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27/03/2009

Longe de casa, joqueta brasileira galopa em grande velocidade

The New York Times
Cara Buckley
Em Nova York
A primeira corrida no Aqueduct na quinta-feira transcorreu sob um clima instável e neblina. Foi difícil, no início, distinguir a joqueta de verde e branco montada na égua cor castanha Spa Princess em meio à tropa trovejante, até a curva final.

Spa Princess disparou à frente, superando dois cavalos para ficar cabeça a cabeça com o líder - e então passou à frente. Ela venceu o sprint final por três quartos de corpo, conquistando um prêmio de US$ 22 mil.

  • Christian Hansen/The New York Times

    Maylan Studart, brasileira de apenas 20 anos, comemora a 40ª vitória, aquela que transformou uma aprendiz em uma joqueta profissional

  • Christian Hansen/The New York Times

    A jovem cuida de seu cavalo favorito, o Catskill Bay, em Belmont Park, em Nova York

  • Christian Hansen/The New York Times

    Studart, dispara com o cavalo Spa Princess, e vence o sprint final por três quartos de corpo, o que garantiu uma premiação de US$ 22 mil

  • Christian Hansen/The New York Times

    Após vitória, a brasileira abraça seu mentor, John DaSilva, que bancou visto para levá-la para os EUA

A joqueta de verde e branco empinou o cavalo e deu meia-volta, com um sorriso de orelha a orelha em seu rosto sujo de lama.

Para os fãs, era apenas mais um dos nove páreos em um dia melancólico no hipódromo em Queens, pagando US$ 4,60 por US$ 2 de aposta. Mas para a joqueta, Maylan Studart, uma brasileira de 20 anos que se mudou para o Queens no ano passado para competir em um esporte predominantemente masculino e enviar parte de sua renda para casa para sua família separada, foi a culminação de uma jornada improvável, frequentemente solitária. Era sua 40ª vitória, aquela que transformou uma aprendiz em uma jóquei profissional.

"A pressão acabou, a pressão acabou!" ela gritava, com olhos arregalados, enquanto seu cavalo era conduzido para fora da pista. "Não acredito. É maravilhoso."

Studart adora cavalos desde que é capaz de se lembrar, desde que seu pai a colocou sobre um ainda pequena. Ao longo dos anos, enquanto a sorte e as relações da família se tornavam instáveis e problemáticas, os cavalos se tornaram sua constante, seu consolo e no final sua fuga.

Seus pais se separaram quando ela tinha 3 anos. Quando tinha 7 anos, ela se mudou do Rio de Janeiro para Los Angeles com sua mãe, padrasto e irmão mais velho, que tem síndrome do X frágil, uma causa de retardo mental. O padrasto de Studart morreu quatro anos depois, o que levou a família a voltar ao Rio, onde seu pai lhe comprou um cavalo, Trovão.

Ela se dedicou ao hipismo, correndo em trilhas de montanha, fazendo cursos e participando de competições. Mas quando ela completou 14 anos, Thunderbolt morreu e sua mãe, que não estava trabalhando, lhe disse que a família não poderia bancar suas atividades de hipismo.

Naquele ano, Studart assistiu sua primeira corrida de cavalos e ficou em transe, com o coração disparado, enquanto assistia aos jóqueis competirem. "Eu me apaixonei", ela lembrou. "Eu queria fazer parte daquilo."

Havia uma escola para jóqueis perto da casa dela, mas ela não aceitava jovens com menos de 16 anos e contava com dormitórios apenas para ginetes do sexo masculino. Assim, Studart esperou por dois anos, pressionando para ser aceita, e quando os responsáveis cederam, ela passou a montar qualquer cavalo que podia. "Não me deram nenhuma oportunidade", ela lembrou, "e me deram apenas os piores cavalos para montar".

Mesmo assim, ela obteve algumas vitórias e chamou atenção ao posar de biquíni para uma revista. "No Brasil, publicidade sensual faz bem para você. É a cultura", ela disse.

John DaSilva, que cobre turfe para o jornal "The New York Post" e realizou alguns trabalhos ligados ao turfe no Brasil, a conheceu e se tornou uma espécie de mentor. Um amigo treinador de DaSilva bancou um visto para trazer Studart para os Estados Unidos. Ela chegou em Miami em abril de 2008 e foi instruída sobre os nuances do turfe americano por Manuel Cruz, um jóquei brasileiro do Calder Race Course de lá. Sua primeira corrida foi em julho de 2008, sua primeira vitória em agosto. Em outubro, após 10 vitórias em Calder, ela se mudou para Nova York, ficando inicialmente hospedada com o agente dela e a esposa dele, então alugando um apartamento com uma colega de quarto perto de Belmont Park.

Ela ficou muito apreensiva com o frio. "Eu nunca tinha visto neve" ela disse. "Mas você sabe qual é o segredo? Camadas."

Apesar de ainda serem raras, joqueta atuam nos Estados Unidos desde 1969; três dos sete ginetes que Studart derrotou na quinta-feira eram mulheres.

Studart começa a maioria dos dias em Belmont às 7h da manhã. Ela passa as manhãs realizando "breezing" - um jargão de turfe para galopar em máxima velocidade - com cavalos de vários treinadores, com as tranças de seu cabelo voando atrás dela. Ela participa de corridas na maioria das tardes e geralmente vai à sala de ginástica duas vezes por dia.

Rodrigo Ubillo, que treina Spa Princess, disse que contratou Studart por seu foco e por sua conexão com os cavalos. "O mais importante é que os cavalos correm para ela", ela disse.

Além de DaSilva, Studart disse que não tem muitos amigos; ela se casou com seu antigo namorado antes de partir do Brasil, mas o relacionamento foi prejudicado pela distância. Ela não vê sua família há um ano, apesar de ajudar a sustentar sua mãe, que não trabalha.

Ao ser questionada de quem se sente próxima, Studart citou Catskill Bay, um garanhão também treinado por Ubillo. "Nós temos uma conversa silenciosa", ela disse. "Eu o entendo bem."

Agora que Studart não é mais uma aprendiz, suas perspectivas não são claras, especialmente com jóqueis mais experientes chegando a Nova York para a temporada de verão. Os treinadores tendem a preferir os aprendizes -apelidados de "bugs" por causa dos asteriscos que aparecem após os seus nomes nos programas- porque carregam menos peso. (Alguns cavalos são obrigados a carregar peso adicional para tornar as corridas mais competitivas.)

Até agora, Studart, que tem um 1,55 metro e pesa em torno de 51 quilos, tinha um desconto de 3 quilos, o que significa que podia cavalgar 3 quilos mais leve do que jóqueis profissionais.

"É como uma formatura no colégio", disse DaSilva, ainda radiante após ver a vitória de Studart na quinta-feira. "Ela está ingressando no mundo real agora."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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