UOL Notícias Internacional
 

27/03/2009

Futebol fornece um oásis para cidade mexicana devastada pela guerra de drogas

The New York Times
Jere Longman
Em Ciudad Juarez, México
Mais de meia dúzia de jogadores de futebol recusaram-se a entrar para um time profissional nesta cidade de fronteira, onde tantos corpos torturados e decapitados aterrorizam visitantes e moradores. Os que jogam no time moram em áreas fechadas, com muros altos cobertos com arame farpado para se protegerem da guerra por território entre os cartéis de drogas que deixaram quase 2.000 pessoas mortas nos últimos 14 meses.

Apesar do ambiente hostil, o time, chamado Índios, chegou à primeira divisão da Liga Mexicana em maio. Está lutando para manter a posição nesta temporada, assim como seus torcedores. Na semana passada, enquanto a polícia anunciava a descoberta de nove corpos enterrados perto desta cidade fronteiriça, o ambiente no Estádio Olímpico Benito Juarez era de celebração, não de apreensão.

Bruce Berman/The New York Times 
Torcedores do Índios no estádio Benito Juarez, em Ciudad Juarez, México

Os Índios operam em uma espécie de zona neutra, difícil de manter. Uma turma de 250 a 400 policiais e seguranças controla a multidão em dia de jogo. Alguns jogadores disseram que saíam de casa só para os treinos e jogos ou para comprar itens necessários, mantendo-se nas ruas principais à luz do dia e restringindo seus passeios noturnos. Suas esposas devem andar em grupos quando levam as crianças para a escola.

"Eu evito assistir o noticiário, para me sentir mais seguro", disse por meio de um intérprete Javier Saavedra, novo zagueiro do time.

Entretanto, as manchetes sombrias, o assassinato do subchefe de polícia e as ameaças de decapitar o prefeito não detiveram os torcedores, ao menos nos dias de jogo. O estádio, na outra margem do Rio Grande de El Paso, Texas, fica lotado, com 22.000 torcedores. Os pais se sentem seguros o suficiente para levar os filhos. O prefeito Jose Reyes Ferriz assistiu ao jogo no domingo, junto com uma alta autoridade do Estado de Chihuahua. Até o bispo de Juarez ocasionalmente é visto nas arquibancadas.

"Temos um pouco de medo, mas ainda assim temos que levar nossas vidas", disse Omar Gurrola, motorista de ônibus que trouxe seu filho de cinco anos ao estádio.

No domingo, os portões se abriram às 9h, duas horas antes do início do jogo. Os torcedores chegavam ao som de música mariachi com faixas na cabeça, camisas dos times e máscaras emprestadas da tradição mexicana da luta profissional. Dançarinas giravam usando top e short de lycra.

"Essa é nossa forma de escapar da realidade, da violência e das más notícias", disse Miguel Carbajal, presidente da maior torcida organizada dos Índios, que usava um lenço do time e um rosário para dar sorte.

Em maio, quando os Índios venceram uma partida para chegar à primeira divisão depois de seu terceiro ano de existência, dezenas de milhares de torcedores ignoraram uma advertência de email que dizia que o final de semana seria o "mais sangrento e mortífero" da história de Juarez.

Em vez de se acovardarem, os torcedores foram para as ruas, ficaram em pé nos carros e nos telhados das casas, parando o tráfego e comemorando enquanto os jogadores eram levados do aeroporto para a Igreja de San Lorenzo para agradecer o triunfo.

"Recobramos a parte da cidade que estava faltando", disse Victor Valencia de los Santos, a mais alta autoridade em Juarez, maior cidade de Chihuahua com 1,3 milhão de habitantes.

"Tínhamos medo de todo mundo, de tudo", disse Valencia. "Graças à euforia que os Índios trouxeram para a cidade começamos a nos recuperar. Ainda temos problemas, mas as pessoas sentem que podem sair de casa e serem boas vizinhas e tomar uma bebida com um desconhecido porque está usando uma camisa ou um boné dos Índios".

