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07/04/2009

Brooks: o fim da filosofia

The New York Times
David Brooks
Sócrates falou. A suposição por trás de sua abordagem à filosofia, e as abordagens de milhões de pessoas desde então, é de que o pensamento moral é basicamente uma questão de razão e deliberação: Pense bem os problemas morais. Encontre um princípio justo. Aplique.

Um problema com este tipo de abordagem à moralidade, como Michael Gazzaniga escreve em seu livro de 2008, "Human", é que "é difícil encontrar qualquer correlação entre o raciocínio moral e o comportamento moral proativo, como ajudar outras pessoas. Na verdade, na maioria dos estudos, nada foi encontrado".

Hoje, muitos psicólogos, cientistas cognitivos e até mesmo filósofos abraçam uma visão diferente da moralidade. Nesta visão, o pensamento moral se parece mais com a estética. Ao olharmos para o mundo, nós avaliamos constantemente o que vemos. Ver e avaliar não são dois processos separados. Eles estão ligados e são basicamente simultâneos.

Como Steven Quartz, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, disse durante um recente debate sobre ética patrocinado pela Fundação John Templeton: "Nosso cérebro está computando valor a cada fração de segundo. Tudo para o que olhamos, nós formamos uma preferência implícita. Algumas delas chegam à nossa consciência; algumas permanecem no nível inconsciente, mas... nosso cérebro serve - o motivo para o qual nosso cérebro evoluiu - para encontrar o que é de valor em nosso ambiente".

Pense no que acontece quando você coloca um novo alimento em sua boca. Você não precisa decidir se é desagradável. Você apenas sabe. Você não precisa decidir se uma paisagem é bonita. Você apenas sabe.

Os julgamentos morais são assim. São rápidas decisões intuitivas e envolvem parte do processamento da emoção no cérebro. A maioria de nós faz julgamentos morais em um estalo sobre o que parece justo ou não, ou que parece bom ou não. Nós começamos a fazer isso quando somos bebês, antes de desenvolvermos uma língua. E mesmo na idade adulta, nós frequentemente não podemos explicar para nós mesmos por que algo parece errado.

Em outras palavras, o raciocínio surge depois e é frequentemente guiado pelas emoções que o precederam. Ou como escreveu memoravelmente Jonathan Haidt, da Universidade da Virgínia: "As emoções estão, na verdade, encarregadas do templo da moralidade, e... o raciocínio moral é realmente apenas um servo disfarçado como alto sacerdote".

A pergunta então se torna: o que molda as emoções morais em primeiro lugar? A resposta há muito é a evolução, mas nos últimos anos há uma crescente avaliação de que a evolução não se trata apenas de competição. Ela também é uma cooperação entre grupos. Como as abelhas, os seres humanos há muito vivem e morrem com base na sua capacidade de dividir o trabalho, ajudar uns aos outros e se unirem diante de ameaças comuns. Muitas de nossas intuições e emoções morais refletem essa história. Nós não apenas nos importamos com nossos direitos individuais, ou mesmo os direitos de outros indivíduos. Nós também nos importamos com lealdade, respeito, tradições, religiões. Nós todos somos descendentes de cooperadores bem-sucedidos.

A primeira coisa boa a respeito desta abordagem evolucionária para a moralidade é que ela enfatiza a natureza social da intuição moral. As pessoas não são unidades separadas formulando friamente argumentos morais. Eles se unem em comunidades e redes de influência mútua.

A segunda coisa boa é que isso leva uma visão mais calorosa da natureza humana. A evolução sempre envolve competição, mas para os seres humanos, como Darwin especulou, a competição entre os grupos nos transformou em criaturas cooperativas, empáticas e altruístas - pelo menos dentro de nossas famílias, grupos e, às vezes, nações.

A terceira coisa boa é que isso explica a forma casual como a maioria de nós conduz a vida sem destruir a dignidade e a escolha. As intuições morais tem a primazia, argumenta Haidt, mas não são ditadoras. Há vezes, frequentemente nos momentos mais importantes de nossas vidas, em que de fato usamos o raciocínio para superar as intuições morais, e frequentemente estes raciocínios -juntamente com novas intuições- vem de nossos amigos.

A ascensão e agora domínio desta abordagem emocional à moralidade representa uma mudança de época. Ela desafia todo tipo de tradições. Ela desafia a forma livresca como a filosofia é concebida pela maioria das pessoas. Ela desafia a tradição talmudista, com seu escrutínio hiper-racional dos textos. Ela desafia os novos ateístas, que se veem envolvidos em uma guerra da razão contra a fé e que tem uma fé sem razão no poder da razão pura e na pureza de seu próprio argumento.

Finalmente, ela também deve desafiar os próprios cientistas que estudam a moralidade. Eles são bons em explicar como as pessoas fazem julgamentos sobre o que faz mal e é justo, mas ainda lutam para explicar os sentimentos de deslumbre, transcendência, patriotismo, alegria e autossacrifício, que não são acessórios das experiências morais da maioria das pessoas, mas sim parte central delas. A abordagem evolucionária também leva muitos cientistas a negligenciarem o conceito de responsabilidade individual e dificulta para eles apreciar que a maioria das pessoas luta visando a bondade, não como um meio, mas como um fim em si...

Tradução: George El Khouri Andolfato

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