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24/03/2009

Fronteira entre a Croácia e a Eslovênia passa no meio de um salão de bar

The New York Times
Dan Bilefsky*
Em Obrezje (Eslovênia)
Os clientes da Kalin, uma taverna rústica de 180 anos, podem saborear jantares à base de carne de porco aqui na Eslovênia, andar alguns metros pela sala até a Croácia para usar o banheiro, voltar à Eslovênia para pagar a conta e terminar a refeição em solo croata com um jogo de bilhar e uma dose de brandy de pera local.

Isso é possível devido aos caprichos da história e a um acidente geográfico. Para evitar qualquer confusão, Sasha Kalin, 36, o proprietário da taverna, pintou uma linha amarela fluorescente no assoalho para demarcar o local exato, perto da mesa de bilhar, onde a fronteira entre a Eslovênia e a Croácia corta a propriedade.
  • Johan Spanner/The New York Times

    Faixa de tinta no chão de taverna marca a fronteira entre Croácia e a Eslovênia



Fregueses embriagados que saem da estalagem e acidentalmente cruzam uma fileira de plantas em recipientes de concreto que assinala a fronteira são abordados por guardas de fronteira croatas de cara fechada e armados.

"Isto aqui são os Bálcãs, de forma que qualquer pedacinho de terra é importante", afirma Kalin, que tem pai esloveno e mãe croata, e que acordou um dia em maio de 2004 e descobriu que a metade eslovena do seu restaurante ficava na União Europeia, mas que a metade croata estava fora da organização.

Determinar onde a Eslovênia termina e a Croácia começa dava a impressão de ser uma questão regional sem qualquer significado prático. Mas isso adquiriu subitamente uma importância política e, atualmente, uma disputa de fronteira que remonta à época do colapso da Iugoslávia, na década de 1990, ameaça paralisar a expansão para leste da União Europeia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

O conflito envolve uma fronteira marítima com o comprimento de vários campos de futebol e alguns pequenos vilarejos no norte da Península Ístria. Embora para quem não esteja familiarizado com a questão seja difícil entendê-la, ela é muito séria para os orgulhosos eslovenos e croatas em uma região há muito flagelada por conflitos sangrentos pela terra.

Estão em jogo reivindicações conflitantes de uma área na Baía de Piran que inclui cerca de 21 quilômetros quadrados do Mar Adriático. A Croácia deseja que a fronteira seja traçada no meio da baía, mas a Eslovênia rejeita a ideia, afirmando que uma simples divisão impediria os seus navios de ter acesso direto ao alto mar.

Paradoxalmente, embora a região tenha se envolvido em guerras na década de 1990, a Eslovênia e a Croácia, ambas integrantes da antiga Iugoslávia, nunca se enfrentaram em um conflito armado. Embora possuam línguas distintas, as duas faziam parte do Império Austro-Húngaro e compartilham uma identidade religiosa católica.

Mas existe uma rivalidade persistente. Os eslovenos, que se orgulham da sua ética centro-europeia de trabalho, desprezam os croatas, por considerá-los desrespeitadores da lei, preguiçosos e excessivamente nacionalistas. Já os croatas zombam dos eslovenos, chamando-os de pretensiosos e destituídos de senso de humor. Eles também ridicularizam a Eslovênia pelo seu tamanho minúsculo.

A Eslovênia foi a primeira nação da antiga Iugoslávia a ingressar na União Europeia, em 2004, e foi o primeiro país ex-comunista a adotar o euro. A Croácia está ansiosa para entrar na União Europeia, mas em dezembro do ano passado a Eslovênia tomou a iniciativa de paralisar as articulações croatas nesse sentido.

A menos que o impasse seja resolvido nas próximas semanas, dificilmente a Croácia concluirá as negociações para ingressar na organização até o final do ano, o que geraria dúvidas quanto ao futuro da expansão da união no oeste dos Bálcãs.

O desacordo também ameaça um dos elementos da comemoração dos 60 anos da Otan, no mês que vem, em Estrasburgo, na França, quando a Croácia e a Albânia deverão ingressar na aliança.

Embora o governo da Eslovênia insista que apoia a entrada da Croácia na Otan, o Partido da Nação Eslovena, um grupo nacionalista, está se apressando a obter as 40 mil assinaturas necessárias para forçar a realização de um referendo sobre a proposta de ingresso da Croácia na aliança militar. Caso haja um plebiscito e os eleitores digam não, o governo esloveno poderá ver-se obrigado a bloquear a entrada da Croácia.

"A Eslovênia está fazendo mau uso da sua posição como integrante da União Europeia e acha que pode nos chantagear", disse em uma entrevista Tomislav Jakic, assessor de política externa do presidente Stjepan Mesic, da Croácia. "Mas o ponto central dessa história é que não estamos dispostos a pagar com o nosso território o nosso ingresso na União Europeia".

Jakic disse que a passagem desimpedida de navios eslovenos pelas águas croatas é garantida pela legislação internacional, afirmando que isso faz com que as alegações da Eslovênia não tenham sentido.

Iztok Mirosic, coordenador de assuntos relativos à Croácia no Ministério das Relações Exteriores da Eslovênia, diz, no entanto, que a Eslovênia sempre teve "contato direto" com o alto mar quando fazia parte da Iugoslávia, e que a manutenção desse direito é uma questão de princípios.

Além do mais, ele afirmou que a Croácia, e não a Eslovênia, vinculou inicialmente a disputa de fronteira às conversações para o ingresso na organização.

"Nós não desejamos impedir a Croácia de ingressar na União Europeia", afirmou Mirosic. "Mas, a menos que cheguemos a um acordo, teremos que fazer isso".

Borut Grgic, fundador do Instituto de Estudos Estratégicos em Liubliana, a capital da Eslovênia, argumenta que os dois lados estão tentando explorar o desentendimento para ajudar a forjar uma identidade nacional em seus jovens países, mas advertiu que isso poderia criar um precedente perigoso.

"Atualmente a Eslovênia está dificultando as coisas para a Croácia", afirma Grgic. "Mas, se a Croácia entrar na União Europeia, ela dificultará as coisas para a Sérvia, e a seguir a Sérvia bloqueará o Kosovo. Como resultado dessas disputas, a região inteira poderá dar um passo para trás".

Aqui em Obrezje, na Eslovênia, e do outro lado do aposento, em Bregana, na Croácia, a batalha pela terra tem deixado os ânimos mais exaltados. Quando a Iugoslávia foi dissolvida, em 1991, foi erigida uma fronteira ao longo de um rio sinuoso, formalizando a divisão entre as cidades.

Atualmente, alguns croatas ainda jantam na Taverna Kalin, mas o proprietário lamenta que a ressurgência do nacionalismo esteja mantendo a clientela afastada - além de gerar o incômodo de obrigar os cidadãos a exibir o passaporte todas as vezes que cruzam a fronteira.

Em uma tarde chuvosa, dois entediados guardas de fronteira da Eslovênia sentavam-se em frente ao restaurante. Eles sentiam o aroma da carne de porco assada lá dentro, mas não ousavam entrar.

"Jamais comeremos lá", disse um deles, que se recusou a fornecer o nome à reportagem. "Se comêssemos, poderíamos pisar acidentalmente em território croata e causar um incidente internacional".

*Eugene Brcic, em Zagreb, na Croácia, contribuiu para esta reportagem.

Tradução: UOL

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