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14/04/2009

Os muitos mistérios dos terremotos atrapalham os esforços para prevê-los

The New York Times
Kenneth Chang
Quase todos os terremotos são pequenos. Um pequeno segmento de uma falha, a quilômetros abaixo do solo, sacode um pouco, com um estrondo imperceptível na superfície. Mas em alguns poucos terremotos, a falha continua rompendo, o solo salta vários centímetros e o mundo sacode no cataclisma.

"Como uma ruptura passa de uma polegada por ano a 4.800 quilômetros por hora em alguns poucos segundos?" perguntou Ross S. Stein, um geofísico do Levantamento Geológico americano.

Ninguém sabe.

Esta falta de conhecimento torna a previsão de terremotos um exercício frustrante e arriscado, e complica os esforços para calcular o risco de uma construção humana, como um reservatório de água ou uma usina geotérmica, poder provocar inadvertidamente um terremoto mortal.

No mês passado, Giampaolo Giuliani, um técnico que trabalha em uma experiência de neutrinos no Laboratório Nacional de Gran Sasso, na Itália, emitiu um alerta urgente de que um grande terremoto estava prestes a atingir a região de Abruzzo. A previsão foi baseada nas medições que ele fazia dos altos níveis de gás radônio, presumivelmente liberado das rochas que estavam sendo moídas pelas tensões de um terremoto incipiente.

Em 6 de abril, um terremoto de 6,3 de magnitude atingiu L'Aquila na região central da Itália, matando quase 300 pessoas. Giuliani alegou prova de sua previsão, que foi desconsiderada pelas autoridades.

Mas especialistas em terremotos como Stein estão céticos. Os cientistas estudam o radônio como possível sinal de alerta de terremotos desde os anos 70, e apesar de terem encontrado casos convincentes de liberação de radônio antes de alguns terremotos -por exemplo, os níveis de radônio nas águas subterrâneas estavam 10 vezes acima do normal antes do terremoto que atingiu Kobe, Japão, em 1995 - as correlações não eram fortes o suficiente ou claras o suficiente para previsões úteis.

Um caso de sinais confusos de radônio ocorreu em 1979. Dois detectores no Sul da Califórnia, separados por 32 quilômetros, mediram níveis incomumente altos de radônio em meados do ano. Os níveis de radônio então diminuíram em outubro, pouco antes da ocorrência de três terremotos.

Um terremoto, de 6,6 de magnitude, ocorreu 290 quilômetros a sudeste, e os dois menores, de magnitudes 4,1 e 4,2, ocorreram a mais de 60 quilômetros de distância. Além disso, o detector de radônio próximo de um dos terremotos menores não apontou níveis altos de radônio, apesar de ter apontado uma queda de radônio poucos dias antes.

Isso deixou os cientistas confusos sobre como poderiam elaborar uma previsão a partir da elevação e queda dos níveis de radônio. Os dados envolvendo outros gases como o dióxido de carbono e emissões eletromagnéticas que às vezes são detectadas antes de terremotos também são confusos.

"Não é possível se apoiar nisso a menos que seja um precursor confiável e aconteça antes da maioria dos terremotos, e não apenas de vez em quando", disse Susan Hough, uma sismóloga do Levantamento Geológico.

Para complicar as coisas, a previsão de Giuliani errou o momento e o local. Ele previu que o terremoto ocorreria uma semana antes e em uma cidade a 50 quilômetros de distância. Se as autoridades tivessem atuado com base em sua previsão, disse Richard M. Allen, um professor de geofísica da Universidade da Califórnia, em Berkeley, "a cidade errada teria sido evacuada, e evacuada na hora errada".

Apesar da previsão permanecer esquiva, os cientistas descobriram que a atividade humana pode provocar um terremoto. Em dezembro de 2006, o projeto de energia geotérmica em Basel, Suíça, começou a injetar água a 5 quilômetros de profundidade no solo. Alguns tremores minúsculos eram esperados, mas a água foi interrompida quando um dos terremotos atingiu 2,7 de magnitude. Poucas horas depois, um terremoto maior, de 3,4 de magnitude, sacudiu Basel, causando pequenas danos aos prédios.

