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30/03/2009

É hora de correr movido a café

The New York Times
Gina Kolata
Weldon Johnson experimentou a cafeína como estimulante de desempenho pela primeira vez em 1998. Ele não costumava beber café, mas soube que a cafeína podia ajudá-lo a correr mais rápido. Então ele foi até uma loja de conveniência antes de uma corrida e bebeu uma xícara de café.

Pela primeira vez em sua vida, ele correu 10 quilômetros em menos de 30 minutos.

"Eu me lembro de ficar realmente ligado antes da corrida", ele disse por e-mail. "Meu corpo tremia."

Desde então ele se converteu.

Johnson, fundador da LetsRun.com, passou a evitar a cafeína, mesmo em refrigerantes, por algumas semanas antes de uma competição, buscando explorar o efeito pleno do estimulante.

"Pode ser um efeito placebo imenso, mas para mim funciona", disse Johnson. "Tomar uma xícara de café exatamente uma hora antes da corrida fazia parte da minha rotina."

Ou talvez não fosse um efeito placebo.

A cafeína, na verdade, realmente funciona. E é legal, um dos poucos estimulantes de desempenho que não são proibidos pela Agência Mundial Antidoping.

Enquanto astros dos esportes, de jogadores de beisebol e ciclistas até corredores são punidos pelo uso de drogas que melhoram o desempenho, um dos estimulantes mais estudados é de uso legítimo para qualquer um. E está bem ali, na xícara de café ou na lata de refrigerante.

Os fisiologistas estudam os efeitos da cafeína em quase todas as situações: ela ajuda os velocistas? Os maratonistas? Os ciclistas? Remadores? Nadadores? Atletas cujos esportes envolvem corridas e paradas como os jogadores de tênis? A resposta é sim para todos.

Os pesquisadores publicam estudos sobre a cafeína desde 1978. Em um estudo após o outro, eles concluíram que a cafeína realmente melhora o desempenho. De fato, alguns especialistas como o dr. Mark Tarnopolsky, da Universidade McMaster no Canadá, se mostram incrédulos pelas pessoas ainda perguntarem se a cafeína afeta o desempenho.

"Há tantos dados a respeito que é inacreditável", ele disse. "Não há dúvida de que a cafeína melhora o desempenho. Foi demonstrado por laboratórios respeitados de múltiplos lugares do mundo."

As únicas novas dúvidas são como ele exerce seu efeito e quão pouca cafeína é necessária para obter o efeito.

Por muitos anos, os pesquisadores acharam que o único motivo para as pessoas poderem se exercitar mais duramente por tempo mais longo após o uso da cafeína era o composto ajudar os músculos a usarem gordura como combustível, poupando o glicogênio armazenado nos músculos e aumentando a resistência. Mas havia vários indícios de que algo mais estava acontecendo. Por exemplo, a cafeína melhorava o desempenho até mesmo em exercícios breves intensos, onde a resistência não importa.

Agora, Tarnopolsky e outros relatam que a cafeína aumenta a produção de energia dos músculos ao liberar o cálcio armazenado no músculo. O efeito permite que os atletas possam ir mais longe e mais rápido no mesmo espaço de tempo. A cafeína também afeta a sensação de exaustão do cérebro, aquela sensação de que é hora de parar, de que não pode prosseguir. Esta pode ser uma forma de melhorar a resistência, disse Tarnopolsky.

A melhora do desempenho em ambientes controlados de laboratório pode chegar de 20% a 25%, disse Tarnopolsky. Mas no mundo real, a melhoria pode ser em média de cerca de 5%, o que ainda é significativo caso você queira atingir seu melhor tempo ou mesmo vencer uma corrida.

Por anos, os pesquisadores acreditaram que era preciso cerca de 5 a 6 miligramas de cafeína por quilo de peso do corpo. Um homem de 80 quilos, por exemplo, precisaria de cerca de 400 miligramas de cafeína.

Agora, Louise M. Burke, a chefe do departamento de nutrição esportiva do Instituto Australiano do Esporte em Canberra, informa que os atletas obtêm o efeito pleno da cafeína com apenas 1 miligrama de cafeína por quilo de peso do corpo. Em vez de 591 ml de café, um homem de 80 quilos poderia beber 118 ml de café, ou cerca de duas latas de Coca de 350 ml.

Também é possível piorar os resultados.

