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28/03/2009

Cidade italiana dispensa os ônibus escolares para proteger o meio ambiente

The New York Times
Elisabeth Rosenthal
Em Lecco (Itália)
Toda manhã, cerca de 450 alunos viajam por 17 rotas de ônibus escolares para 10 escolas elementares nesta cidade na ponta sul do lago Como. Há zero ônibus escolares.

Em 2003, para confrontar a ameaça tripla de obesidade infantil, engarrafamentos e -mais importante- o aumento nos gases de efeito estufa por emissões de carros, um grupo ambiental local propôs um conceito retro-radical: que as crianças caminhassem para a escola.

Eles montaram o "piedibus" (literalmente pé-ônibus em italiano) -uma rota com motorista mas sem veículo. Toda manhã, funcionários pagos e pais voluntários vestem roupas amarelas fluorescentes e lideram filas de alunos a pé ao longo das ruas tortuosas de Lecco até os portões da escola, parando aqui e ali, enquanto o grupo cresce.

Dave Yoder/The New York Times 
Franco Tentori e outros voluntários levam crianças à escola em Lecco, Itália

Na escola Carducci, 100 crianças, mais da metade dos alunos, atualmente pegam os ônibus a pé. Muitas delas antes vinham de carro. Giulio Greppi, um menino louro de nove anos, disse que antes percorria de carro o trajeto de cerca de 600 metros até a escola. "Assim encontro meus amigos e nos sentimos especiais porque sabemos que é bom para o ambiente", disse ele.

Apesar das rotas terem menos de 1,5 km, os piedibus da cidade até agora eliminaram mais de 160.000 km de viagem de carro e, a princípio, impediram que milhares de toneladas de gases de efeito estufa entrassem no ar, estima o auditor de ambiente da cidade, Dario Pesenti.

O número de crianças que vão à escola de carro está subindo nos EUA e na Europa, dizem especialistas nos dois continentes, e é responsável por uma parte considerável da contribuição do transporte para as emissões de gases de efeito estufa. O transporte escolar foi responsável por 18% das viagens de carro de moradores do Reino Unido no ano passado, segundo uma pesquisa nacional.

Em 1969, 40% dos alunos nos EUA caminharam para a escola; em 2001, os dados mais recentes coletados, esse número foi de 13%, de acordo com o Setor Nacional de Viagens Familiares.

O ônibus a pé de Lecco foi o primeiro na Itália, mas centenas surgiram em outras partes da Europa e mais recentemente na América do Norte para combater a tendência.

Cidades na França, Reino Unido e em outros locais na Itália criaram tais rotas, apesar de poucas serem tão extensas e duradouras quanto as de Lecco. Nos EUA, as cidades de Columbia, Marin County e Boulder introduziram programas modestos de ônibus a pé no ano passado, como parte de um esforço nacional chamado Rotas Seguras para a Escola, que dá verbas aos Estados para estimularem os alunos a andarem a pé ou de bicicleta.

Apesar das emissões de dióxido de carbono da indústria estarem declinando nos dois continentes, as de transporte são responsáveis por quase um terço de todas as emissões de gases de efeito estufa nos EUA e 22% na União Européia. No mundo todo, há grande pressão para a redução das emissões dos carros, especialmente na Europa, onde os países prometeram reduzir a produção de gases de efeito estufa até 2012 sob o protocolo de Kyoto da ONU.

No ano passado, a Agência Ambiental Europeia advertiu que o transporte para a escola -junto com a importação de alimentos e viagens aéreas baratas- era um fenômeno crescente com sérias implicações para o efeito estufa.

Nos EUA e na Europa, "várias tendências estão distorcendo a forma tradicional de ir à escola e tornando mais difícil para as crianças andarem", disse Elizabeth Wilson, pesquisadora de transporte do Instituto Humphrey de Interesses Públicos da Universidade de Minnesota. Entre esses fatores estão: o aumento da frota de carros particulares; famílias de filho único, apreensivas de enviar a criança sozinha para a escola; cortes no serviço de ônibus escolares ou a cobrança de tarifas pelo transporte como resultado nos cortes dos orçamentos das escolas e variações do preço do combustível; declínio das escolas de bairro e o aumento da "escolha da escola", significando que os alunos muitas vezes moram mais longe de onde estudam.

Ainda pior, disse Roger L. Makett, professor do Centro de Estudos de Transporte do University College em Londres, há evidências crescentes que as crianças cujos pais dirigem muito vão se tornar adultos dependentes do carro. "Você está criando um hábito para a vida toda", disse ele.

Em Lecco, o uso de carros provou-se um hábito tenaz, apesar do piedibus ter funcionado. "Os carros dominam", disse Augosto Piazza, fundador e participante onipresente do programa, um homem travesso com olhos azuis brilhantes, com um andar pulado e vestindo roupa amarela. Enquanto "dirigia" uma rota de ônibus em recente manhã, os donos das lojas acenavam alegremente para os grupos familiares de crianças tagarelas.

No entanto, ao chegarem à escola Carducci, dezenas de carros particulares estavam estacionados para deixar crianças na pequena praça, enquanto mães conversavam em uma calçada. "Tenho dois filhos em escolas diferentes, e as mochilas deles são muito pesadas", disse Manuela Corbetta, que vestia jaqueta preta e óculos escuros, girando a chave do carro enquanto explicava porque os filhos não podiam fazer a caminhada de 15 minutos. "Às vezes, eles têm 10 cadernos, então andar não é muito prático."

Algumas crianças são deixadas pelos pais a caminho do trabalho e outras moram fora do perímetro do piedibus, apesar de haver pontos de coleta nos limites da cidade para tais crianças. Muitos, porém, moram bem na rota do piedibus, observou Piazza.

Outros pais, contudo, elogiaram o ônibus a pé, dizendo que tinha ajudado os filhos a dominarem a segurança nas ruas e tinha um efeito em cascata na família. "Quando saímos às compras pensamos em ir a pé -não usamos o carro automaticamente", disse Luciano Prandoni, programador que é voluntário na rota da filha.

A prefeitura de Lecco contribui com aproximadamente US$ 20.000 por ano para organizar e prover funcionários para o piedibus. Os alunos fazem uma espécie de serviço público: são estimulados a entregar advertências aos carros que estacionam ilegalmente e a chamar a atenção dos donos de cães que não limpam as ruas.

Naturalmente, algumas crianças reclamam em dias de chuva. A participação cai 20% nesses dias, apesar desse número aumentar quando neva. "Em dias de chuva, ela diz: 'Mãe, me leva, por favor', e algumas vezes eu cedo", disse Giovanna Luciano, que mora no campo e normalmente leva a filha Giulia, 9, a um ponto de coleta do piedibus em um estacionamento perto de um cemitério.

Para estimular o uso das rotas, as crianças recebem cartões que são furados a cada dia. As rotas têm nomes distintos (aquela que passa pelo cemitério chama-se mortobus) e competem por prêmios como pizzas para as crianças.

Professores fazem os alunos escreverem poemas sobre o piedibus.

No Reino Unido, cerca de metade do sistema escolar atualmente tem incentivos para estimular a caminhada, apesar de, em geral, serem menos formais que o piedibus, disse Roger L. Mackett, professor do Centro de Estudos de Transportes do University College em Londres.

"Requer bastante esforço para manter", disse ele. "É sempre mais fácil colocar as crianças no carro. Quando você tem dois ou três carros, é preciso esforço para não usá-los."

Tradução: Deborah Weinberg

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