UOL Notícias Internacional
 

03/04/2009

Obama enfatiza a necessidade de cooperação internacional

The New York Times
Helene Cooper
Em Londres
Em sua estreia no palco internacional, o presidente Barack Obama se apresentou como líder de uma América que não pode mais lidar com as coisas sozinha, obedecendo ao protocolo de um novo acordo global.

Foi um desempenho que variou da mediação atrás de portas fechadas -Obama interveio pessoalmente em uma briga entre os presidentes francês e chinês - a uma coletiva de imprensa calculada na qual se aprofundou na história, demonstrou contrição pelos problemas de Wall Street e previu uma estrada que o mundo não mais poderia percorrer. São coisas do passado os dias da Pax Britannica e Pax Americana, quando Estados Unidos e o Reino Unido faziam as regras que os outros seguiam.

"Se há apenas Roosevelt e Churchill sentados em uma sala com um brandy, esta é uma negociação mais fácil", disse Obama durante seu encontro de uma hora com a imprensa internacional, durante a qual pediu aos repórteres da Índia e da China que lhe fizessem perguntas. "Mas este não é o mundo em que vivemos e não deveria ser o mundo em que vivemos."

Após mais de onze horas de reuniões, Obama saiu na quinta-feira de seu primeiro encontro de cúpula com um punhado de compromissos concretos modestos. Ele não conseguiu muito do que as autoridades americanas esperavam, notadamente fracassando em persuadir outros países a se comprometerem com maiores gastos em estímulo fiscal.

Mas ele, juntamente com os outros líderes mundiais presentes, conseguiu um mapa mais detalhado e rigoroso para a recuperação global do que em um encontro semelhante há 86 anos, quando uma geração anterior fracassou em adotar uma ação coletiva contra a Grande Depressão.

"Ao se dispor a acomodar a posição dos líderes europeus de necessidade de melhor regulação dos mercados financeiros, e a dos líderes dos mercados emergentes de menos protecionismo", disse Eswar S. Prasad, um ex-chefe da divisão para China do Fundo Monetário Internacional, Obama "certamente guiou os líderes do G20 até um resultado positivo".

"No geral, não foi um dia ruim de trabalho", acrescentou Prasad.

A avaliação do próprio Obama? "Bem, eu acho que me saí bem", ele disse, após um repórter lhe pedir durante a coletiva de imprensa para avaliar seu desempenho.

Em um tour diplomático que já foi analisado minuciosamente em busca de cada erro, Obama, até o momento, recebeu desde algumas críticas não muito boas -vários órgãos de imprensa europeus se queixaram de que ele parecia distante- até alguns elogios entusiasmados -o presidente da França, Nicolas Sarkozy, o considerou "de muita ajuda".

Sarkozy se referia a Obama, o mediador. Por uma tensa hora na quinta-feira, Sarkozy e o primeiro-ministro da China, Hu Jintao, estavam discutindo os paraísos fiscais. Em um grande salão de conferência no Excel Center, cercados por 18 outros líderes mundiais, os dois atacavam um ao outro, segundo funcionários presentes na sala.

Sarkozy queria que a grande declaração produzida pelo Grupo dos 20 endossasse a citação nominal e condenação dos paraísos fiscais, talvez até mesmo incluindo Hong Kong e Macau, que estão sob soberania da China. Sem causar surpresa, Hu não aceitou aquilo. Ele pareceu se enfurecer por Sarkozy estar acusando a China de regulamentação frouxa e pelo líder francês estar pedindo que a China endossasse as sanções emitidas pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (Ocde), um clube de países ricos do qual Pequim ainda não faz parte.

Segundo relatos fornecidos por funcionários da Casa Branca e corroborados por funcionários europeus e outros presentes na sala, Obama conduziu os dois líderes, um de cada vez, a um canto da sala, para julgar os termos. Que tal substituir a palavra "reconhecer", sugeriu Obama, pela palavra "notar"?

O resultado: "A era do sigilo bancário acabou", disse a declaração final. "Nós notamos que a Ocde publicou hoje uma lista de países avaliados pelo Fórum Global como sendo contrários ao padrão internacional de troca de informação tributária". Hong Kong e Macau não apareceram na lista.

Não foi um acordo de paz do Oriente Médio. Mas Obama teve seu primeiro momento como estadista.

Para a coletiva de imprensa que se seguiu, Obama não mediu esforços para projetar uma imagem alegre, humilde, para um mundo ainda alternadamente enfurecido e confuso com uma crise financeira nascida com os empréstimos de risco americanos. Ele pediu a participação dos repórteres de outros países -"estrangeiros" ele disse, antes de acrescentar com expressão de riso que eram estrangeiros apenas para ele. Ele brincou, lidando com sua propensão de falar longamente e palestrar.

Ao responder a uma pergunta de um repórter da China, Obama conseguiu reconhecer que ele tinha que se preocupar mais com a forma como os trabalhadores e empresas americanos são afetados pela globalização, explicando ao mesmo tempo por que a globalização é do melhor interesse dos Estados Unidos.

"Veja, eu sou o presidente dos Estados Unidos; eu não sou o presidente da China", disse Obama. Então, ele acrescentou: "Também é minha responsabilidade liderar a América no reconhecimento de que seus interesses, seu destino, estão ligados a um mundo maior".

Obama disse que se os Estados Unidos negligenciassem ou abandonassem os países pobres, "nós não apenas nos privaríamos das oportunidades potenciais de mercados e crescimento econômico, mas no final aquele desespero poderia se transformar em uma violência voltada contra nós".

"A menos que nos preocupemos com a educação de todas as crianças, e não apenas as nossas, nós poderíamos não apenas nos privarmos do próximo grande cientista que encontrará a próxima fonte de energia que salvará o planeta, mas também poderíamos deixar as pessoas ao redor do mundo mais vulneráveis à propaganda antiamericana."

Em uma rara exibição de emoção por parte da imprensa internacional, muitos na sala se levantaram e aplaudiram Obama após ele terminar.

Mas Obama também cometeu gafes. Obama e sua esposa, Michelle, deram para a rainha Elizabeth 2ª um iPod repleto de canções e vídeos - após semanas de queixas da imprensa britânica a respeito dos 25 DVDs que o casal deu ao primeiro-ministro britânico Gordon Brown, quando ele visitou Washington. (Os Browns deram aos Obamas um porta-caneta ornamentado feito da madeira de um navio vitoriano que combatia os navios negreiros.)

E Michelle Obama tocou a rainha; o protocolo do Palácio de Buckingham declara que os comuns não devem tocar a rainha, uma ordem que os líderes estrangeiros no passado ignoraram a seu próprio risco. Quando o primeiro-ministro da Austrália, Paul Keating, fez o mesmo em 1992, os jornais daqui o criticaram impiedosamente.

Mas tamanha é a adulação aos Obamas por parte da normalmente sarcástica imprensa britânica desde a chegada do casal, que os jornais daqui disseram ter sido um sinal de quão bem Michelle Obama se deu com a rainha. Em defesa de Michelle Obama, a rainha a tocou primeiro, colocando seu braço ao redor dela, enquanto as duas olhavam para seus pés, presumivelmente conversando sobre sapatos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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