Terry Graham, presidente do Departamento de Saúde Humana e Ciências Nutricionais da Universidade de Guelph, no Canadá, apontou que com 9 miligramas por quilo, os atletas na verdade pioram.

Muitos atletas e treinadores não são fãs da cafeína. Johnson disse que tentou divulgá-la e fica frustrado quando os corredores não usam a cafeína -tanto, ele disse, que quando vê a equipe que seu irmão treina em Cornell, ele pensa: "Por que todos não vão ao Starbucks?"

Mike Perry, um amigo remador que já competiu nacionalmente e no exterior, disse que, com uma exceção, os remadores que ele conheceu não usavam cafeína.

"As pessoas tinham problemas psicológicos a respeito de usá-la", ele disse. "Elas consideravam isso como sendo contra o espírito da lei, apesar dela não ser ilegal."

Ainda assim, Perry se perguntou se a cafeína o teria ajudado. Quando ele se aposentou das competições de remo em julho passado, ele decidiu fazer uma experiência aleatória, às cegas, controlada com placebo, em si mesmo.

Ele percebeu que as pílulas de cafeína de 200 miligramas pareciam com as de vitamina C, o que permitiu que as codificasse e tomasse sem saber qual estava tomando. Por oito meses ele testou em si mesmo uma vez por semana, tomando duas pílulas uma hora antes de se exercitar no aparelho de remo. Então se exercitava o máximo que podia por uma hora, registrava os resultados, também registrando seu palpite sobre se a pílula que tomou continha a cafeína. Perry, que também é corredor, disse que uma hora no aparelho de remo equivale a uma hora de corrida forte na estrada.

Quando ele concluiu o estudo e quebrou o código no final do mês passado, ele ficou espantado ao ver quanto a cafeína o afetou. Ele estava mais forte -sua força foi 3% maior- e mais rápido. De fato, ele disse que a velocidade média nos testes em que usou a cafeína foi maior do que sua velocidade mais rápida quando não usava cafeína.

Ele também deduziu acertadamente na maioria das vezes se a pílula que tomou era de cafeína ou vitamina C. Perry disse que agora lamenta nunca ter usado a cafeína quando competia. "Seria uma forma inofensiva de melhorar o desempenho", ele disse.

Outros, incluindo meu filho Stefan, discordam. Eu pedi a Stefan que experimentasse a cafeína, e ele o fez, uma vez.

Ele experimentou a pílula de cafeína antes de um exercício na pista que envolvia correr 1,5 quilômetro muito rápido, descansar brevemente, e correr outro 1,5 quilômetro, repetidamente. Como Johnson, ele ficou ligado e tremendo. Mas, disse Stefan, ele não conseguiu descansar entre as corridas. Seu coração continuou batendo forte e não conseguia desacelerar. Ele disse não querer experimentar isso de novo.

E há o problema que eu e minha parceira de corrida Jen Davis temos. Nós adoramos café e provavelmente temos cafeína permanentemente em nosso sangue, exceto durante o meio da noite (ela dura horas).

Assim, nós nos sairíamos melhor se nos privássemos de cafeína e então tomássemos uma pílula ou duas antes de uma corrida?

Eu perguntei a Tarnopolsky. Ele disse que você se habitua rapidamente a dois efeitos da cafeína. A cafeína pode fazer você urinar, mas apenas se não estiver acostumado a ela.

"Os atletas não ficam desidratados por causa da cafeína", ele acrescentou, "diferente do mito popular".

E a cafeína aumenta o batimento cardíaco e a pressão sanguínea em pessoas que não são usuárias regulares. "Mas após três ou quatro dias, este efeito potencialmente negativo desaparece", disse Tarnopolsky.

Os efeitos benéficos sobre o exercício, entretanto, permanecem. Mesmo se você beber café regularmente, tomar uma xícara antes do exercício ou corrida melhorará seu desempenho, disse Tarnopolsky. "Não há dúvida a respeito", ele acrescentou.

Ele coloca a pesquisa da cafeína em prática quando treina e compete. Tarnopolsky é um triatleta de elite, orientador de esqui e corredor de trilha que compete em provas nacionais e internacionais. E, ele disse, ele adora café: "Eu adoro o cheiro. Eu adoro o sabor. É o paraíso".

E antes da corrida? Ele sempre toma uma xícara.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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