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20/04/2009

Bo, o cão de estimação dos Obama, sabe que é o chefe da matilha?

The New York Times
Douglas Quenqua
Cedo ou tarde, alguém perguntará a Bo, o cão d'água português de seis meses de idade que se mudou para a Casa Branca na semana passada, se ele sabe a resposta para uma pergunta simples: Quem é um bom garoto?

A questão será com certeza retórica, uma vez que Bo, cuja "raison d'etre" é ser peludo e meigo, tem significativamente menos expectativas de desempenho do que seu dono. Mas de forma nenhuma será trivial, pelo menos não para os psicólogos, neurocientistas, filósofos e donos carinhosos que há séculos refletem sobre os mistérios da consciência canina. O que, eles se perguntam, uma criatura que vive para mastigar sapatos e correr atrás de bolas de tênis sabe sobre si mesmo e seu ambiente?


Essas perguntas já são intrigantes o suficiente quando aplicadas aos animais domésticos - será que eles sabem por que não podem subir no sofá? Sabem que estamos voltando para casa? Que as visitas não gostam que eles as farejem e pulem nelas? - mas se tornam ainda mais viajantes quando se trata de cachorros como Bo. De repente, os fotógrafos se acotovelam para tirar sua foto, e o presidente dos Estados Unidos anda apressado atrás dele.

Será que Bo se pergunta, da forma que ele for capaz, qual o motivo de tanto rebuliço? Será que ele sabe que é o cachorro mais famoso do mundo?

Sabe - ou logo saberá, diz Cecelia Ruggles, uma criadora de cães de Connecticut que é dona de Stump, um spaniel sussex que ganhou primeiro lugar no show do Westminster Kennel Club este ano. Ela também é dona de J.R., um bichon frisé que venceu Westminster em 2001, e de vários outros campeões.

"Ah, eles sabem que são famosos, e com certeza ficam convencidos", diz ela.

Como muitas pessoas envolvidas no ramo de cães, Ruggles assume uma visão relativamente antropomórfica das habilidades cognitivas de seus animais. "O que distingue os cães de exposição dos demais é que eles percebem o que está acontecendo, eles sabem o que estão fazendo", diz ela. "É isso que faz com que eles sejam o que são".

J.R., por exemplo, sabe como causar uma boa impressão ao entrar numa coletiva de imprensa. "Ele abana suas patas - é sua marca registrada", diz Ruggles. "Não é nada que o ensinamos a fazer, é só uma coisa que ele faz".

Muitos donos de animais se apressam a contar histórias sobre a inteligência de seus bichinhos de estimação (com frequência, continuam falando mesmo depois que o ouvinte já se desinteressou), e os céticos atribuem esses truques à personalidade e não à inteligência. Até pessoas que estudaram a inteligência dos cães têm dúvidas de que Bo tenha qualquer noção de que é um astro da mídia internacional.

"Não", declarou Stanley Coren, professor de psicologia da Universidade de British Columbia e co-autor de "What Do Dogs Know?" ["O Que os Cães Sabem?"]. "Os cachorros não conhecem a fama".

O que eles sabem, diz Coren, é sua posição dentro de seu grupo social, quer estejam no topo ou no último lugar da matilha.

"Eles conhecem o conforto, e sabem o quanto eles podem pedir e conseguir", diz ele. Então, com a família presidencial tratando-o como realeza no momento, "isso pode ser equivalente à fama. Ele pode pensar que tem fãs".

Segundo esse padrão, a percepção de Bo de seu ambiente não será tão diferente de qualquer outro cãozinho de estimação bem mimado, diz ele.

"Tenho certeza que existem centenas de milhares, senão milhões, de cachorros de famílias da classe baixa que sentem que são extremamente especiais", diz Coren.

