UOL Notícias Internacional
 

17/04/2009

Taleban alista um exército de pobres do Paquistão

The New York Times
Jane Perlez e Pir Zubair Shah
Em Peshawar (Paquistão)
O Taleban avançou ainda mais profundamente no Paquistão, ao promover uma revolta de classe que explora os rachas profundos entre um pequeno grupo de ricos latifundiários e seus inquilinos pobres, segundo autoridades do governo e analistas daqui.

A estratégia abriu para o Taleban um caminho para o poder no Vale do Swat, onde o governo permitiu que a lei islâmica fosse imposta nesta semana, e traz riscos maiores para o restante do Paquistão, particularmente para a principal meta dos militantes, o populoso coração da província do Punjab.

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Em Swat, relatos daqueles que fugiram agora deixam claro que o Taleban assumiu o controle ao expulsar cerca de quatro dúzias de latifundiários que detinham grande parte do poder.

Para isso, os militantes organizaram os camponeses em gangues armadas que se transformaram em suas tropas de choque, disseram moradores, funcionários do governo e analistas.

A abordagem permitiu ao Taleban oferecer pilhagens para pessoas frustradas com o governo frouxo e corrupto enquanto os militantes impunham uma forma rígida de Islã por meio do terror e intimidação.

"Esta foi uma revolução sangrenta em Swat", disse um alto funcionário paquistanês que supervisiona Swat, falando sob a condição de anonimato por temer retaliação do Taleban. "Eu não ficaria surpreso se ela varresse a ordem estabelecida no Paquistão."

A capacidade do Taleban de explorar as divisões de classe acrescenta uma nova dimensão à insurreição e aumenta o alarme a respeito dos riscos ao Paquistão, que permanece em grande parte feudal.

Diferente da Índia após a independência em 1947, o Paquistão manteve uma pequena classe alta proprietária de terras, que manteve suas vastas propriedades enquanto seus trabalhadores permaneceram subservientes, disseram autoridades e analistas. Governos paquistaneses sucessivos fracassaram em promover uma reforma agrária e mesmo as formas mais básicas de educação e atendimento de saúde. Não existem rotas de progresso pessoal para a maioria dos pobres rurais.

Analistas e outros funcionários do governo alertam que a estratégia executada em Swat pode ser facilmente transferida ao Punjab, dizendo que a província, onde grupos militantes já exibem força, está madura para o mesmo levante social que atingiu Swat e as áreas tribais.

Mahboob Mahmood, um advogado paquistanês-americano e ex-colega de classe do presidente Barack Obama, disse: "As pessoas no Paquistão estão psicologicamente prontas para uma revolução".

A militância sunita está tirando proveito das profundas divisões de classe que há muito supuram no Paquistão, ele disse. "Os militantes estão prometendo mais do que apenas proibição de música e ensino", ele disse. "Eles também estão prometendo justiça islâmica, governo eficaz e redistribuição econômica."

A estratégia do Taleban em Swat, uma área de 1,3 milhão de pessoas com pomares férteis, vastas áreas de extração de madeira e valiosas minas de esmeralda, se desdobrou em etapas ao longo de cinco anos, disseram os analistas.

A insurreição ganhou impulso nos últimos dois anos, quando o Taleban, reforçado por combatentes experientes das áreas tribais com ligações com a Al Qaeda, enfrentou o exército paquistanês até uma trégua, disse um agente de inteligência paquistanês que atua na região de Swat.

Os insurgentes atacavam qualquer centro de poder: os latifundiários e líderes eleitos - geralmente as mesmas pessoas- e uma força policial mal remunerado e desmotivada, disse Khadim Hussain, um professor de linguística e comunicação da Universidade Bahria, em Islamabad, a capital.

Ao mesmo tempo, o Taleban explorava os ressentimentos dos arrendatários sem-terra, particularmente o fato de terem muitos casos pendentes contra seus chefes no lento e corrupto sistema judiciário, disseram Hussain e moradores que fugiram da área.

Suas queixas foram exploradas por um jovem militante, Maulana Fazlullah, que montou uma emissora de rádio FM em 2004 para apelar aos destituídos. As transmissões exibiam exemplos fáceis de entender usando cabras, vacas, leite e capim.

