UOL Notícias Internacional
 

18/04/2009

Ilusões alimentaram maus tratos a figura da Al Qaeda

The New York Times
Scott Shane
Em Washington
O primeiro uso da simulação de afogamento e outros maus tratos contra um prisioneiro da Al Qaeda foi ordenado por altos funcionários da CIA, apesar da crença dos interrogadores de que o prisioneiro já tinha lhes dito tudo o que sabia, segundo ex-funcionários da inteligência e uma nota de rodapé presente em um memorando legal recém-divulgado.

A escalada para as táticas especialmente brutais de interrogatório contra o prisioneiro, Abu Zubaydah, incluindo confiná-lo em caixas e batê-lo contra a parede, foi ordenada por autoridades no quartel-general da CIA com base em uma avaliação altamente exagerada de sua importância, segundo entrevistas e uma revisão de documentos recém-divulgados.

Abu Zubaydah forneceu muita informação valiosa sob tratamento menos severo e o tratamento mais duro não produziu nada de novo, segundo um ex-funcionário da inteligência com conhecimento direto do caso. Em vez disso, assistir o seu tormento causou grande perturbação aos seus captores, disse o funcionário.
  • Paul J. Richards/AFP

    Foto de dezembro de 2006 mostra correntes para prender os pés dos presos em Guantánamo



Mesmo para aqueles que acreditavam que o tratamento brutal poderia produzir resultados, disse o funcionário, "ver aquela profunda miséria humana e degradação teve um efeito traumático".

Os membros da CIA adotaram estas técnicas apenas após o Departamento de Justiça ter dado sua aprovação oficial em 1º de agosto de 2002, em um de quatro memorandos legais antes secretos sobre o interrogatório, que foram divulgados na quinta-feira (16).

Uma nota de rodapé de outro dos memorandos descreveu um racha entre os agentes que interrogavam Abu Zubaydah em uma prisão secreta da CIA, na Tailândia, e seus chefes no quartel-general, e afirmava que o tratamento brutal podia ter sido "desnecessário".

Citando um relatório de 2004 sobre o programa de interrogatório de autoria do inspetor geral da CIA, a nota de rodapé diz que "apesar da equipe de interrogatório no local ter julgado que Zubaydah estava cooperando, elementos dentro do quartel-general da CIA ainda acreditavam que ele estava retendo informação".

O debate sobre a importância do papel de Abu Zubaydah na Al Qaeda e o que disse aos interrogadores remonta quase à sua captura, e foi descrito por Ron Suskind em seu livro de 2006, "The One Percent Doctrine", em um artigo de 2006 no "The New York Times" e em um artigo de 29 de março no "The Washington Post", afirmando que suas revelações não desbarataram nenhum plano. (O nome verdadeiro dele é Zein al-Abideen Mohamed Hussein.)

Mas entrevistas com atuais e ex-funcionários do governo com conhecimento direto ou indireto a respeito do interrogatório de Abu Zubaydah, sugerem que os Estados Unidos deram início à simulação de afogamento, rotulada como tortura ilegal pelo governo Obama, com base em uma avaliação profundamente equivocada a respeito de seu prisioneiro.

Em março de 2002, quando Abu Zubaydah foi capturado no Paquistão após um tiroteio com oficiais de segurança paquistaneses apoiados por agentes da CIA e do FBI, funcionários do governo Bush o retrataram como sendo um líder da Al Qaeda. Esta avaliação foi refletida no parecer legal de 1º de agosto de 2002, assinado por Jay S. Bybee, na época o chefe do Escritório de Consultoria Legal do Departamento de Justiça.

O memorando resume a avaliação da CIA de que Abu Zubaydah, na época com 31 anos, tinha ascendido rapidamente a "terceiro ou quarto homem na Al Qaeda" e que serviu como "tenente sênior" de Osama Bin Laden. Ele dizia que Zubaydah tinha "administrado uma rede de campos de treinamento" e esteve "envolvido em todas as grandes operações terroristas executadas pela Al Qaeda".

