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03/04/2009

Presidente 'Teflon' do Brasil é afetado pela crise econômica

The New York Times
Alexei Barrionuevo
No Rio de Janeiro
Ele já foi chamado de presidente "Teflon", o presidente mais popular do mundo, um líder que sobreviveu a escândalo atrás de escândalo apenas para ver seu índice de aprovação subir a novas alturas.

Mas com a forte desaceleração industrial e alta do desemprego, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, pode estar exibindo algumas rachaduras em sua armadura aparentemente impenetrável, dizem os analistas.

Ao participar do encontro de cúpula do Grupo dos 20 em Londres, nesta semana, ele enfrenta crescentes desafios à sua elevada popularidade doméstica e talvez ao seu status como um dos principais defensores dos países em desenvolvimento.

Pelo menos três pesquisas mostram uma recente queda em seus índices estelares de aprovação e uma onda de controvérsia em relação a comentários feitos na semana passada, quando atribuiu a crise econômica a "gente branca com olhos azuis", sinais de que Lula afinal é mortal, disseram os analistas.

"A perspectiva de que os ganhos econômicos e sociais do Brasil possam ser minados pela crise global poderia minimizar dois mandatos presidenciais enormemente bem-sucedidos", disse Julia E. Sweig, diretora para Estudos Latino-Americanos do Conselho de Relações Exteriores.

Lula ainda conta com um apoio invejável em casa, mas se a tempestade econômica prosseguir, ela poderia minar ainda mais esse apoio e atrapalhar sua capacidade de transferir a presidência em 2010 para sua sucessora escolhida, Dilma Rousseff, a ministra da Casa Civil, disseram os analistas.

No encontro de cúpula nesta semana, Lula buscará estabelecer o Brasil como potência mundial, mas "o truque em Londres será atingir as notas substantivas certas, estabelecendo a liderança brasileira sem colher muito desdém daqueles ao seu redor", disse Sweig.

Na semana passada, Lula colheu muito desdém. A crise econômica, ele disse, foi causada "por comportamentos irracionais de gente branca com olhos azuis, que antes pareciam saber de tudo, e, agora, demonstram não saber de nada".

Os comentários poderiam ter causado apenas uma leve agitação na presença de outros líderes latino-americanos, que rotineiramente criticam os banqueiros nos Estados Unidos e na Europa. Mas ditos em Brasília com o primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, ao seu lado, os comentários de Lula causaram irritação tanto em casa quanto no exterior.

"Aquela era uma grande chance de Lula mostrar que é a voz de uma liderança razoável, considerada", disse Amaury de Souza, um analista político que comanda a MCM Consultores Associados, no Rio. "Agora ele pode ser acusado de racismo, o que enfraquece enormemente as posições do Brasil na política externa."

Alguns analistas sugeriram que o presidente brasileiro, como faz com frequência, podia estar fazendo seus comentários para os trabalhadores pobres, a base de seu apoio. Mas os comentários tocaram uma ferida aberta entre as elites do Brasil, que se ressentem da popularidade de Lula, um ex-metalúrgico com escolaridade apenas até a quarta série.

Não foi a primeira vez que ele exibiu sua raiva em relação à crise. Após passar grande parte da década desenvolvendo sua economia, domando a inflação e poupando mais de US$ 200 bilhões durante o boom dos commodities, o Brasil era visto como um exemplo na economia mundial.

"O desejo do Brasil de ser considerado uma das grandes potências econômicas faz parte desta frustração de Lula", disse Johanna Mendelson-Forman, associada sênior do programa para Américas do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais. "É como se ele dissesse: 'Agora que cheguei a potência econômica, o mundo quebra'."

Enquanto a crise econômica se desdobrava nos Estados Unidos e na Europa no final do ano passado, Lula minimizava a possibilidade de contágio em seu país.

"Lá, a crise é uma tsunami", ele disse em outubro. "Aqui, se ela chegar, vai chegar uma marolinha que não dá nem para esquiar".

Mas agora a economia do Brasil está sofrendo. Seu produto interno bruto caiu em 3,6% no último trimestre de 2008, a pior queda entre os países latino-americanos. O país perdeu 654.946 empregos em dezembro de 2008 e mais 101.748 empregos em janeiro, segundo o Ministério do Trabalho.

O impacto está exercendo um preço político. Em março, Lula sofreu sua primeira queda de popularidade em mais de um ano.

Seu índice de aprovação em algumas pesquisas ainda é impressionante, pairando acima de 70%, mas poderia cair abaixo de 50% se o declínio econômico prosseguir, disse David Fleischer, um professor de ciência política da Universidade de Brasília.

A equipe de Lula tem impressionado alguns economistas com seus esforços para tentar impedir um maior vazamento no barco econômico. E apesar da recente queda na popularidade, poucos descartam Lula, um dos políticos mais resistentes do Brasil. Em 2006, ele se recuperou de um escândalo para conquistar a reeleição para o segundo mandato. Então o Supremo Tribunal acusou dois importantes funcionários do governo de corrupção em 2007, mas isso não afetou a popularidade do presidente, que continuou subindo.

Mesmo no encontro de cúpula em Londres, sua estatura pareceu segui-lo.

Um órgão de imprensa brasileiro mostrou o vídeo do presidente Obama apertando a mão de Lula. "Esse é o cara", disse Obama. "Eu amo esse cara. Ele é o político mais popular da Terra."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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