UOL Notícias Internacional
 

30/03/2009

Envelhecimento e estrutura arcaica ameaçam futuro dos produtores de arroz japoneses

The New York Times
Martin Fackler
Em Shonai (Japão)
Esta vasta planície costeira próxima ao Mar do Japão, abençoada com água abundante e solo rico e repleta de plantações de arroz coloridas de amarelo no início da primavera, é um dos silos mais férteis do país. Mas há um mal-estar evidente aqui.

Os fazendeiros que trabalham nas plantações estão envelhecendo e diminuindo em número. Terrenos abandonados, com vegetação alta, são uma paisagem comum. Com fazendas geralmente pequenas e a queda nos preços do arroz, muitos fazendeiros acham impossível sobreviver.

"A agricultura japonesa está sem dinheiro, sem jovens, sem futuro", disse o produtor Hitoshi Suzuki, 57, de pé na propriedade que é da sua família há 450 anos enquanto um vento gelado vinha do mar.

Ko Sasaki/The New York Times 
Produtora aposentada de arroz trabalha em sua plnatação em Yamagata, no Japão

Os problemas na fazenda são emblemáticos de um sentimento generalizado de paralisia que tomou o Japão, a segunda maior economia do mundo.
Enfrentando cada vez mais desafios por conta de uma população em envelhecimento e de um baixo crescimento crônico, o país vem tentando preservar o status quo, principalmente queimando sua vasta riqueza acumulada, em vez de fazer mudanças mais duras, dizem os economistas.

"A crise rural do Japão oferece um vislumbre do futuro do país todo", diz Yasunari Ueno, economista da firma Mizuho Securities em Tóquio.

De acordo com muitos fazendeiros e especialistas em agricultura, o Japão rural está chegando rapidamente a um beco sem saída, como resultado do despovoamento, da liberalização do comércio e da falta de recursos do governo. Eles falam na pior crise rural desde a Segunda Guerra. Em Shonai, os preços das terras caíram até 70% nos últimos 15 anos, e o número de fazendeiros diminuiu pela metade desde 1990.

Em todo o Japão, a produção de arroz, o principal grão da dieta japonesa, caiu 20% em uma década, alarmando o país que agora importa 61% de seus alimentos, de acordo com o Departamento de Estatísticas do governo.

O envelhecimento é visto como o principal problema das áreas rurais, onde, de acordo com o Ministério da Agricultura, 70% dos 3 milhões de fazendeiros japoneses têm 60 anos de idade ou mais. Desde 2000, os déficits cada vez maiores forçaram Tóquio a reduzir pela metade os gastos com projetos de obras públicas, que haviam impulsionado as economias rurais, e a queda nas exportações eliminaram agora os empregos nas fábricas, dos quais muitas famílias rurais dependiam para uma renda extra.

Apesar de a atual crise financeira global ter piorado a situação, a causa raiz reside no sistema econômico rural do Japão, baseado em minúsculas propriedades familiares, lamentavelmente ineficientes, que data do final da Segunda Guerra. Mas enquanto muitos fazendeiros e especialistas em agricultura concordam que o sistema está falindo, a mudança é impedida por uma série de interesses e pelo temor de destruir as formas já estabelecidas.

A questão agora é se algum tipo de ponto de ruptura será atingido em breve.

Uma mudança poderia ser significativa porque os eleitores rurais formam a base da pirâmide política em cujo ápice está o Partido Liberal Democrático, que governa o Japão há mais de meio século. O partido deve enfrentar uma disputa acirrada com seu principal opositor, o Partido Democrata, nas eleições gerais que devem acontecer no início de setembro.

Em regiões rurais como Yamagata, distrito arrozeiro do norte onde está localizada Shonai, os sinais ainda são confusos.

Takashi Kudo, dono de uma construtora aqui, disse que continua sendo um militante leal aos legisladores do partido Liberal Democrático, que ajudaram a economia local e sua companhia gastando dinheiro em projetos locais. Agora, entretanto, ele diz que as vendas da companhia caíram 2/3 durante a última década, obrigando-o a demitir metade de seus 23 funcionários.