Nem mesmo o futebol, contudo, tem sido plenamente imune ao medo da violência.

Preocupações com o narcotráfico e a crise econômica adiaram os planos de construção de um novo estádio com 37.000 lugares. Ficou mais difícil atrair patrocinadores corporativos e comprar passes. Andrés Chitiva, colombiano, foi liberado em dezembro, em parte porque não jogou bem, em parte porque estava abalado com um telefonema ameaçador, disseram funcionários do time.

"Ele ficou com medo. Eles queriam dinheiro, senão ameaçaram sequestrar seus filhos", disse Francisco Ibarra Molina, presidente do time.

Dois outros jogadores dos Índios, Ezequiel Maggiolo e Juan Ramon Curbelo, enviaram suas famílias de volta para casa para Argentina e Uruguai, respectivamente, após o aumento da violência no início do ano. Ibarra disse que logo ia enviar seus três filhos mais jovens para a escola em El Paso, onde é mais seguro.

"Estou com certo medo", disse Ibarra, cuja família é dona de uma firma de construção proeminente. "Nasci em Juarez e moro aqui há 46 anos. Espero morrer nesta cidade, mas não de tiro."

Diferentemente de muitos atletas profissionais nos EUA, que andam armados por proteção, os mexicanos são proibidos por leis mais restritivas, disseram funcionários do time. Ainda assim, os jogadores dos Índios disseram que não se sentiam particularmente ameaçados. A segurança é tranqüila durante os treinamentos, e os jogadores podem entrar e sair sem guarda-costas. Além daquele telefonema ameaçador para Chitiva, os jogadores disseram que nada tinham vivenciado além de um único carro roubado, uma chateação relativamente menor, dadas as circunstâncias.

Após um fevereiro sangrento, as mortes aqui caíram de uma média de 10 por dia para cerca de uma por dia, depois que 2.000 policiais federais e 5.000 soldados entraram em Juarez, disse Reyes.

"Provavelmente, alguns traficantes vêm aos jogos, mas então vêm para se divertir, não para fazer mal a ninguém. O futebol é neutro, como um acordo entre o bem e o mal", disse Jesus Rodriguez, sociólogo e jornalista em Juarez.

Antes do jogo de domingo, três velas foram acesas no vestiário em um altar para Nossa Senhora de Guadalupe, uma imagem da Virgem Maria do século 16. Os jogadores reuniram-se em círculo, enquanto um padre fez uma prece, depois começaram a abraçar uns aos outros e a gritar "vamos lá".

Uma vitória contra os Tigres de Monterrey era considerada vital. Os Índios estão tentando se manter na primeira divisão, que tem 18 times, em sua temporada iniciante. O clube pode valer US$ 30 milhões, mas valeira apenas US$ 1 milhão em uma divisão menor, pois perderia dinheiro de transmissões de televisão, patrocínios e prestígio, disse Ibarra. E também haveria um custo psicológico.

"Os Índios são esperança e celebração", disse ele. Um rebaixamento no final da temporada em maio "pode trazer uma depressão feia".

Nenhuma prece, contudo, parecia suficiente quando os Índios estavam perdendo de 2 a 0 no primeiro tempo. O ânimo melhorou consideravelmente quando conseguiram um empate de 2 a 2. Não foi uma vitória, mas também não foi uma derrota.

"Depois daquele começo, um empate está bem", disse Reyes. "Os restaurantes vão estar cheios. Os vendedores, felizes."

Ele deixou o estádio com seis seguranças, mas parou do lado de fora para apertar mãos e posar para fotos com os torcedores dos Índios aliviados.

"A vida é normal", disse ele. "Há ameaças, e são reais. Temos que tomar cuidado. Mas vou continuar fazendo minhas coisas. Não serei um escravo em minha cidade."

Tradução: Deborah Weinberg

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