UOL Notícias Internacional
 

20/04/2009

Na China, Liu Yan ainda dança nos seus sonhos

The New York Times
David Barboza*
Em Pequim (China)
Em agosto do ano passado, uma dançarina de 26 anos de idade chamada Liu Yan deveria fazer a apresentação da sua vida na cerimônia de abertura das Olimpíadas de Pequim.

Considerada a principal dançarina clássica chinesa, ela havia preparado uma peça de seis minutos de duração chamada "A Estrada de Seda", que comemoraria a rica herança cultural existente ao longo de uma das mais antigas rotas comerciais do país.

  • Shiho Fukada/The New York Times

    Considerada a principal dançarina clássica chinesa, ela havia preparado uma peça de seis minutos

Porém, duas semanas antes do show, durante um ensaio no Estádio Nacional, em Pequim, Liu saltou para um palco móvel que apresentou defeito, e fez com que ela caísse em um fosso profundo, chocando-se contra uma viga de aço.

Inconsciente, ela foi levada para um hospital militar, onde os médicos realizaram uma cirurgia de emergência de seis horas de duração.

Não demorou muito para que a família dela recebesse as notícias terríveis: Liu havia danificado gravemente a coluna e estava paralisada da cintura para baixo. Seria improvável que ela algum dia voltasse a caminhar, e muito menos a dançar.

No ápice de uma carreira dourada, Liu perdeu o controle exatamente sobre aqueles membros que, segundo os especialistas, tornavam as suas danças tão mágicas.

Atualmente, após um período de recuperação de mais de seis meses no Hospital Militar Nº 306, em Pequim, ela voltou para casa, e está se adaptando à vida em uma cadeira de rodas.

"A vida não é tão agradável e bonita após um acidente destes", disse ela em meio às lágrimas, durante uma entrevista recente aqui, no Hotel Westin. "Você defronta-se com vários dilemas e com a dor".

Estranhamente, a história de Liu é pouco conhecida na China porque, em agosto, temendo que a notícia da queda devastadora da bailarina pudesse prejudicar as comemorações olímpicas, o Comitê Olímpico de Pequim pediu a testemunhas e a familiares que não falassem sobre o acidente.

Mesmo hoje em dia, a mídia chinesa controlada pelo Estado não obteve permissão para contar a história integral daquilo que ocorreu com uma dançarina tão famosa que era muitas vezes escolhida para apresentar-se diante dos líderes mais graduados da China, incluindo o presidente Hu Jintao.

Mas, há algumas semanas, rompendo um pouco com o blecaute de notícias, Zhang Yimou, o aclamado cineasta chinês e diretor da cerimônia de abertura das Olimpíadas de Pequim, homenageou Liu em um jantar de uma cerimônia de premiação aqui, e proclamou que ela é uma heroína. Ao aceitar a homenagem, Liu estava vestida elegantemente de negro, com o seu longo cabelo sedoso preto caindo sobre os ombros. Ela sorriu, enxugou uma lágrima e disse à plateia: "Não fiquem tão tristes por minha causa. Eu serei forte".

Mas ela diz que até agora está lutando para aceitar o inimaginável enquanto nutre esperanças de que algum dia possa andar e até dançar novamente. "A maior decepção para mim foi o fato de os médicos terem abandonado a esperança", disse ela durante uma entrevista. "Eles acham que eu deverei ficar em uma cadeira de rodas pelo resto da vida. Eu jamais desistirei. Ainda estou esperançosa".

Quase todos os dias ela submete-se a fisioterapia, exercitando a parte inferior do tronco com alongamentos, na esperança de que a parte inferior do seu corpo recorde-se dos movimentos e, de alguma forma, volte à vida.

Mas os médicos dizem que as chances de que tal coisa aconteça são mínimas. Os nervos que conectam-se a sua coluna foram seriamente danificados. Onde ela antes tinha um controle incrível, agora não há controle algum.

A jornada de Liu rumo aos palcos começou na Região Autônoma da Mongólia Interior, no norte da China, onde a sua mãe trabalha como médica e o pai como juiz. Em uma entrevista em abril do ano passado, meses antes do acidente, os pais falaram sobre a paixão singular da filha: dança clássica chinesa, que tem uma história de centenas de anos e que foi influenciada pelas artes marciais, pelo tai chi e pela ópera de Pequim.

"Ela era louca pela dança, mesmo nos dias chuvosos", disse o seu pai, Liu Xueming, enquanto tomava uma xícara de chá em uma casa de chá de pequim. "Eu a levava de motocicleta para as aulas de dança. E a professora ficava chocada ao nos ver".

Ele recordou-se de que, aos dez anos, a arte da filha já era suficientemente boa para que ela fosse admitida na escola secundária filiada à prestigiosa Academia de Dança de Pequim. Os seus pais se revezavam em longas viagens de trem a Pequim para passar os finais de semana com ela.