Em 2006, Fazlullah formou uma força de camponeses sem-terra armada pelo Taleban, disse Hussain e ex-moradores de Swat.

Inicialmente, a pressão sobre os donos de terras foi sutil. Um proprietário foi pressionado a tirar seu filho de uma escola de língua inglesa ofensiva ao Taleban. Outros foram forçados a fazer doações ao Taleban.

Então, no final de 2007, Shujaat Ali Khan, o mais rico dos latifundiários, seus irmãos e seu filho, Jamal Nasir, o prefeito de Swat, se tornaram alvos.

Depois que Shujaat Ali Khan, um importante político na Liga Muçulmana Paquistanesa-Q, escapou por pouco de ser morto por uma bomba de estrada, ele fugiu para Londres. Um irmão, Fateh Ali Mohammed, um ex-senador, também fugiu e agora vive em Islamabad. Nasir também fugiu.

Posteriormente, o Taleban publicou uma lista dos "mais procurados" contendo 43 nomes proeminentes, disse Muhammad Sher Khan, um latifundiário que é um político pelo Partido do Povo Paquistanês e cujo nome consta na lista.

Todos os nomes na lista foram ordenados a se apresentarem aos tribunais do Taleban sob o risco de serem mortos, ele disse.

"Quando se sabe que vão enforcar e matar você, como alguém ousaria voltar lá?" disse Khan, que está escondido no Punjab, em uma entrevista por telefone. "Estar na lista significa: 'Não volte a Swat'."

Um dos principais aplicadores da nova ordem foi Ibn-e-Amin, um comandante do Taleban da mesma área que os latifundiários, chamada Matta. O fato de Amin vir de Matta e saber quem era quem ali, colocou ainda mais pressão sobre os proprietários, disse Hussain.

Segundo o noticiário paquistanês, Amin foi preso em agosto de 2004 sob suspeita de ter laços com a Al Qaeda e foi libertado em novembro de 2006. Outro agente de inteligência paquistanês disse que Amin visitava com frequência uma madrassa no Waziristão do Norte, a fortaleza da Al Qaeda nas áreas tribais, onde ele aparentemente recebia orientação.

Toda vez que os latifundiários fugiam, os arrendatários eram recompensados. Eles eram encorajados a derrubar as árvores dos pomares e vender a madeira para seu próprio lucro, disseram ex-moradores. Ou eram instruídos a pagarem o aluguel ao Taleban em vez de para seus chefes agora ausentes.

Duas minas de esmeraldas que estavam inativas nos últimos anos foram reabertas sob o controle do Taleban. Os militantes anunciaram que receberão um terço da receita.

Como o Taleban enfrentou o exército paquistanês até uma trégua em Swat em fevereiro, os militantes aprofundaram sua abordagem e deixaram claro quem está no comando.

Quando burocratas do governo provincial visitam Mingora, a capital de Swat, eles devem seguir as ordens do Taleban e se sentarem no chão, cercados por talebans empunhando armas, e em alguns casos vestindo coletes de homens-bomba, disse um alto funcionário provincial.

Em muitas áreas de Swat, o Taleban exigiu que cada família entregasse um filho para treinamento como combatente do Taleban, disse Mohammad Amad, diretor executivo de um grupo não-governamental, a Iniciativa para o Eixo de Desenvolvimento e Empoderamento.

Um latifundiário que fugiu com sua família no ano passado, disse que recebeu uma mensagem assustadora na semana passada. Seis arrendatários telefonaram para ele em Peshawar, a capital da província da Fronteira do Noroeste, que inclui Swat, para lhe dizer que sua casa estava sendo demolida, ele disse em uma entrevista aqui.

A pior notícia foi a respeito de suas finanças. Ele teve que vender sua safra de frutas antecipadamente, a um quarto do preço do ano passado.

Mas mesmo este retorno financeiro menor não ficaria com ele, disseram seus arrendatários, transmitindo a mensagem do Taleban. O comprador foi ordenado a dar o dinheiro para o Taleban.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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