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12/04/2009

Quebrando as barreiras da velocidade

The New York Times
Por Jere Longman
Kingston, Jamaica - Como homem mais veloz do mundo, Usain Bolt ganhou um lugar de honra no bar e na varanda da casa de sua tia em sua remota cidade natal, Sherwood Content. Vários pôsteres de Bolt dividem o espaço com uma fotografia de Nelson Mandela, um relógio com o Pai Nosso gravado e uma placa mostrando o cantor barítono Big Mouth Billy.

"Ela sempre me faz rir", diz Bolt sobre a tia.

Foi uma mistura semelhante dos aspectos icônico e brincalhão que Bolt usou para surpreender e conquistar 90 mil espectadores em Beijing e uma audiência mundial no verão passado. Enquanto conseguia três medalhas de ouro e três recordes mundiais, ele se divertiu muito, fazendo mímica de um arqueiro puxando o arco e comemorando na pista com uma dança chamada Gully Creeper.

E agora Bolt espera que sua personalidade bem humorada possa ser tão transcendente quanto sua velocidade, que produziu recordes em Beijing de 9,69 segundos nos 100 metros, 19,30 nos 200, e 37,10 no revezamento 4x100.

Bolt não apenas quer revitalizar um esporte que sofre declínio internacional e redefinir seus limites de velocidade, mas nos Jogos de Verão de Londres em 2012, ou antes disso, ele quer se tornar o primeiro astro das pistas a ganhar US$ 10 milhões por ano em prêmios, cachês e publicidade.

"David Beckham, Tiger Woods, ele tem que ver isso como seu objetivo", diz Ricky Simms, agente de Bolt em Londres, falando mais em termos de amplitude mercadológica do que de renda. Astros das pistas não ganham tanto quanto os astros de esportes profissionais com maior visibilidade. Woods, por exemplo, ganha cerca de US$ 100 milhões por ano. Um punhado de grandes astros das pistas, como Carl Lewis, Michael Johnson, Marion Jones e Maurice Greene, provavelmente ganharam entre US$ 5 a US$ 7 milhões no pico de suas carreiras.

Como Bolt tem apenas 22 anos, ele tem a chance de participar de três Olimpíadas. Para tornar-se uma figura de destaque, ele certamente terá que continuar vencendo e quebrando recordes, e ao mesmo tempo evitar as lesões, a complacência, e continuar longe da corrupção do doping.

Neste ano pós-Olímpico, com os campeonatos de atletismo que serão realizados em agosto em Berlim, Bolt é a única superpotência do esporte. Como tal, ele pedirá cachês de aparição de até US$ 200 mil por corrida, o dobro do que os outros grandes astros recebem, dizem os agentes e promotores.

Seu contrato com a marca de calçados Puma vale cerca de US$ 1,5 milhão por ano, informaram funcionários da companhia. Ele também faz publicidade para a Gatorade e Digicel, uma companhia de telefonia celular do Caribe, o que deve colocar a renda de Bolt em 2009 acima dos US$ 3 milhões.

Mas Bolt é da Jamaica, não dos Estados Unidos, onde vários patrocinadores olímpicos têm suas sedes. E ele também chegou ao sucesso no início de uma recessão mundial. Resta saber se ele conseguirá realizar sua visão de US$ 10 milhões ao licenciar sua imagem para vídeo games, bonecos e marcas de cereal.

"Espero que ele consiga, mas será uma tarefa difícil", disse Emanuel K. Hudson, advogado de Los Angeles e agente de Greene, campeão dos 100 metros nas Olimpíadas de 2000.

Numa entrevista na segunda-feira passada a repórteres internacionais, Bolt falou honestamente sobre suas ambições e os desafios de reerguer sua motivação depois de seu desempenho tão surpreendente em Beijing.

Bolt decidiu que sua motivação continuará sendo forçar os limites do desempenho humano. Seus técnicos falam que ele tem potencial para correr os 100 metros em 9,5 segundos, de quebrar os 200 metros em 19 segundos e desafiar o recorde mundial dos 400 metros de 43,18 segundos, sustentado por Johnson, ídolo de Bolt.

