UOL Notícias Internacional
 

29/03/2009

Reino Unido tenta resolver o problema da arquitetura de Le Corbusier "mal executada"

The New York Times
Michael Kimmelman
Em Londres (Inglaterra)
É estranho pensar que o arquiteto modernista Le Corbusier tenha exercido sobre as residências do Reino Unido uma influência maior do que em qualquer outro país europeu.

Isso é estranho porque ele nunca projetou um edifício aqui, e também porque tantos britânicos não nutrem por ele grande simpatia. Desde a década de 1970 ele tem sido tão popular aqui quanto a seleção francesa de futebol. E, desde aquela década, vários projetos de concreto construídos no estilo de Le Corbusier, muitos dos quais feitos após a guerra, para amenizar a escassez de residências na nação que convalescia da guerra, foram demolidos ou relegados ao abandono.

Steve Forrest/The New York Times 
Visitantes observam trabalho em exposição no Centro Barbican, em Londres


Mas, conforme disse recentemente Peter Rees, antiga autoridade de planejamento municipal de Londres, referindo-se a toda a gama de tais projetos: "Ou foram demolidos, ou atualmente não são amados".

Amados pode ser um exagero. Mas existe pelo menos um novo debate a respeito de preservar ou não aquilo que costumava ser visto simplesmente como uma arquitetura corbusieriana mal executada. De vez em quando uma figura cultural proporciona uma pequena janela para que se entenda a identidade mutante do país, e, no Reino Unido, o gênio arquitetônico nascido na Suíça, e morador de Paris, que morreu em 1965, aos 77 anos, pode ser neste momento uma figura desse tipo.

Uma excelente exposição itinerante do seu trabalho, no Centro Barbican, em Londres, acabou revelando-se, entre outras coisas, popular. Grandes multidões têm visitado a galeria, ela própria um sinal de um certo revisionismo de Le Corbusier, já que o Barbican, inaugurado em 1982 próximo a Catedral de Saint Paul, e projetado pela firma britânica Chamberlin, Powell & Bon, em um estilo brutalista que Le Corbusier em parte inspirou, sempre foi um desses lugares que os londrinos adoram detestar. Eles o elegeram o prédio mais feio da cidade em uma pesquisa feita em 2003, e há muito reclamam do seu labirinto ininteligível de concreto, composto de passarelas e túneis subterrâneos.

Mas Corinna Gardner, curadora da exposição, diz que londrinos inteligentes estão de fato se mudando para o Barbican Estate e o Golden Lane Estate, vastos complexos de apartamentos que, com o Centro Barbican, compõem aquilo que Rees descreve como o maior conjunto urbano inspirado em Corbusier em toda a Europa. Da mesma forma, o reformado Centro Brunswick, perto da Russel Square, um outro mastodonte brutalista, com um desenho de zigurate, que já foi um exemplo infame de habitação popular, passou a ser bem visto. Em um dia desses, londrinos chiques passeavam pelo seu elegante shopping center.

Gardner acrescenta que as "ladies who lunch" (termo que designa mulheres ricas, magras e bem vestidas da alta sociedade que se reúnem para almoçar juntas em dias de semana) chegaram a aparecer na exposição de Le Corbusier, quando, não faz muito tempo, elas jamais teriam sido vistas no Barbican. Isso não chega a provar que a cultura nacional passou por uma reviravolta, mas faz apenas três anos que uma pesquisa sobre design moderno no Museu Victoria e Albert provocou uma enxurrada de cartas raivosas aos jornais, que escolheram Le Corbusier como saco de pancadas. O problema de Le Corbusier, ao que parece, não foi apenas o fato de uma ou duas gerações de arquitetos britânicos terem trocado os projetos dele pelos seus próprios projetos urbanos, para elaborar blocos de apartamentos modulares de concreto que frequentemente não tinham muito boa qualidade.

Havia também algo meio "não britânico" quanto a ele.

"Nós sempre pensamos em morar em casas, e não em apartamentos, e tendemos a ser muito tradicionais", explica Gardner. Ela fala ao lado de um modelo de proposta de Le Corbusier para demolir um trecho do centro de Paris e substituí-lo por um conjunto de torres de concreto. Do outro lado da galeria está o projeto de Le Corbusier, também jamais concretizado, no sentido de promover modificações drásticas similares em Algiers.

Rees, examinando esses projetos amplos no seu escritório Guildhall, faz mais comentários. "Corbu disse, 'Eu nasci para ser idolatrado', algo que é muito francês, enxergar os arquitetos em um plano superior". Rees fala como um inglês legítimo, embora deixe claro que é galês.