Dois meses depois, ocorreram mais dois terremotos de 3 de magnitude. Os pesquisadores do Instituto Federal de Tecnologia da Suíça, em Zurique, calculam que a área sofrerá um número ligeiramente maior de pequenos tremores ao longo dos próximos 20 a 40 anos, em decorrência do breve projeto geotérmico, que permanece suspenso.

A preocupação é que um desses pequenos tremores possa provocar um efeito cascata resultando em um grande terremoto como aquele que atingiu seriamente Basel em 1356. Por outro lado, os pequenos tremores poderiam aliviar a tensão ao longo da falha, reduzindo a probabilidade de um terremoto maior.

"Com o conhecimento atual, realmente não há como dizer", disse Jochen Woessner, um dos cientistas suíços.

Os geólogos não sabem como as peças da crosta terrestre que geralmente se comprimem com alta fricção passam uma pela outra suavemente durante um grande terremoto, como se uma lixa repentinamente se transformasse em Teflon. "Parece que a fricção é algo mais complicado do que a maioria poderia imaginar", disse Stein.

Uma amostra retirada da falha de San Andreas, na Califórnia, revelou a presença de talco, que poderia atuar como lubrificante durante um terremoto. Mas a partir de uma amostra, os cientistas não podem saber se isso é típico das rochas ao redor das falhas de terremotos.

Em um encontro da Sociedade Sismológica da América na semana passada, em Monterey, Califórnia, um debate animado prosseguiu sobre se grandes terremotos diferem significativamente dos pequenos tremores, ou se um grande terremoto é apenas um pequeno tremor que não parou. Se os grandes terremotos forem diferentes, então seria possível detectá-los nos primeiros poucos segundos de ondas sísmicas e então emitir um alerta. As pessoas não teriam tempo para evacuar, mas poderiam ter tempo suficiente antes do abalo mais forte para se deslocarem para um local mais seguro, sob um batente ou sob uma mesa.

Acredita-se que reservatórios também possam induzir alguns terremotos. A maioria dos sismólogos acredita que um terremoto de 6,5 de magnitude na Índia, em 1967, que matou cerca de 200 pessoas, foi provocado pelo peso da água em um reservatório que foi enchido poucos anos antes. Um reservatório não pode gerar um terremoto por conta própria, mas pode agir como um gatilho para liberação de tensão tectônica acumulada e apressar um terremoto em anos ou séculos.

Mais controversa é a afirmação de alguns cientistas de que um terremoto de 7,9 de magnitude na província de Sichuan, na China, que matou cerca de 80 mil pessoas no ano passado, foi provocado pelos 320 milhões de toneladas de água de um reservatório próximo.

Leonardo Seeber, um cientista pesquisador do Observatório da Terra Lamont-Doherty na Universidade de Colúmbia, não sabe ao certo sobre o terremoto de Sichuan, mas acredita que os cientistas e autoridades precisam levar mais em consideração o risco de terremotos induzidos.

Por exemplo, Seeber se pergunta se uma série de abalos de 4 de magnitude há duas semanas ao redor de Salton Sea, no Sul da Califórnia, próximo de uma extremidade de San Andreas, poderia ter sido causada em parte por um usina geotérmica próxima.

A extração de petróleo do solo pode ter provocado outros terremotos, disse Seeber. Nos próximos anos, a estratégia proposta para reduzir o aquecimento global de captura de dióxido de carbono das usinas elétricas e a injeção dele no solo poderia criar novos riscos de terremotos.

Até o momento, as experiências neste tipo de sequestro de carbono se concentraram em saber se será capaz de manter o dióxido de carbono longe do ar por séculos. Mas Seeber disse que esta tecnologia "tem implicações imensas para a provocação de terremotos".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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