"Meu principal objetivo é ser uma lenda no meu esporte", disse Bolt, que tem 1,98 de altura. "É preciso ficar no topo todos os anos. Não dá para ser rápido nessa temporada e não chegar lá nas duas seguintes".

Aparições para seus patrocinadores, comemorações pós-olímpicas e outras distrações atrasaram o treinamento de Bolt no início da temporada, ele admitiu. Ele começou mal nos seus primeiros 100 metros no mês passado em Spanish Town, Jamaica. Só na final ele conseguiu igualar a marca de 9,93 segundos, ajudados pelo vento, do seu parceiro de treino, Daniel Bailey de Antígua.

"Não me senti eu mesmo", disse Bolt.

Ele voltou para casa furioso, disse Norman Peart, agente de Bolt. "Foi um chamado para a realidade", disse Peart, acrescentando que nas últimas semanas Bolt deu mais atenção ao treinamento.

Na segunda-feira, durante um treino relativamente fácil, Bolt correu seis repetições de 180 metros em tempos de 19,6 a 20,6 segundos, e pareceu relaxado e confiante.

Ao notar que seu compatriota Asafa Powell, ex-recordista mundial dos 100 metros, tinha tendência a "surtar" sob pressão em grandes competições, Bolt disse que ele passa seu tempo antes das corridas jogando videogame e dominó e adotando o seguinte pensamento: "Se sou o homem mais rápido do mundo, ninguém vai ganhar de mim".

Dentro e fora das pistas, Bolt sabe que ele passará por um escrutínio muito maior. Michael Phelps, o nadador americano que ganhou oito medalhas de ouro em Beijing, descobriu isso quando foi fotografado numa festa com um cachimbo de maconha. O resultado foi uma suspensão de três meses e a perda do acordo comercial com a Kellog.

"Aquilo foi estupidez", disse Bolt sobre o comportamento de Phelps.Ele reconehceu que já experimentou maconha quando era mais novo e que Phelps pode ter se sentido pressionado pelos amigos, mas, acrescentou:"Você precisa saber quem você é, o quanto é famoso e o quanto significa no país".

Bolt agora viaja com dois policiais, mais para controlar o assédio dos fãs entusiasmados do que para protegê-lo, diz um dos guarda-costas.Ele normalmente pede para que seus amigos façam coisas para ele na rua, para não ser parado constantemente para dar autógrafos e posar para fotos.

Quando está em público, Bolt parece feliz em responder aos pedidos. Ele compareceu aos campeonatos colegiais de corrida aqui com 25 mil pessoas em 4 de abril e abraçou crianças, como um político experiente. Ainda assim, ele só é rápido na pista; no resto, Bolt funciona no seu próprio ritmo sem pressa. Depois do encontro, ele convidou 2 mil pessoas para uma festa num clube local, chegando lá finalmente às 2h30, onde dançou usando óculos escuros.

No campeonato, vários atletas estavam inspirados para imitar a teatralidade de Bolt, além de sua velocidade. Ramone McKenzie ganhou os 200 metros usando uma máscara de Batman. McKenzie contou que Bolt disse a ele: "Não seja como eu; seja melhor que eu".Em Beijing, Bolt tornou-se o primeiro homem jamaicano a vencer os 100 metros olímpicos. (Donovan Bailey, nativo da Jamaica, ganhou os 100 metros pelo Canadá nos Jogos de Atlanta em 1996; Ben Johnson, outro atleta nascido na Jamaica que competia pelo Canadá, teve sua medalha de ouro retirada em 1988 depois de seu teste de esteróides dar positivo). Shelly-Ann Fraser também se tornou a primeira mulher jamaicana a ganhar os 100 metros olímpicos em Beijing.

Essas conquistas trouxeram um sentimento de orgulho nacional e assinalaram que os jamaicanos não precisam mais frequentar faculdades nos Estados Unidos para se tornarem astros do esporte, dizem autoridades do atletismo. A participação juvenil, junto com o interesse dos ais, cresceu consideravelmente desde Beijing, disseram.
Nos campeonatos colegiais, Dianne Johnson, 13, estabeleceu o recorde feminino para sua faixa etária nos 100 metros, com 11,9 segundos; Jazeel Murphy, 15, ganhou em sua categoria dos 100 metros masculinos com 10,44 segundos.

