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30/03/2009

Compondo concertos de acordo com a prescrição médica

The New York Times
Matthew Gurewitsch
Lembra-se do Efeito Mozart? De acordo com o que havia sido divulgado na mídia, ouvir Mozart tornava as crianças mais inteligentes. A ciência estava cheia de lacunas, mas a ideia teve apelo, e um número cada vez maior de pesquisas sugere desde então que a música, principalmente clássica, é de certa forma boa para nós. O campo ainda tem poucas provas, mas deu início a um diálogo vivaz entre os cientistas e outros especialistas.
  • Thomas Fuchs/The New York Times


"Ouvir boa música e assistir a concertos com regularidade faz com que sua idade real diminua cerca de quatro anos", disse recentemente o Dr.
Michael F. Roizen - chefe do departamento de bem-estar do Instituto de Bem-Estar da Clínica Cleveland. "Quer seja devido ao alívio do estresse ou outras propriedades, vemos redução em todas as causas de mortalidade, refletindo um envelhecimento mais lento das artérias, assim como uma redução de fatores ambientais e relacionados ao câncer.
Comparecer a eventos esportivos como futebol ou futebol americano não oferece nenhum desses benefícios".

Que a música toca o cerne do nosso ser é uma descoberta tão antiga quanto a consciência humana. Platão falou sobre os poderes da música em "As Leis" e outros diálogos, e dificilmente ele foi o primeiro a fazer isso. Shakespeare em várias de suas cenas mais dramáticas mostrou o efeito calmante da música nos espíritos atormentados.

Curadores de muitos tipos tentam usar a música para fins terapêuticos, mesmo que apenas como um complemento aos cristais, aromas e chá verde.
Mas será que a música assumirá um dia seu lugar enquanto remédio?

Uma especialista que aposta nisso é Vera Brandes, diretora do programa de pesquisa em música e medicina na Universidade Particular de Medicina Paracelsus em Salzburgo, Áustria. "Eu sou a primeira farmacêutica musical", disse Brandes no outono passado em Viena. Lá, ela desenvolve remédios em forma de música, administrados com prescrição. Para comercializar a linha de produtos, ela ajudou a fundar a Sanoson (sanoson.at), uma companhia que também elabora sistemas de música personalizados para instituições médicas.

"Estamos preparando o lançamento de nossas terapias na Alemanha e Áustria no outono de 2009", disse ela, "e antecipamos o lançamento nos EUA em 2010".

Eis como o tratamento funciona. Uma vez que o médico estabeleceu um diagnóstico, o paciente é mandado para casa com uma receita do que ouvir e com músicas carregadas num player muito parecido com um iPod.
O quando ouvir é fundamental.

"Música calmante ouvida num ponto de ascensão do ciclo circadiano não vai acalmá-lo", disse Brandes. "Pode até irritá-lo". A tecnologia - que inclui fones especiais e é protegida contra pirataria - é patenteada. Um formulário de patente foi enviado para o Departamento de Patente e Marcas Registradas dos EUA.

A música também é registrada. Para evitar a interferência das associações pessoais dos pacientes, as faixas consistem inteiramente de material original. "Em nossa pesquisa", diz Brandes, "descobrimos que quando as pessoas ouvem músicas que conhecem, suas reações são totalmente diferentes".

Roizen e Brandes cruzaram seus caminhos em agosto passado num simpósio intitulado "Música e o Cérebro" apresentado pela Clínica Cleveland e a Orquestra de Cleveland durante a temporada da orquestra no Festival de Salzburgo.

Roizen, que é autor (junto com Mehmet C. Oz) do livo "You: The Owner's Manual" ["Você: O Manual do Proprietário"] e suas inúmeras sequências campeãs de vendas, mostrou consistência e um ar de "showman" em sua palestra "Os Efeitos Benéficos da Música em Sua Saúde". Brandes, que trabalhava no programa Mozart & Ciência 2008, um congresso internacional em Viena em novembro passado, estava na platéia e descobriu que dividia com Roizen uma paixão por quantificar os efeitos da música sobre a saúde, que muitos durante muito tempo atribuíram à fé.

Desde Platão e Shakespeare, cientistas naturais, muitos deles músicos, olham para a música de uma forma cada vez mais analítica. Em meio ao utilitarismo do século 20, Muzak construiu um império (atualmente no capítulo 11 dos procedimentos de falência) sobre a premissa de que música ambiente no local de trabalho pode incentivar a produtividade.
O dr. Oliver Sacks, explorador inveterado de regiões não demarcadas pela neurologia, devotou seu último livro, "Musicophilia", aos efeitos extravagantes da música sobre o cérebro. E como todos que tem um iPod sabem, as listas pessoais podem fazer pequenas maravilhas sobre o humor e o bem-estar.