O memorando relata o retrato pela CIA de um "indivíduo altamente autodirecionado que preza sua independência", um narcisista enganador, saudável e durão, que os funcionários da agência acreditavam ser o principal líder terrorista capturado desde os ataques de 11 de setembro de 2001.

Seu interrogatório, segundo múltiplos relatos, teve início no Paquistão e prosseguiu na prisão secreta da CIA na Tailândia, com uma abordagem tradicional, de formação de relacionamento, liderada por dois agentes do FBI, que até mesmo cuidavam dele enquanto seus ferimentos de bala saravam.

Abu Zubaydah talvez tenha fornecido sua informação mais valiosa já no início, ao apontar Khalid Shaikh Mohammed, a quem conhecia como Mukhtar, como o principal organizador do plano do 11 de Setembro.

A equipe de interrogatório da CIA que chegou uma semana ou duas depois, que incluía ex-psicólogos militares, não mudou a abordagem para o interrogatório, mas começou a mantê-lo acordado dia e noite com rock tocado em alto volume, a retirar suas roupas e manter fria a sua cela.

A base legal para este tratamento é incerta, mas os advogados no quartel-general da CIA estavam em contato constante com os interrogadores, assim como com o subordinado de Bybee no Escritório de Consultoria Legal, John C. Yoo, que elaborava os memorandos sobre os limites legais do interrogatório.

Até meados de 2002, Abu Zubaydah continuou fornecendo informação valiosa. Os interrogadores começaram a suspeitar que ele não era um líder, mas sim um funcionário útil de campo de treinamento que podia arranjar documentos falsos e as viagens para os jihadistas, incluindo os membros da Al Qaeda.

Ele sabia o suficiente para dar aos interrogadores "um mapa para todos os agentes da Al Qaeda", disse um funcionário da agência. Ele também repetiu uma conversa que ouviu sobre possíveis planos ou alvos nos Estados Unidos, apesar de que, quando os agentes do FBI os investigaram, a maioria revelou ser apenas conversa fiada ou ideias preliminares.

Na época, disseram ex-funcionários da CIA, suas dicas foram extremamente úteis, ajudando a rastrear vários outros terroristas importantes, incluindo Khalid Shaikh Mohammed.

Mas altos funcionários da CIA, ainda persuadidos, como disseram ao presidente George W. Bush e sua equipe, de que ele era um importante líder da Al Qaeda, insistiam de que ele devia saber mais.

"Você transmite uma tonelada de informação, mas o quartel-general diz: 'Deve haver mais'", lembrou um funcionário da inteligência que esteve envolvido no caso. Como descrito na nota de rodapé no memorando, o uso repetido de simulação de afogamento contra Abu Zubaydah foi ordenado "pela direção da CIA" e agentes foram enviados pelo quartel-general "para assistir a última sessão de simulação de afogamento".

O memorando, escrito em 2005 e assinado por Steven G. Bradbury, que trabalhou no Escritório de Consultoria Legal, concluiu que a simulação de afogamento era justificada mesmo se o prisioneiro não soubesse tanto quanto as autoridades imaginavam.

E ele não sabia, segundo um ex-funcionário da inteligência envolvido no caso de Abu Zubaydah. "Ele implorava por sua vida", disse o funcionário. "Mas ele não fornecia nenhuma informação nova. Ele não tinha mais nenhuma para dar."

O relato do próprio Abu Zubaydah, dado em 2006 para o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, corrobora que aquilo que ele chamou de "tortura real", incluindo a simulação de afogamento, começou apenas "cerca de dois meses e meio ou três" após sua chegada à prisão secreta, segundo o relatório de 2007 do grupo.

Desde 2002, a CIA reduziu sua avaliação da importância de Abu Zubaydah, apesar de ainda considerar importantes as suas revelações.

Em uma entrevista, um funcionário da inteligência disse que a visão atual é de que Abu Zubaydah foi "um importante facilitador para os terroristas" que revelou "material bruto essencial para uma ação contraterrorista bem-sucedida".

Seu interrogatório "possibilitou aos Estados Unidos investirem contra a Al Qaeda, elo por elo, interrompendo suas operações e salvando vidas", disse o funcionário da inteligência.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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