UOL Notícias Internacional
 

18/04/2009

Em falsa cela na Geórgia, apresentador de TV cria impacto real

The New York Times
Clifford J. Levy
Em Tbilisi (Geórgia)
A nova estrela da oposição ao presidente Mikheil Saakashvili está presa numa cela, onde prega contra o governo, rabisca frases pelas paredes ("Saakashvili nos traiu!") e brinca com políticos que vêm, como penitentes, buscar perdão por terem em algum momento apoiado o presidente.

E câmeras de vídeo capturam cada minuto.

A cela é falsa, o cenário de um programa de televisão que parece estar fascinando a capital da Geórgia, uma mistura de notícias e reality show, transmitido várias horas por dia numa estação da oposição.

O programa, "Cela Nº 5", está transformando seu apresentador, Giorgi Gachechiladze, numa influente figura da oposição, embora visto somente na tela. Ele jurou não deixar sua cela até que Saakashvili renuncie.

Justyna Mielnikiewicz/The New York Times 
O apresentador de TV Giorgi Gachechiladze em sua cela em Tbilisi

Políticos oposicionistas dizem que Gachechiladze inesperadamente se tornou uma arma significativa em seus esforços para desacreditar o governo, e a popularidade do programa sugere como a insatisfação com Saakashvili se infiltrou na maioria da sociedade georgiana, oito meses após a guerra com a Rússia.

"Isso será um tsunami impossível de deter", disse Gachechiladze. "Saakashvili sujou os principais valores dos georgianos, e o povo nunca se esquecerá disso".

Saakashvili foi eleito presidente após liderar a chamada Revolução das Rosas em 2003, que derrubou um governo com ligações soviéticas. Ele prometeu modernizar a Geórgia e governar com uma orientação pró-ocidental, mas acabou se mostrando uma figura cada vez mais discordante.

Ainda assim, continua sendo uma questão aberta se um povo que deseja estabilidade quer a saída de Saakashvili. Pesquisas recentes indicam que ele mantém uma base de apoio.

Gachechiladze, de 43 anos, um cantor bem conhecido com um irmão que é um dos principais políticos da oposição, é considerado pelos aliados de Saakashvili como um fanfarrão cujo sucesso desaparecerá quando as pessoas se cansarem dele.

A televisão já desempenhou um papel provocativo na política georgiana. Em novembro de 2007, Saakashvili realizou uma caça à oposição que incluiu o envio de policiais da tropa de choque para destruir uma estação da oposição, Imedi.

O governo agora enfatiza que sua decisão de permitir a exibição de "Cela No. 5" e de licenciar sua estação de oposição, a Maestro, é prova de que a Geórgia goza de muito mais liberdade que seus vizinhos, especialmente a Rússia. A Maestro está disponível principalmente em Tbilisi, limitando o impacto do programa fora dali.

Gachechiladze entrou em sua cela - uma sala nas instalações da Maestro do tamanho de um pequeno apartamento - em 20 de janeiro, e saiu apenas uma vez, para dar um concerto público em Tbilisi. Ele estava dentro de uma gaiola para a apresentação, o que atraiu milhares de pessoas.

O nome "Cela No. 5" veio do número de cédula do partido político de Saakashvili, a implicação sendo que o país é um prisioneiro de seu presidente. Gachechiladze sustenta que Saakashvili é ditatorial, governa de forma errada, permitiu o florescer da corrupção e envolveu a Geórgia em guerras sem sentido.

Gachechiladze decorou a cela com poemas, ícones ortodoxos georgianos, bonecas, grafites e colagens de fotos desfiguradas de funcionários do alto-escalão do governo. Ele pendurou mapas para expressar pesar pela guerra, que levou a Geórgia a perder todo o controle sobre dois enclaves em disputa.

Há um beliche, uma mesa e um banheiro. No chão, fica um grande cartaz que reconta as promessas supostamente quebradas por você-sabe-quem.

Outro dia, depois que o governo acusou alguns membros da oposição de tentar obter armas, ele ridicularizou as alegações, criando brincadeiras com armas de brinquedo e conduzindo conversas telefônicas imaginárias com importantes funcionários do governo russo e georgiano.

"Vladimir, ouça o que estou dizendo, é sério, a Geórgia não quer ser uma parte da Rússia, não queremos que você nos diga como viver", declarou ele, como se falasse ao primeiro-ministro Vladimir V. Putin.

Apesar do sucesso de Gachechiladza ter ajudado a oposição, ele também ressaltou a falta de uma figura antigoverno dominante.

Os líderes da oposição abrangem de ex-associados de Saakashvili - como Irakli Alasania, ex-embaixador da ONU, e Nino Burjanadze, ex-presidente do parlamento - a elementos mais radicais. A maioria já foi ao programa.

Quando Burjanadze o fez, Gachechiladze bombardeou-a com perguntas. Por que ela demorou tanto tempo para abandonar o governo? Por que ela apoiou a supressão da oposição de 2007?

"É claro, o erro foi meu", ela confessou ao apresentador.

Em certo ponto, Burjanadze olhou em volta e disse: "Oh, você tem fotos de meus ex-aliados. Isso me lembra que eles estão me acusando de ser uma espiã".

Gachechiladze respondeu: "Houve uma época em que você acusava a todos nós de sermos espiões".

No set neste mês, Gachechiladze reconheceu que o programa estava cobrando seu preço.

"É torturante", disse ele. "Sou um espírito extremamente livre, e tenho de ficar constantemente entre estas quatro paredes. E então sofro a pressão de ter que atuar."

Davit Bakradze, aliado de Saakashvili que é presidente do parlamento, reconheceu a atual proeminência de Gachechiladze. Mas Bakradze apontou que Gachechiladze e a oposição haviam se encaixotado ao emitir uma exigência não-negociável.

"Quando você define o prazo de 9 de abril como o último dia para Saakashvili, o que acontece na manhã de 9 de abril, quando ele ainda for presidente?", disse Bakradze.

A mesma pergunta foi feita a Gachechiladze.

"Por quanto tempo eu ficarei aqui dentro?", ele respondeu. "O quanto for preciso para acabar com esse governo".

Tradução: The New York Times

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