Mas como?

Como os boticários de antigamente, que destilavam os extratos das ervas e plantas da natureza, Brandes e seus associados analisam músicas de todos os tipos para separar os seus "ingredientes ativos", que então são misturados e equilibrados em compostos medicinais.
Apesar de não tratarem patologias físicas ou doenças infecciosas, eles alegam que seus métodos têm uma aplicação ampla nas desordens psicossomáticas, gerenciamento da dor e no que Brandes chama de "doenças da civilização": ansiedade, depressão, insônia e certos tipos de arritmia. A farmacopeia tem cerca de 55 faixas de músicas medicinais, com mais a caminho.

Num estudo piloto, que recebeu uma citação no encontro científico anual da Sociedade Americana de Psicossomática em Baltimore em 2008, Brandes e colegas de outros países investigaram os efeitos da música em pacientes que sofriam de hipertensão sem nenhuma causa orgânica detectada.

"Normalmente os pacientes hipertensos são tratados com betabloqueadores, que suprimem seus sintomas", disse Brandes. "A música pode tratar as causas psicossomáticas que estão na raiz do problema".

De acordo com seu estudo, depois de ouvir um programa de música especialmente planejado por 30 minutos por dia, cinco dias por semana, durante quatro semanas, os pacientes tinham melhoras clínicas significativas na variação de ritmo cardíaco, um dos principais indicadores da função nervosa autônoma. Em seu próximo estudo, Brandes submeterá essas descobertas a um julgamento clínico completo.

Brandes, 52, que antes era produtora de discos e eventos musicais, lançou o fenômeno da harpa Andreas Vollenweider para o sucesso internacional e levou aos palcos o show antológico de Keith Jarrett em Colônia, Alemanha, para citar apenas dois grandes momentos de um currículo impressionante. Mas um acidente quase fatal em 1995 fez com que ela começasse a contemplar uma mudança de carreira.

"Eu quebrei as vértebras 11 e 12, não atingindo a medula óssea por um milímetro", disse Brandes. "O médico disse: 'Não posso fazer muita coisa por você por algum tempo, mas você pode cantar se quiser'". A equipe médica esperava mantê-la imobilizada por um período de 10 a 14 semanas.

Mas Brandes dividia o quarto com um budista cujos amigos vinham visitar e cantar para ele diariamente. Depois de apenas duas semanas no hospital, um exame de ressonância magnética mostrou que sua coluna estava completamente curada. "Todos disseram que foi um milagre", disse Brandes. "Eles me mandaram para casa. Isso me fez pensar".

Três anos depois, num período ainda mais decisivo para o trabalho que viria a seguir, Brandes passou três meses ao lado do leito de morte de sua mãe, que estava em coma com um tipo raro de câncer de sangue.

"Eu dei a ela um fone de ouvido, e tocava músicas", disse Brandes.
"Como eu a conhecia muito bem, eu podia dizer, através das mudanças mais sutis em suas mãos e rosto, do que ela gostava e do que não gostava. Minha mãe foi meu primeiro caso de estudo".

Inicialmente a mãe respondeu melhor à música clássica de violão espanhola que sempre tinha gostado: Andres Segovia, Narciso Yepes. Mas conforme sua condição piorou, esses antigos favoritos pareciam estressá-la, e um minimalismo agradável - "nada complexo", diz Brandes - mostrou-se mais benéfico.

Por mais sugestiva e pessoalmente significativa que essa experiência tenha sido, Brandes, que não tem nenhum diploma avançado em ciência ou medicina, sabia que suas teorias emergentes nunca ganhariam aceitação sem experimentos clínicos comprovados. "Desde o início", diz ela, "eu estava determinada a satisfazer os critérios científicos mais rígidos do Ocidente".

Os voluntários dos estudos usam relógios inteligentes que monitoram sete funções fisiológicas, incluindo os batimentos cardíacos e a atividade elétrica muscular. (Os placebos em seu trabalho são os sons da natureza.)

Normalmente, tudo o que tem poder de cura também pode causar mal.
No caso da música, esse truísmo não parece se aplicar. Alegações de reações adversas, vícios ou overdoses, para citar alguns dos perigos mais sérios, são raras, e as que podem ser citadas parecem totalmente inacreditáveis ou extremamente ilusórias. Na época de Wagner, alguns previram que "Tristão e Isolda" levaria as pessoas à loucura, mas onde estão os casos mentais?