Baseado no comportamento de antigos ocupantes de quatro patas da Casa Branca, é difícil tirar muitas conclusões. Durante a presidência de George W. Bush, o terrier escocês Barney tinha sua própria página na internet no endereço whitehouse.org (que ele dividia com a outra cachorra dos Bush, Miss Beazley), e mostrou sua gratidão mordendo um repórter da Reuters durante os últimos dias do governo. Socks e Buddy, o gato e cachorro dos Clinton, atraíram tantas cartas que Hillary Clinton montou um livro de cartas, apesar de que o mal humor de Socks para com Buddy fizesse com que ele fosse doado para Betty Currie quando os Clinton deixaram a Casa Branca.

Talvez um modelo melhor para Bo seja a springer spaniel Millie, que não apenas "ditou" um livro para sua dona, Barbara Bush, mas também deu à luz uma matilha de filhotes prontos para a câmera.

A ideia de que um cachorro sabe a diferença entre um tapete vermelho e um jornal para fazer as necessidades pode soar pouco plausível.
Durante séculos, entretanto, os mistérios da consciência animal ocuparam as mentes de alguns dos pensadores mais respeitados da humanidade.

Tomás de Aquino, o filósofo católico do século 13, acreditava que os animais possuíam consciência suficiente que daria motivo para que as pessoas os poupassem de castigos e dores excessivas. Rene Descartes, que dividiu o mundo em duas substâncias distintas, mente e matéria, disse que os animais são puramente seres mecânicos desprovidos de uma vida interior (uma classificação que parece vazia para qualquer um que já tenha ouvido o barulho que um cão beagle faz quando você pisa no rabo dele). Darwin, Aristóteles e Immanuel Kant também tentaram, sem muita convicção, elaborar teorias sobre a mente dos animais.

A cognição canina tornou-se uma ciência séria nas últimas décadas.

Mais ou menos.

Começando no final dos anos 90, Marc Bekoff, então professor de ecologia e biologia evolutiva na Universidade do Colorado, usou seu cachorro, Jethro, para conduzir um estudo pioneiro chamado "The Yellow Snow Project" ["Projeto Neve Amarela"].

"Durante cinco invernos seguidos eu coletei pilhas de neve amarela no caminho em que ando com meu cachorro nas montanhas próximas a Boulder", disse ele. "Então eu colocava a neve ao longo da ciclovia e observava o que Jethro fazia".

"Basicamente ele passava mais tempo farejando a urina dos outros cachorros do que a sua própria", diz Bekoff.

Coren, que estudou o trabalho de Bekoff (a psicologia animal é um campo restrito), diz que o experimento da neve amarela ofereceu prova de que os cachorros têm um sentido de si mesmos que os distingue dos outros cães. "É o primeiro nível de consciência, saber que você existe e é uma entidade separada dos outros", diz Coren.

Ele próprio ganhou fama por uma série de testes conduzidos no início dos anos 90 que quantificavam os sons, sinais e gestos que os cachorros compreendem. Ele concluiu que o cão médio tem mais ou menos a mesma capacidade cognitiva de um humano de dois anos de idade, uma descoberta que é normalmente citada por donos de animais.

"Isso ajuda porque, ao lidar com um cão, você pode se perguntar: 'O que eu esperaria de uma criança de dois anos?'", diz ele.

Ainda assim, não importa quantos testes intelectuais sejam inventados, sempre existirão donos de animais que acreditam que seus cães possuem a capacidade mágica de apreender seu lugar no mundo.

"As pessoas adoram humanizar seus cães", diz Mathilde DeCagny, treinadora de Hollywood que trabalhou em "Marley & Eu". "Mas Bo não anda pela Casa Branca nesse momento pensando, 'Me dei bem!'"

O que não é necessariamente ruim. Alguns defensores dos direitos dos animais criticaram os Obama por adotar um cachorro de um criador particular e não de um abrigo. Mas a escolha de certa forma parece menos cruel uma vez que removemos a sugestão de desespero emocional à la Oliver Twist. "Tenho recebido muitos e-mails de gente dizendo que é uma pena que eles não pegaram um cão vira-latas de um abrigo, que saberia que ele era especial", diz Bekoff.

"Mas, convenhamos", ele riu. "Bo não sabe disso, e nem um cão vira-lata saberia".

Tradução: Eloise De Vylder

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