UOL Notícias Internacional
 

23/04/2009

Equilibrando o secular e o religioso, escola de Cingapura é tida como modelo

The New York Times
Norimitsu Onishi
Em Cingapura
Após começar o dia com orações e cânticos em homenagem ao aniversário do profeta Maomé, os alunos da madrassa (escola muçulmana) Al Irsyad Al Islamiah, aqui em Cingapura, voltam-se para o secular. Em uma aula de química da qual participam apenas garotas o assunto são as substâncias e os ácidos e em outra os alunos estudam inglês, matemática e outras matérias do currículo nacional.

Os professores pedem aos alunos que façam perguntas. Alguns, fiéis à adoção das tecnologias modernas pela escola, medem os conhecimentos dos estudantes com dispositivos individuais de avaliação.

"Isso é como o programa 'Idolos'", diz Razak Mohamed Lazim, diretor da Al Irsyad, que significa "corretamente guiado".

Uma referência ao programa televisivo do tipo reality show para a comparação com uma escola islâmica poderia ser uma surpresa. Mas os líderes muçulmanos de Cingapura veem a Al Irsyad, com o seu equilíbrio estrito entre estudos religiosos e seculares, como o futuro da educação islâmica, não apenas nesta cidade-Estado, mas em outros locais do sudeste asiático.

Duas madrassas na Indonésia já adotaram o currículo e o sistema de gerenciamento da Al Irsyad, atraídas por aquilo que consideram um modelo progressista de educação islâmica afinado com o mundo moderno. Para elas, a Al Irsyad é o contraponto às várias madrassas tradicionais que enfatizam os estudos religiosos em detrimento de tudo o mais. Em vez de pregarem o radicalismo, os livros da escola elogiam a globalização e organizações internacionais como as Nações Unidas.

Líderes da educação islâmica de Cingapura lamentam o fato de que, em grande parte do Ocidente, as madrassas de todas as regiões passaram a ser vistas como centros de militância nos quais os alunos passam os dias decorando o Alcorão. Mas eles estão aliviados porque, nos últimos anos, nenhum suspeito de ser terrorista da região foi produto de madrassas cingapurianas, embora alguns deles tivessem vínculos com madrassas da Indonésia e de outros países do sudeste asiático. Essa associação fez com que se aprofundasse o debate a respeito da natureza da educação muçulmana.

"O mundo muçulmano em geral enfrenta dificuldades com o seu sistema de educação islâmica", diz Razak, explicando que as escolas islâmicas não conseguiram adaptar-se ao mundo moderno. "Em muitos casos, há também o desafio com qual o mundo muçulmano se defronta. Não estamos atendendo às necessidades do islamismo como uma fé que precisa estar viva, interagindo com outras comunidades e religiões".

Na Indonésia, a maioria das escolas muçulmanas anda dá pouca atenção às questões seculares, acreditando que os estudos religiosos são suficientes, diz Indri Rini Andriani, ex-programador de computadores e diretor da Escola Islâmica Al Irsyad Satya, uma das escolas indonésias que adota como modelo a escola daqui.

"Eles acreditam que a educação convencional seja melhor para as crianças, enquanto alguns de nós acham que temos que nos ajustar aos avanços tecnológicos e a tudo aquilo que está se passando no mundo", diz Indri.

Aqui, o Conselho Religioso Islâmico de Cingapura, um comitê que assessora o governo nas questões muçulmanas, deu a Al Irsyad um local de destaque no seu novo centro islâmico. Sendo há muito a instituição que apresenta o melhor desempenho dentre as seis madrassas do país, a Al Irsyad foi escolhida para figurar no centro como um "modelo demonstrativo", afirma Razak, que é também membro do conselho religioso.

Os 900 alunos de nível primário e secundário da escola seguem o currículo nacional das escolas públicas do país, e ao mesmo tempo recebem instrução religiosa. Para acomodar as duas coisas, o dia escolar é três horas mais longo do que o das escolas comuns.

