UOL Notícias Internacional
 

30/03/2009

Cidade dos EUA sofre com a perda de seu único banco

The New York Times
Shaila Dewan
Em Gibson, Geórgia (EUA)
Com menos de três mil habitantes, o condado de Glascock não é grande o suficiente para ter seu próprio hospital, prisão ou Wal-Mart. Mas por mais de 100 anos, teve um banco - até a tarde da última sexta-feira, quando autoridades chegaram para fechá-lo.

Os moradores rapidamente telefonaram uns para os outros para contar a notícia. Cartões de débito não funcionavam mais. No mercado Kitchens, de repente Don Kitchens não podia mais aceitar vales-alimentação. Dan Peaster, da loja Peaster's Home and Ranch Hardware, aberta há dois anos, começou a procurar um novo empréstimo para pequenos negócios. As pessoas de idade, acostumadas a transitar em carrinhos de golfe para fazer depósitos, estão irritadas por ter de viajar 25 quilômetros até o banco mais próximo.
  • David Walter Banks/The New York Times

    Griswell (à frente) e o xerife Dean Couch diante do banco FirstCity

  • David Walter Banks/The New York Times

    Idosos transitam em carrinho de golfe para fazer depósitos

  • David Walter Banks/The New York Times

    Dan Peaster diante de sua loja, aberta há dois anos, em Gibson



A cidade, com uma população de cerca de 700 moradores, ficou desapontada, e também confusa com as faixas de "Notificação de Tomada de Posse" e o carro blindado que levou o dinheiro embora.

"Se você tivesse visto o programa '60 Minutes' há três semanas, eles mostraram uma equipe entrando num banco e tomando controle dele", disse Anthony Griswell, presidente do condado. "Foi idêntico a isso".

Os fechamentos de bancos estão se tornando comuns na Geórgia. Desde o começo de 2008, nove bancos faliram no Estado, mais do que em qualquer outro, de acordo com o Federal Deposit Insurance Corporation [corporação governamental que garante os depósitos bancários]. Mas quase todos os fechamentos foram na região superconstruída de Atlanta, bastante atingida pelo colapso do mercado imobiliário.

Para os moradores do condado de Glascock, parece que a crise de Atlanta agora estendeu um tentáculo até a tranquila comunidade de fazendeiros e serralheiros a 216 quilômetros a leste da cidade, onde a palavra "sprawl", ou "esparramar", não é sinônimo de crescimento urbano desorganizado, mas sim de descanso após o trabalho.

"Não foram os empréstimos nesse banco", disse J.H. Usry, 74, cabeleireiro aposentado. "Mas fazemos parte dele, e isso nos derrubou, também".

O Banco de Gibson foi fundado em 1905 e durante décadas pertenceu à família Griffin. Os moradores lembravam-se da época em que as contas não tinham números, ou quando eles podiam simplesmente ligar para o "Sr. E.E." - Erasmus Eggleston Griffin, ou para o filho que assumiu os negócios dele, Erasmus Eggleston Griffin Jr., e conseguir uma aprovação verbal para um empréstimo.

"Costumava haver muita atividade bancária depois do expediente em nossa casa", disse Lee Griffin, 47, filho de Erasmus Jr. "Você não sabe quantos telefonemas recebíamos de pessoas que diziam: 'Acabei de achar um carro'. A resposta era: 'Pode assinar o cheque que, quando ele chegar, faremos a documentação".

Mas em 2000, os herdeiros de Griffin decidiram vender o banco, decisão a que se opuseram Lee Griffin e seu irmão, Skip (Erasmus Eggleston III), que trabalhavam no banco. Na época, o banco tinha apenas US$ 11 milhões em títulos, mas tinha um alvará de operação, e para as financiadoras que queriam fazer dinheiro rápido com o mercado imobiliário em expansão, esta era a posse mais atraente.

O banco foi comprado por uma financiadora imobiliária da região de Atlanta, que mudou o nome para FirstCity e transferiu sua sede para Stockbridge, um subúrbio de Atlanta onde 20 outros bancos têm escritórios. O FirstCity passou a focar no mercado imobiliário, que por fim constituiu mais de 90% de seus empréstimos.

A maior parte do dinheiro do banco vinha de "depósitos de corretagem", investimentos obtidos de terceiros que haviam procurado as melhores taxas, e não de "depósitos consistentes", mais confiáveis, que vinham de clientes locais. Das três agências do banco, onde os depósitos consistentes são normalmente feitos, a do condado de Glascock era a que tinha mais dinheiro.

Os moradores de Glascock não gostaram muito do novo estilo do banco.
Frankie Porter, tesoureira da Igreja Metodista Unida Gibson, disse que ficou surpresa quando solicitou um empréstimo para construir o novo telhado para o saguão da associação e pediram para que ela pagasse uma garantia.

"Antes, eu teria entrado lá, assinado um papel e recebido o dinheiro", disse Porter. "Eles conheciam o histórico de todas as pessoas que emprestavam dinheiro, quando estavam crescendo. Minha mãe tem o mesmo número de telefone há 40 anos. Eles sabiam com quem estavam lidando".

Na terça-feira, o xerife Dean Couch apontou para uma faixa do FirstCity que ainda estava pendurada sobre a porta do prédio do banco em Gibson. "Essa foi nossa ruína", disse ele.

O fechamento foi especialmente chocante porque o FDIC foi incapaz de encontrar outra instituição para assumir os depósitos, o que permitiria que os cartões de débitos fossem aceitos e os cheques fossem compensados. Dos 48 bancos que faliram em todo o país desde 2007, todos exceto dois encontraram compradores, disse David Barr, porta-voz do FDIC. Mas a situação financeira do FirstCity era tão precária que ninguém quis assumi-lo.

Em vez disso, o FDIC teve que expedir cheques para os correntistas. Em Gibson, muitas pessoas receberam os seus na manhã de terça-feira. Uma vez que nenhum outro banco tem agência no condado, dois bancos montaram estandes na East Main Street para atrair os moradores sem banco - um com pequenos patos de pelúcia, e o outro com canetas coloridas tricolores gravadas com o logo do banco.

"Isso causou simplesmente uma grande dor de cabeça", disse Ronald Humphrey, professor aposentado que ficou preocupado em perder seu serviço de internet via satélite quando tivesse que pagar a conta, que estava em débito automático.

Humphrey disse que ele próprio não tinha uma conta bancária até dois ou três anos atrás, quando abriu uma no FirstCity ao reconhecer o fato de que "é preciso ter um meio para comprar pela televisão", disse ele.

Os cheques da Previdência Social foram enviados para o SunTrust Bank.
Mas na prefeitura, Viola Downs, de 82 anos, estava confusa e ouvia com ceticismo as repetidas garantias de onde seu pagamento de aposentadoria seria depositado e onde o dinheiro tinha ido parar.
"Eles tiraram tudo pelas minhas costas", disse.

A maioria das pessoas ficou triste com o fechamento do banco, dizendo que era uma grande perda para uma pequena cidade. Mas lá estava Lee Griffin, que continuou trabalhando para os novos donos até 2006, e agora dirige um ônibus escolar. Griffin ficou chateado que o banco fechou, mas discordou de muitas políticas do FirstCity.

Questionado se não tinha sentido um pouco de... - "Satisfação?", disse, completando a pergunta. "Contentamento? Alegria? Por eles talvez não serem tão espertos quanto pensavam que eram? Sim".

Tradução: Eloise De Vylder

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