Bolt é "uma inspiração para o povo jamaicano, uma prova de que nós podemos ser grantes, que podemos ser recordistas mundiais", disse Ruel Reid, diretor do Jamaica College, referência na preparação de corredores.

Ao mesmo tempo, o sucesso olímpico de Bolt deu início a um debate que questiona se um país em desenvolvimento pode bancar gastos exorbitantes no desenvolvimento dos esportes e estádios às custas de seus colégios e do governo federal.

"Até que os jamaicanos, a maioria dos jamaicanos, em cada canto do país, saiba ler e escrever, até que o cuidado de saúde apropriado, a habitação e a alimentação estejam disponíveis para todos os jamaicanos, não se pode esperar que o governo atenda a todos os pedidos, ou à maioria deles, para injetar tanto dinheiro do povo nos esportes", escreveu Tony Becca numa coluna do The Gleaner, principal jornal da Jamaica, na semana passada.

Fora da Jamaica, os tempos surpreendentes de Bolt alimentaram outro debate - se os seus recordes são válidos. Ele nunca falhou em um teste de doping, mas a falta de valorização das corridas é tanta que os tempos rápidos atraem um ceticismo imediato. Três dos últimos cinco homens campeões olímpicos dos 100 metros usaram substâncias proibidas segundo os testes, e a corredora Jones teve sua reputação desgraçada.

Notando que Bolt só começou a correr os 100 metros seriamente em 2008, Lewis, dez vezes medalha de ouro em Olimpíadas, disse ao site Sports Illustrated em setembro último que, "para alguém que correu 10,03 segundos num ano e 9,69 segundos no próximo, não questionar isso num esporte que tem a reputação que tem hoje, é ingenuidade".

Essas críticas ainda afetam por aqui. Em resposta, autoridades esportivas afirmam que a Jamaica tem sido uma potência das corridas há 80 anos. Que seu sistema de desenvolvimento do esporte tem campeonatos nacionais até para as crianças do ensino fundamental. Que há técnicos de alto nível em toda a ilha. Que Bolt é uma estrela internacional desde os 15 anos, quando ganhou o campeonato mundial junior nos 200 metros.

Teddy McCook, secretário-geral do Comitê Olímpico Jamaicano, chamou Lewis de "idiota". Face à pressão internacional, a Jamaica começou um programa independente de testes de drogas. Mesmo antes disso, disse Bolt, ele foi testado entre 30 e 40 vezes no ano passado, dentro e fora das competições, pelo órgão responsável pelas corridas nomundo e pela Agência Mundial Anti-Doping.

O técnico de Bolt, Glen Mills, disse que ele estava disposto a ser testado "todo dia, a qualquer minuto do dia". Questões sobre o doping não o aborrecem, disse Bolt, acrescentando: "Eu sei que estou limpo".Seus fãs esperam isso.

"Estamos todos rezando", diz Ian Andrews, gerente administrative do Insituto de Esportes da Jamaica. Um teste positivo para drogas em qualquer uma de suas estrelas da corrida "murcharia todo o país", disse Andrews. Por enquanto, Bolt está sendo retratado aqui sob uma luz mais idealizada: um rapaz que aprendeu a correr em estradas pedregosas e esburacadas em Sherwood Content, a cerca de 96 quilômetros ao sudeste de Montego Bay, e depois tornou-se campeão olímpico. Um homem humilde e responsável que ajuda os jovens em seu distrito natal com extintores de incêndio e computadores, tênis de corrida e equipamentos de academia.

Em 26 de abril, Bolt comparecerá a um carnaval de rua em Boston, onde os fãs poderão correr de bicicleta ao lado de uma imagem dele presa a um trilho, para tentar igualar sua velocidade nos 100 metros. Em maio, ele correrá 150 metros numa pista especial colocada nas ruas de Manchester, Inglaterra. No ano que vem, ele planeja participar de um desafio entre corredores americanos e jamaicanos. Esses eventos tem como objetivo expandir o apelo das corridas nos anos não-olímpicos e para aumentar a exposição de Bolt.

"Tenho uma responsabilidade de ajudar o esporte", disse Bolt. "Não é um problema. Eu quero me divertir o tempo todo. Vou ser apenas eu sendo eu mesmo."

Tradução: Eloise De Vylder

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