Mohamed Muneer, 32, professor de química, diz que a maior parte dos seus ex-alunos foi para faculdades ou escolas politécnicas, e que alguns dos melhores estudantes ingressaram na Universidade Nacional de Cingapura. "Muitos tornaram-se administradores, alguns estão lecionando e outros entraram para o funcionalismo público", diz ele.

Na cafeteria, Ishak Bin Johari, um jovem de 17 anos que deseja tornar-se jornalista, diz que o equilíbrio entre o secular e o religioso ajudará os formandos da escola a "levar vidas cingapurianas normais, se comparados aos estudantes de outras madrassas".

Esse equilíbrio resultou, assim como muitas coisas neste país, da pressão exercida pelo governo. As madrassas de Cingapura - historicamente as escolas frequentadas pelos indivíduos de etnia malaia, que são 14% da população do país - experimentaram uma explosão de popularidade na década de noventa, quando houve um interesse renovado pelo islamismo.

Mas aquela explosão de interesse, aliada ao baixo desempenho das madrassas em matérias de cunho secular, aos altos índices de evasão e à graduação de jovens com poucas qualificações para o mercado de trabalho, preocupou o governo. Ele respondeu tornando compulsória a educação primária secular nas escolas públicas em 2003, e admitindo exceções como as madrassas, contanto que estas atendessem aos padrões básicos de ensino até 2010. Se não forem capazes de atender a esses padrões, elas terão que deixar de educar crianças no nível de primeiro grau.

"Isso obrigou as madrassas a afastarem-se de um currículo puramente religioso", explica Mukhlis Abu Bakar, especialista em madrassas do Instituto Nacional de Educação, uma faculdade de pedagogia.

No ano passado, na primeira ocasião em que todas as seis madrassas tiveram que submeter-se a exames nacionais no nível de ensino primário, duas delas não foram capazes de atender aos padrões mínimos, embora ainda tenham mais dois anos para tentar passar no teste.

A Al Irsyad, que foi a primeira a alterar o seu currículo, superou as outras madrassas. Mas nem ela nem as outras madrassas constaram das listas das escolas e alunos de melhor desempenho, compiladas pelo Ministério da Educação de Cingapura.

Mukhlis, que também foi membro do comitê administrativo da Al Irsyad na década de noventa, diz que as madrassas ainda têm um longo caminho a percorrer para alcançarem as outras escolas. Embora os professores de Cingapura façam parte do grupo de funcionários públicos mais bem pagos do país, as madrassas encontram dificuldades para atrair professores qualificados porque elas dependem apenas de doações para operar.

"Creio que a Al Irsyad não atingiu um nível que nos permita dizer que ela seja um modelo de educação islâmica", afirma Mukhlis. "Mas, de alguma forma, o sistema por ela implementado poderá possibilitar que um dia a escola torne-se um modelo".

Mesmo assim, ela passou a atrair alunos que de outra forma não estudariam em uma madrassa. Noridah Mahad, 44, diz que desejava mandar os seus dois filhos mais velhos para uma madrassa, mas que ficava preocupada com a qualidade da educação. Com a adoção do currículo nacional por parte da Al Irsyad, ela não se preocupou em matricular o seu terceiro filho na escola. "Aqui eles ensinam muitas outras coisas além do islamismo", diz ela. "Assim, os estudantes muçulmanos terão duas compreensões diferentes: a muçulmana e a do mundo externo".

A Al Irsyad diz que está negociando para exportar o seu modelo educacional para madrassas nas Filipinas e na Tailândia. Na Indonésia, Dahlan Iskan, diretor do Grupo Jawa Pos, uma das maiores companhias de mídia do país, abriu uma escola baseada no modelo cingapuriano. E o Grupo Lyman, um conglomerado industrial, apoia a Al Irsyad Satya.

Poedji Koentarso, um diplomata aposentado, liderou a busca da Lyman, visitando madrassas na Indonésia, na Malásia e em Cingapura.

"Nós procuramos bastante", diz Koentarso. "Foi uma busca difícil, já que em diversas ocasiões as escolas eram muito religiosas, excessivamente religiosas".

Tradução: UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    -0,22
    3,175
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host