"Aqui os arquitetos são vistos mais como funcionários públicos do que como deuses", continua ele. "No Reino Unido nós valorizamos a individualidade e resistimos às tentativas de nos dizerem como viver. Os romanos tentaram planejar Londres, mas o que eles fizeram foi rapidamente desfeito. Nós fomos formados por levas de imigrantes, dos normandos aos vikings, e daí por diante, que trouxeram com eles ideias culturais diferentes. Somos um povo mestiço. Atualmente as crianças de Londres falam mais de 300 línguas diferentes, e se você morar em Londres por três meses, virará londrino. Mas você jamais se tornará parisiense a menos que os seus avós sejam parisienses".

Eu tentei verificar essa questão relativa ao individualismo britânico com Peter Mandler, historiador da Universidade de Cambridge. "Este é um mito narcisista britânico. Achar que somos especiais e que existe lá fora algo estrangeiro chamado Continente; que somos a terra da liberdade, e que a residência do inglês é o seu castelo, apesar de a maioria das pessoas no Reino Unido jamais morar em casas com os seus próprios jardins. Na década de 1960, mais britânicos viviam em edifícios de apartamentos do que em qualquer outro país da Europa. Mas durante as décadas de 1920 e 1930, houve uma reação visceral aqui contra a cultura continental, e Paris estava começando a ser vista não como uma rival saudável, mas como algo de perigoso. Isso tinha algo a ver com rotular os franceses de 'os outros', que, como os britânicos gostavam de dizer a si próprios, moravam em colmeias de abelhas. Após a guerra esta mesma atitude baseou-se na nostalgia pelo último momento de grandeza do Reino Unido, por volta de 1940, e assim a história prolongou-se até as décadas de 1960 e 1970. Em outras palavras, não estamos falando sobre uma narrativa atemporal, mas a respeito de uma história poderosa que envolve Le Corbusier, que conquistou um lugar importante no pensamento britânico durante o grande marco que foi o modernismo".

Na verdade, somente cerca de 7% da população britânica atual é negra ou asiática, e grande parte dela faz parte da estrutura demográfica de Londres. O próprio mito benigno do caldeirão de miscigenação remonta à era imperial.

Mas as histórias que as pessoas contam a si próprias, sejam elas verdadeiras ou não, podem valer tanto quanto a verdade para as pessoas que as narram.

Visitando o Tate Britain certa manhã, após ter visto a exposição de Corbusier, parei na mostra "Van Dyck e o Reino Unido", e percebi um esboço a óleo feito por Rubens e dois retratos de Van Dyck que o Tate adquiriu recentemente: quadros feitos por estrangeiros que trabalharam aqui, adquiridos por um museu de arte britânica. No andar de cima, nas galerias permanentes, emprestadas por Andrew Lloyd Webber, havia também uma paisagem de Londres feita por Canaletto, dependurada perto de uma pintura de Samuel Scott, um artista inglês e discípulo de Canaletto.

Tudo isso é para dizer que o cerne da arte britânica parece estar se expandindo juntamente com a visão que o Reino Unido tem de si próprio, e isso talvez ajude a explicar a pequena mudança do clima em torno de Le Corbusier. E, é claro, há também a simples questão do jogo justo, uma obsessão britânica.

"O problema com tantos edifícios de apartamentos construídos no Reino Unido era que não se levava em conta o ingrediente francês vital que é o concierge". É claro que ele não quer dizer literalmente que todos os edifícios franceses possuem concierges, e sim que as moradias britânicas não foram planejadas tendo-se em mente uma manutenção de longo prazo, e Le Corbusier tornou-se um bode expiatório para o problema que se seguiu.

A exposição, uma estrutura grande e elegante, faz lembrar os vários prédios bonitos que ele projetou, bem como as suas pinturas. Assim como outras figuras pioneiras, ele queria ser admirado por algo que na verdade não fazia muito bem. Le Corbusier imaginava que Picasso e Mondrian eram seus colegas de arte.

Por outro lado, ele nos deixou a Unite d'Habitation em Marselha, o projeto de habitação modular que se tornou o modelo para incontáveis imitações de má qualidade. É um edifício notável. Uma velha fotografia preto e branco do telhado, projetado como uma praça pública com parapeitos suficientemente altos para bloquear a vista da cidade e emoldurar as montanhas em volta, mostra crianças brincando sob os raios do sol.

Quando deixei a exposição, o concreto do pátio em frente ao Barbican estava morno e com aparência primaveril.

Geralmente não há ninguém lá. Mas quem pode afirmar definitivamente algo?

Naquele dia havia crianças brincando à luz do sol.

Tradução: UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,56
    3,261
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h21

    1,28
    73.437,28
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host