Os tempos estão tão difíceis que o templo xintoísta local parou de contratar músicos para os festivais de verão, disse. Os moradores locais se sentem abandonados pelo partido, o que levou à redução de afiliações aos grupos de militantes durante as eleições, disse ele.
Mas os moradores não apoiam a oposição, que segundo ele sofre da mesma falta de direção que o partido governista.

"A reação foi uma desilusão política, não uma revolta política", disse Kudo, 45, sentado em seu escritório sob uma foto do legislador do partido Liberal Democrático de seu distrito, Koichi Kato.

Ainda assim, há cada vez mais pedidos aqui para dar aos democratas uma chance. Em janeiro, um integrante pouco conhecido de um conselho escolar que concorreu como candidato de oposição derrubou os liberais democratas e tornou-se prefeito de Yamagata, que foi governada por liberais democratas por gerações.

"Existe uma sensação de que o PLD está cada vez mais longe dos problemas rurais", diz Takeshi Hosono, diretor do Insituto Shogin Future-Sight, uma companhia de pesquisa de mercado localizada na cidade de Yamagata.

Muitos moradores de Yamagata sentem que o partido foi longe demais ao liberalizar o comércio e cortar os gastos públicos, diz Hosono, refletindo o ressentimento de que cidades como Tóquio prosperaram nos últimos anos enquanto as áreas rurais decaíram.

Outros sentem que os liberais democratas não foram longe o suficiente nas reformas, reclamando que o partido e os grupos locais que o apoiam proíbem os fazendeiros locais de fazerem grandes mudanças que ameaçassem o status quo.

Uma dessas inovações é Kazushi Saito, um fazendeiro de arroz e porcos que há seis anos assumiu uma das instituições rurais mais poderosas do Japão, a cooperativa agrícola nacional, ao tentar estabelecer sua própria cooperativa, menor e alternativa. Ele conseguiu a adesão de 120 produtores descontentes com a cooperativa nacional, que acreditavam que só queria lhes vender máquinas e fertilizantes caros.

Mas quando ele foi registrar sua nova cooperativa, o que é permitido por lei, as autoridades agrícolas da prefeitura se recusaram a fazer a documentação, praticamente inviabilizando o plano, disse ele.

"Os interesses protecionistas estão levando a agricultura japonesa para um beco sem saída", disse Saito, 52.

Saito e outros produtores dizem que governo também coloca barreiras contra as principais soluções para os problemas da agricultura, ou seja, a criação de fazendas maiores e mais eficientes. O tamanho médio de uma fazenda comercial japonesa é de apenas 4,6 acres, comparado aos cerca de 440 acres de uma fazenda média americana.

Apesar de o governo dizer que essa fusão é necessária, Saito e outros dizem que suas tentativas de acumular terras são obstruídas pela sustentação de preços sobre as terras agrícolas, criada para proteger o valor das terras dos pequenos fazendeiros mas que tornam as propriedades muito caras. As limitações na produção de arroz, também criadas para ajudar os pequenos produtores sustentando os preços do arroz, tornam difícil expandir a produção, dizem muitos fazendeiros.
Mesmo com a sustentação de preços, entretanto, a atenuação das restrições de importação e a queda na demanda relacionada à mudança dos hábitos alimentares japoneses fizeram com que os preços caíssem, afetando as fazendas de todos os tamanhos. Isso alimentou ainda mais a revolta não somente contra os liberais democratas mas também contra os poderosos ministros japoneses que tradicionalmente dirigiam a nação mas agora parecem incapazes de abrir caminho para fora do pântano.

"A era da dependência de Tóquio do pós-guerra está claramente encerrada", disse o prefeito de Shonai, Maki Harada.

Suzuki, com sua propriedade familiar de 450 anos, quadruplicou suas terras para 40 acres, a maior parte alugada de fazendeiros aposentados. Mas com os preços inflacionados das terras, as restrições para a produção de arroz e o alto custo dos equipamentos mecanizados no Japão, tudo isso só significou que sua grande fazenda perde mais dinheiro do que as pequenas fazendas vizinhas, disse.

"A agricultura poderia ressuscitar as economias locais, se fosse novamente revigorada, diz Masayoshi Honma, professor de agricultura na Universidade de Tóquio. "Sem reforma, ela simplesmente declinará até a morte".

Tradução: Eloise De Vylder

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