E hoje em dia ouvimos falar sobre interrogadores militares que administram música sem parar num volume ensurdecedor como forma de tortura. Mas com certeza a tortura está na falta de sono, na repetição e no trauma do ouvido interno, e não à exposição à música propriamente dita.

No outono, depois de vários dias em Viena, pude experimentar a música da Sanoson nas horas apropriadas do dia. Um programa para acordar depois de um cochilo de meia hora com sons da natureza desenvolvia um ritmo de rock suave, acrescentava uma voz cantando sem palavras e terminava com uma batida mais rápida, fazendo com que eu ficasse em ótima forma para o que quer que acontecesse no restante do dia. Um programa relaxante para a noite soava como um fragmento de imitação de minimalismo, sem a beleza das variações e surpresas que tornam a música de Terry Riley, Philip Glass e John Adams muito mais interessante.

Mas o objetivo dos compositores da Sanoson (a própria Brandes e mais dois, cujo anonimato é guardado religiosamente) não é escrever música para concertos ou méritos estéticos independentes, assim como um farmacêutico não está lá para cordialidades. O objetivo é oferecer estímulos específicos - dosagens de ritmo, harmonia ou dissonância e timbre - no momento apropriado e numa sequência eficaz.

Princípios semelhantes, aplicados para fins mais nebulosos, estão por trás do site experimental na internet Sourcetone Interactive Radio (sourcetone.com). Chamado de "o primeiro serviço musical de saúde da internet", o Sourcetone difunde música de dezenas de gêneros, escolhendo faixas de acordo com o humor do usuário, indicado numa Roda Emotiva gráfica. A literatura da companhia diz que "o serviço é destinado a promover a saúde através do poder da música, ao oferecer listas de músicas para promover estados emocionais desejados como o relaxamento, revigoramento, estímulo e felicidade".

Um jukebox idealizado? Entrevistado em Nova York em fevereiro, o psicólogo Jeff Berger, fundador e vice-presidente executivo da Sourcetone, reagiu ofendido à descrição, mesmo ao se esquivar de qualquer alegação médica específica. Ainda assim ele expressou esperança de que o Sourcetone se mostre valioso com o tempo - no tratamento de problemas cerebrais, por exemplo - de formas que ele se recusou a elaborar.

Apesar de isso poder parecer uma extensão, a Sourcetone usa pesquisas realizadas em conjunto com o Centro Médico Beth Israel Deaconess em Boston e a Escola de Medicina de Harvard, onde o neurologista
Gottfried Schlaug estuda os efeitos da atividade musical na função e plasticidade do cérebro. Schlaug (que já chegou a considerar seriamente a carreira de organista e diretor de coro) disse recentemente que seu trabalho com a Sourcetone consistiu essencialmente em quantificar as respostas pessoais dos sujeitos a trechos específicos de músicas de uma forma objetiva.

Existe um interesse médico mais profundo, disse ele, em seus esforços de fornecer um "substrato neurobiológico" para formas existentes de musicoterapia que já estão em uso: para provar que elas funcionam e como funcionam. Um exemplo seria a terapia de entonação melódica, que usa o canto para ajudar os pacientes com derrame a reaprender a linguagem.

"Acho que é importante se envolver e fazer música", disse Schlaug, "não apenas ouvir".

Stefan Koelsch, pesquisador sênior de neurocognição da música e da linguagem na Universidade de Sussex em Brighton, Inglaterra, concorda, e está trabalhando em tratamentos musicais participativos para a depressão. Mas a longo prazo, ele vê possibilidades mais amplas.

"Fisiologicamente, é perfeitamente plausível que a música afete não apenas as condições psiquiátricas, mas também as doenças endócrinas, do sistema nervoso e autoimunes", disse. "Não posso afirmar que a música é uma pílula para acabar com essas doenças. Mas minha visão é de que podemos criar coisas para ajudar. Este trabalho é muito importante.
Muitos medicamentos têm tantos efeitos colaterais horríveis, tanto fisiológicos quanto psicológicos. A música não tem efeitos colaterais, ou prejudiciais".

Na visão de Brandes, algumas coisas poderão ser muito diferentes no futuro, mas outras não deverão mudar. "Digamos que um paciente chegue sofrendo de depressão", diz ela. "O primeiro passo sempre é procurar um médico. Mas então haverá a possibilidade de escolher o tratamento: analista, Prozac ou música".

Tradução: Eloise De Vylder

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