Liu foi matriculada na academia aos 18 anos, tendo sido elogiada pelas suas interpretações emocionantes de coreografias dramáticas clássicas da China. Aos 23 anos, ela recebeu o maior prêmio de dança do país, o Lotus, por uma dança original que retratava a vida de uma moça pobre que sofreu a perda do seu verdadeiro amor no final da dinastia Qing.

Bem antes de ser selecionada como única dançarina solista para apresentar-se nos Jogos Olímpicos, os vídeos dela já eram populares no YouTube. Os coreógrafos elogiavam a sua técnica e o seu temperamento forte, que chegava a ser teimoso.

"Ela era a dançarina mais talentosa", recorda Zhao Ming, um dos principais coreógrafos da China, que trabalhou várias vezes com Liu. "Liu tinha a cintura perfeita e as pernas mais flexíveis. A dança é a arte da beleza, e isso exige a figura perfeita. E ela possuía isso".

Zhang Jigang, vice-diretor da cerimônia de abertura das Olimpíadas, ficou tão impressionado com a habilidade de Liu que pressionou os organizadores para que estes a apresentassem na noite da abertura dos Jogos Olímpicos.

"Eu pensei: 'Ela é simplesmente a pessoa mais recomendável para o momento; ela é a pessoa certa para dançar em frente ao mundo inteiro'", disse ele há algumas semanas em uma entrevista por telefone.

Quando eu conheci Liu, em março de 2008, ela já tinha assinado um contrato de confidencialidade com o Comitê Olímpico de Pequim, prometendo não revelar nada sobre a sua apresentação na cerimônia de abertura. Mas ela me convidou a comparecer ao seu estúdio, onde apresentou danças folclóricas e meditações sobre a dança chinesa clássica.

Naquela época Liu estava transbordante de confiança. Ela disse que, cinco dias antes da queda,colocou um lenço vermelho que tinha comprado recentemente e posou com ele em frente ao estádio olímpico, o chamado Ninho do Pássaro. A fotografia, exibida no blogue dela (http://blog.sina.com.cn/liuyan314), mostra-a em uma postura confiante, com os braços e as pernas estendidos, como se dissesse, "Sou capaz de conquistar o mundo".

Mas, em uma noite quente no final de julho, quando cerca de 10 mil expectadores estavam no estádio para assistir a um ensaio de quatro horas, ela caiu da plataforma para a escuridão.

Ela ainda não entende o que saiu errado. "Eu sou a mais cautelosa das dançarinas", disse Liu mais tarde. "Nunca me machuquei antes. Eu nunca sofri sequer uma fratura".

Os seus pais vieram da Mongólia Interior na manhã seguinte e correram ao leito da única filha. No hospital, alguns dias mais tarde, eles me disseram que a Liu havia se casado recentemente. A mão rompeu em prantos (Liu recusou-se recentemente a falar sobre o seu casamento).

Quando os rumores sobre a sua queda vazaram para a internet após a abertura dos Jogos Olímpicos, a mídia estatal chinesa respondeu com uma pequena matéria online informando que ela havia se machucado. A matéria foi acompanhada de um fotografia de Liu em um leito hospitalar, sorrindo e acenando para a câmera.

Aparentemente, o objetivo da foto foi enviar uma mensagem de que tudo estava bem durante os jogos. Mas Liu disse que não havia felicidade alguma. Na imprensa chinesa, ela apresenta um rosto feliz e diz que está esperançosa quanto ao futuro. Mas em uma série de entrevistas durante os últimos oito meses, ela admitiu que está se sentindo vazia e até mesmo amarga.

Os seus sonhos de criar os seus próprios dramas coreografados evaporaram-se, e ela ainda tem apenas 26 anos de idade.

Liu afirmou que não conseguiu assistir à cerimônia de abertura na televisão em agosto, quando uma dançarina substituta se apresentou. No hospital, ela lutou contra a depressão, e leu periódicos de medicina para aprender a respeito do seu problema.

Ela conta que sente o corpo dividido: a parte superior está perfeitamente boa; a parte de baixo é fria e parece uma pedra.

"A parte inferior tornou-se pesada e afastou-se de mim", explicou ela. "Embora os médicos tenham me dito que eu estou completamente destruída, acho que uma possibilidade é que o meu sistema nervoso esteja adormecido".

Porém, mais recentemente, Liu tem procurado apresentar uma face alegre. Ela não expressou nenhum amargor contra o governo ou os organizadores das Olimpíadas. Recentemente, Liu ingressou no Partido Comunista e começou a aparecer em público.

Atualmente ela fala em estudar para tornar-se apresentadora de televisão e pediu a uma amiga para fazer fotos de moda dela. Ela deseja sonhar novamente, e em certos dias insiste em dizer que é forte.

Agora, a sua luta para deixar o passado recente para trás é bastante evidente.

"De dançarina a pessoa paralisada - é uma realidade dura", declarou Liu certa vez no hospital. "Não consigo aguentar isso. Antes eu conseguia levantar as minhas pernas até a cabeça. E agora as minhas pernas jazem mortas na cama".

* Chen Yang contribuiu com pesquisas para esta matéria.

Tradução: UOL

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