UOL Notícias Internacional
 

21/04/2009

Escolhendo as dez cartas diárias que chegam até Obama

The New York Times
Ashley Parker
Em Washington (EUA)
Conforme Mike Kelleher bem sabe, a tarefa de manter um presidente em contato com a população é muito difícil.

Milhares de cartas, mensagens de e-mail e faxes chegam diariamente à Casa Branca. Algumas centenas são pré-selecionadas e acabam todas as tardes sobre a mesa redonda de madeira de Kelleher, o diretor do Departamento de Correspondências da Casa Branca.
  • Andrew Councill/The New York Times

    Mike Kelleher seleciona as dez cartas de cidadãos que serão entregues a Barack Obama

  • Andrew Councill/The New York Times

    As cartas passam por uma primeira triagem

  • The New York Times

    Resposta escrita a mão pelo presidente Obama



Ele escolhe dez cartas, que são inseridas em uma pasta roxa que é colocada no conjunto de documentos e relatórios informativos que o presidente Barack Obama leva para a sua residência na Casa Branca todas as noites. Estas dez cartas, cujo propósito é servir como uma amostragem daquilo que os norte-americanos estão pensando, são lidas pelo presidente, e ele às vezes as responde de próprio punho, em tinta negra sobre papel azulado.

"Nós selecionamos mensagens que sejam convincentes. Coisas que as pessoas dizem que, ao serem lidas por nós, provocam calafrios", diz Kelleher, 47. "Eu envio a ele cartas que são mensagens desconfortáveis".

O ritual proporciona a Obama uma forma de sair da bolha da Casa Branca, e, segundo os assessores, às vezes faz com que ele fique perturbado. "Me lembro que certa vez ele ficou especialmente silencioso", conta David Axelrod, assessor de Obama. "Eu perguntei sobre o que ele estava pensando e o presidente respondeu, 'Essas cartas abalam a gente'. Isso foi após a leitura de uma carta tocante de uma família que se encontrava em dificuldades".

Algumas cartas começam com "Eu não votei em você"; outras terminam com "Deus o abençoe". Uma missiva veio na forma de rodapé de casa, coberta com US$ 2,70 em selos postais e um rabisco solicitando ao presidente: "Resolva primeiro o problema da moradia!". Muitas cartas oferecem conselhos sobre os melhores petiscos para o "primeiro-cão", Bo, e tem gente que manda casacos caninos coloridos.

Kelleher diz que o presidente tem usado as cartas para fazer perguntas sobre políticas públicas às agências governamentais, e Axelrod recorda-se de uma carta que circulou entre a assessoria, escrita por uma mulher de Glendale, no Arizona, que estava prestes a ficar sem a casa porque o marido havia perdido o emprego.

O chefe de gabinete da Casa Branca, Rahm Emanuel, diz que Obama "acredita que em Washington é fácil esquecer que há pessoas reais com problemas reais sendo afetadas pelo debate político". Emanuel acrescenta que viu o presidente voltar-se para assessores de políticas em reuniões e dizer: "Não, não, não. Quero ler para vocês uma carta que recebi. Quero que vocês entendam".

Cynthia Arnold, de Stewartstown, no Estado da Pensilvânia, escreveu ao presidente dizendo-lhe o que aconteceu a ela quando começou a assistir à posse de Obama pela televisão. O filho dela, o soldado Matthew J. Arnold, 23, cuja unidade está no Oriente Médio, ligou de Fort Hood, no Texas, pedindo ajuda a ela para preencher formulários.

"Ele ligou para me perguntar quem deveria ficar encarregado dos procedimentos para o seu funeral caso ele morresse, o pai dele ou eu", escreveu Arnold. "Ele me disse que a tarefa provavelmente deveria ficar a cargo do pai porque eu mal conseguia falar sobre o assunto ao telefone. Ele me perguntou onde deveria ficar internado caso fosse ferido, lá no Texas ou na Pensilvânia".

Usando letras grandes para garantir que o presidente fosse "capaz de ler a carta", ela pediu a ele "que fizesse, por favor, das nossas tropas uma das suas prioridades". Poucas semanas após ter enviado a carta, ela recebeu uma nota manuscrita de Obama.

"Farei tudo o que estiver ao meu alcance para tornar soldados como Matthew a minha prioridade", escreveu o presidente. "Por favor, diga a ele que o comandante-em-chefe lhe diz, 'Obrigado pelos seus serviços'".

Ele assinou a nota, escrevendo "Barack Obama" com um B e um O grandes e arredondados. Arnold disse que ficou tão surpresa com o fato de o presidente ter chamado o filho dela pelo primeiro nome que "desabou em lágrimas". Ela guarda a carta em um cofre, até que possa colocá-lo em uma moldura.

Kelleher, que tem três filhas, disse mais tarde a Arnold que a carta chamou a sua atenção porque ele também é pai.

Formado pela Universidade Estadual de Illinois, Kelleher serviu junto aos Voluntários da Paz (Peace Corps) em Serra Leoa em meados da década de 1980. Ele concorreu sem sucesso ao Congresso pelo Estado de Illinois em 2000, e foi assim que o seu caminho cruzou o de Obama, que também estava disputando uma vaga no Congresso. Em 2006, Kelleher tornou-se o chefe do escritório do senador Obama em Chicago.

Descrevendo o seu atual trabalho, Kelleher fala sobre a "característica" de cada carta, as fotografias, as mensagens feitas com lápis de cor pelas crianças e as notas do tamanho de cartões postais de pessoas idosas, escritas em máquinas de datilografar que ainda possuem tipos em letras cursivas.

No escritório de Kelleher há uma caixa vermelha para aquilo que ele chama de "casos de vida ou morte envolvendo eleitores".

"Assim, se alguém diz, 'Estou na miséria e quero me suicidar', ou 'Sofro de uma doença fatal e preciso de ajuda', nós imediatamente respondemos estas mensagens". As ameaças são encaminhadas ao Serviço Secreto.

No dia da posse, Michael Powers, de Pikeville, no Estado do Tennessee, escreveu a Obama, dizendo a ele que havia perdido o pai, que fumava três maços de cigarro por dia, vítima de câncer de pulmão, em 1979.

"Em anexo há uma foto do meu pai; faz 30 anos que eu a trago sempre comigo", escreveu Powers, 54. "Ao ver as imagens de Obama com as filhas, passei a sentir mais do que nunca saudade do meu pai".

"Se você quiser sempre estar ao lado das suas filhas, pare de fumar AGORA!", afirmou Powers.

Cerca de um mês depois, Powers recebeu uma resposta. Após agradecer pela "carta maravilhosa e o bom conselho", o presidente escreveu. "Estou devolvendo a foto, já que ela deve ser importante para você, mas me lembrarei do seu pai".

Na parede do seu escritório modesto, a alguns quarteirões da Casa Branca, Kelleher tem duas cartas da sua filha, Carol, de dez anos. Um dia ela escreveu para ele, e quando Kelleher não respondeu, ela mandou "uma segunda carta, mais dura", conta ele. A carta começa assim: "Percebi que você não respondeu à minha carta".

"Assim, tive que responder à mensagem", diz Kelleher, parecendo menos o guardião das mensagens do presidente, e mais um pai desafortunado, impressionado pelo poder das cartas.

Tradução: UOL

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