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19/04/2009

Ciranda dos casamentos: crise numa instituição baseada na estabilidade

The New York Times
Será que os americanos se casam demais? Continuamos a ter uma das maiores taxas de casamento de qualquer país do Ocidente, apesar de um declínio recente, mas também praticamos o divórcio em proporções alarmantes. Desde os anos 60, as taxas de divórcio vêm aumentando até quase que metade dos casamentos terminassem assim, mais do que na Suécia liberal, diz Andrew J. Cherlin, demógrafo e sociólogo da Universidade Johns Hopkins em seu intrigante livro "The Marriage-Go-Round" [algo como "A Ciranda do Casamento"].

Ler esse depoimento provocativo é pensar que os relacionamentos nos EUA vivem um caos. Mesmo quando moramos juntos sem nos casar, nos separamos mais rapidamente do que em outros lugares, diz ele. Em uma das descobertas surpreendentes do livro, ele diz que as crianças americanas cujos pais são casados têm maior probabilidade de experimentar o tumulto de uma separação do que as crianças suecas cujos pais vivem juntos sem serem casados.

O casamento apesar disso é um ideal americano. Somos a única nação do Ocidiente que de fato gasta dinheiro do governo para apoiar o casamento. O ato de Iniciativa pelo Casamento Saudável de 2005 agora destina US$ 100 milhões por ano para promover o casamento. Não parece estar funcionando; as taxas de casamento estão caindo vertiginosamente, apesar da expectativa de que a maioria dos americanos ainda se case.

O casamento é o nosso campo de batalha. Só nos Estados Unidos, diz Cherlin, os gays fazem campanha tão determinadamente pelo direito de se casarem. A maioria dos gays e lésbicas da Europa, diz o autor, veem o casamento como mais uma instituição heterossexual de opressão.

Como explicar esse paradoxo peculiar - idealizamos o casamento e mesmo assim nos relacionamos tão mal com ele? Cherlin, que também é autor de "Public and Private Families" [algo como "Famílias públicas e privadas"], tomou para si a tarefa de explicar isso e saiu-se com uma tese original: Há duas forças poderosas em guerra nos EUA, por um lado uma crença histórica no casamento enraizada na herança religiosa, e por outro um princípio fundamental de liberdade individual e a sensação pós-moderna do direito de ser preenchido pelo outro. Quando esses valores colidem, a separação e o divórcio acontecem.

Escrevendo com clareza e cuidado, ele identifica a idealização americana do casamento desde a crença dos colonizadores nas doutrinas da Reforma Protestante. O catolicismo na antiga Europa tinha o celibato como ideal individual mais elevado, mas Martinho Lutero rejeitou isso. "Não há relacionamento, comunhão ou companhia mais amorosa, amistosa e encantadora do que um bom casamento". A frase é supostamente de Lutero, que casou-se com uma freira. A Reforma também rejeitou a hierarquia religiosa católica, concentrando-se na relação direta do indivíduo com Deus.

Conforme o país prosperou, escreve Cherlin, os americanos também começaram a ter tempo e dinheiro para "cultivar seus próprios jardins emocionais". A geração do baby boom foi, é claro, a geração mais individualista. A preocupação crescente com a realização individual pode ser vista em revistas femininas dos anos 70 e 80, quando McCall, por exemplo, publicou um artigo chamado "Tempo para você: isso deve ferir seu casamento?" no qual advoga "a criação de um espaço pessoal dentro do qual o crescimento individual possa continuar dentro da intimidade do casamento". O subtexto, de acordo com Cherlin é: Se o seu casamento não a preenche, você é quase que obrigada a deixá-lo.

Historicamente, sempre foi mais fácil se divorciar nos EUA do que nos países europeus. Mesmo durante os tempos coloniais, apesar de o divórcio ser difícil, era possível em vários lugares. Mas não foi legalizado na Inglaterra até 1857. Hoje, diz Cherlin, ele não conhece nenhum outro país do Ocidente onde a espera seja tão curta para o divórcio amigável.

Não parece importer que somos um país religioso: mais americanos dizem que frequentam a igreja pelo menos uma vez por mês do que em qualquer outro país ocidental exceto a Irlanda. Até os cristãos evangélicos, que dão grande importância ao casamento, assumiram a mensagem de auto-realização de livros como "Guia da Família Cristã para Perder Peso" e "Sua Vida Melhor Agora: Sete passos para viver seu potencial total", de Joel Osteen. Cherlin descreve o Arkansas como um lugar profundamente religioso e conservador, mas que em 2004 teve a segunda maior taxa de divórcios de qualquer Estado do país.

Os esforços para promover o Contrato de Casamento - no qual os casais assinam um acordo antes de se casarem, tornando o divórcio mais difícil - falharam lá e em outros Estados do sul.

Cherlin parece aceitar nossas vontades egoístas como um dado. Ele sugere que o casamento não seja nem mesmo necessário num sentido evolucionário. Mas, pode-se perguntar, e aqueles pássaros - cisnes, gansos, corujas - que formam casais para o resto da vida?

Em vez de gastar dinheiro para promover o casamento, deveríamos usá-lo para promover a segurança de nossos filhos, diz ele. O divórcio e as separações podem prejudicar muito as crianças. Mas os pais não deveriam correr para outro relacionamento só para fornecer um lar estável. Em um estudo feito por Cherlin e um colega, os dois descobriram que toda vez que um parceiro entra ou sai de uma família, as chances de um adolescente roubar, matar aula ou ficar bêbado aumentam em 12%, apesar de ele ressaltar que a maioria dos adolescentes de lares desfeitos não apresenta comportamentos delinqüentes.

Uma forma de assegurar a estabilidade das crianças é dar recursos às mães solteiras para que elas não se sintam pressionadas a encontrar parceiros que as sustentem. Ele aponta para um experimento de assistência social de Wisconsin feito pelo programa de Assistência Temporária para Famílias Necessitadas, no qual o governo do Estado tentava arrecadar fundos de apoio para as crianças entre os pais delinqüentes e dividia esse dinheiro com o governo federal como um reembolso pelo auxílio, dando no máximo US$ 50 para as mães.

Num estudo de 1997, o Estado deu toda a quantia para um grupo de mães selecionadas aleatoriamente. O resultado foi que as mães que haviam recebido os pagamentos completos tinham uma menor probabilidade de ir morar junto com homens que não fossem os pais da criança - presumivelmente causando menos tumulto para a criança - e também tinham menos inclinação a se casar novamente. O último capítulo do livro chama-se "Devagar". Pense antes de correr para um novo relacionamento, escreve Cherlin. É o mínimo que podemos fazer.

Tradução: Eloise De Vylder

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