mulheres eram prostitutas. "Nós não desconsideramos estes casos", ele disse.

Ele disse que o desaparecimento de algumas mulheres só foi informado após meses, o que dificulta a investigação.

Em uma reunião em Albuquerque, as famílias das mulheres na lista distribuíram fotos dos entes queridos e disseram ter realizado buscas nas ruas da cidade por conta própria.

Um homem, John Peebles, vinha de carro de Fort Worth, Texas, todo ano na esperança de encontrar sua filha Leah, que desapareceu em 22 de maio de 2006.

Peebles disse que sua filha, uma cabeleireira, começou a usar heroína na adolescência, após ser estuprada por um conhecido do colégio, e se mudou para Albuquerque para recomeçar sua vida. Quase três semanas depois, ela desapareceu.

Ele espalhou folhetos por toda a cidade, revirou bairros perigosos e foi cercado por cafetões irritados. Certa noite, uma prostituta drogada o levou até atrás de uma parada de caminhões, onde ela prometeu que a filha dele estava esperando. Mas a pista da mulher provou ser infrutífera.

"Eu realmente achei que a encontraria", disse Peebles. "Foram muitas noites sem dormir e dias que passei doente. Eu daria qualquer coisa para vê-la de novo."

As teorias sobre o assassino são sussurradas entre as famílias e nas ruas de Albuquerque.

Jackson lembrou que poucos meses após o desaparecimento de Valdez, sua irmã Camille recebeu um telefonema estranho de uma amiga, oferecendo condolências e dizendo que soube que Valdez tinha sido "esfaqueada um punhado de vezes e jogada em algum lugar".

No ano passado, Gallegos rastreou um cafetão que disse que tinha fotos nuas de algumas das mulheres desaparecidas, incluindo Marquez. Mas o homem lhe disse que não sabia o que aconteceu a Marquez, e ele morreu em janeiro, antes que Gallegos conseguisse extrair mais informações dele.

A família de Darlene Trujillo, outra desaparecida, está convencida de que ela foi sequestrada e levada ao México após desaparecer com um traficante de heroína em 4 de julho de 2001. Um homem que alegava ter informação sobre Trujillo apareceu assassinado, disse Liz Perez, uma amiga da família.

Uma das muitas teorias que a polícia diz estar considerando envolve um homem chamado Lorenzo Montoya. Em 16 de dezembro de 2006, em um caso bastante divulgado, Montoya amarrou e sufocou até a morte uma jovem prostituta, Shericka Hill, após a atrair até seu trailer a poucos quilômetros de West Mesa. O cafetão de Hill, que passou a suspeitar enquanto aguardava do lado de fora, invadiu o trailer, atirou e matou Montoya.

Segundo um artigo no "The Albuquerque Journal" na época, Montoya tinha um histórico de solicitar prostitutas. Ele também já tinha sido acusado de atacar sexualmente uma prostituta, mas o caso foi arquivado.

A polícia notou que o forte aumento no número de mulheres desaparecidas parou por volta da época da morte de Montoya. Uma ex-prostituta, que tinha amizade com algumas das vítimas, disse em uma entrevista que foi sufocada e estuprada por Montoya depois que ele a pegou na Zona de Guerra, em 1995.

"Ele me disse: 'Você está com sorte, eu ia matar você'", lembrou a mulher, uma ex-prostituta a qual foi concedido anonimato por acreditar que ela e sua famílias poderiam enfrentar consequências.

De volta a West Mesa, uma equipe de peritos do FBI, policiais locais e um arqueólogo continua escavando a terra, enquanto o escritório médico legal estadual trabalha para identificar os restos mortais restantes.

Enquanto isso, algumas famílias estão tentando levantar dinheiro para os funerais que sentem que se aproximam. Outras continuam procurando por respostas por conta própria.

"É o sentimento mais horrível, porque não sabemos se devemos ficar de luto, furiosos ou nos agarrarmos ao pequeno brilho de esperança", disse Gallegos. "Ninguém nos deu ouvido por tantos anos."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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