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23/04/2009

Japão paga para trabalhadores estrangeiros voltarem para casa, para sempre

The New York Times
Hiroko Tabuchi
Em Hamamatsu (Japão)
Rita Yamaoka, uma mãe de três que imigrou do Brasil, recentemente perdeu seu emprego em uma fábrica daqui. Agora, o Japão lhe fez uma oferta que poderá não ter como recusar.

O governo pagará milhares de dólares para enviar Yamaoka, seu marido, que é um cidadão brasileiro de ascendência japonesa, e sua família em um voo de volta ao Brasil. Mas em troca, Yamaoka e seu marido devem concordar em nunca mais tentarem trabalhar no Japão.

"Eu sinto uma pressão imensa. Eu choro com frequência", disse Yamaoka, 38 anos, após uma reunião onde as autoridades locais detalharam a oferta nesta cidade industrial na região central do Japão.

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    Trabalhadores participam de reunião na Câmara Municipal de Hamamatsu, onde foi estabelecido um plano de pagamento aos trabalhadores

"Eu digo ao meu marido que temos que pegar o dinheiro e voltar", ela disse, com os olhos cheios de lágrimas. "Não temos condição financeira de permanecer aqui por mais tempo."

A oferta do Japão, feita a centenas de milhares de operários imigrantes latino-americanos, faz parte de um novo esforço para encorajá-los a deixar este país atingido pela recessão. Até o momento, pelo menos 100 trabalhadores e suas famílias concordaram em partir, disseram autoridades japonesas.

Mas os críticos denunciam o programa como míope, desumano e uma ameaça ao pequeno progresso que o Japão obteve em abrir sua economia para trabalhadores estrangeiros.

"É uma desgraça. É cruel", disse Hidenori Sakanaka, diretor do Instituto de Política de Imigração do Japão, uma organização independente de pesquisa.

"E o Japão está dando um tiro no pé", ele acrescentou. "Nós podemos estar em uma recessão no momento, mas está claro que o país não tem um futuro sem os trabalhadores estrangeiros."

O programa é limitado aos trabalhadores convidados latino-americanos no país, cujos pais e avós japoneses emigraram para o Brasil e países vizinhos há um século para trabalhar nas plantações de café.

Em 1990, o Japão - enfrentando uma crescente escassez de mão-de-obra na indústria - começou a emitir milhares de vistos especiais de trabalho para os descendentes desses emigrantes. Cerca de 366 mil brasileiros e peruanos atualmente vivem no Japão.

Os trabalhadores convidados rapidamente se transformaram no maior grupo de operários estrangeiros em um país avesso à imigração, preenchendo os empregos chamados três-K (kitsui, kitanai, kiken - árduos, sujos e perigosos).

Mas o setor manufatureiro do país sofreu uma retração com a evaporação da demanda por bens japoneses, elevando o desemprego à maior alta em três anos, 4,4%. As exportações do Japão despencaram 45,6% em março em comparação ao ano anterior, e a produção industrial está em seu ponto mais baixo em 25 anos.

Novos dados do ministério do comércio japonês sugerem que a produção do setor manufatureiro poderia aumentar em março e abril, à medida que o setor começa a reduzir seus cortes de produção. Mas os números podem ter mais a ver com o fato dos estoques estarem tão baixos a ponto de precisarem ser recuperados, em vez de um aumento na demanda.

Enquanto o Japão espera que isso aconteça, ele tem se mostrado disposto a ajudar os trabalhadores estrangeiros a partirem, o que poderia reduzir a pressão sobre o mercado de trabalho doméstico e o número de desempregados.

"Não haverá boas oportunidades de emprego por algum tempo, por isso estamos sugerindo aos nikkei brasileiros que voltem para casa", disse Jiro Kawasaki, um ex-ministro da Saúde e legislador do Partido Liberal Democrático do governo.

Os vistos "nikkei" são vistos especiais concedidos por ancestralidade ou associação.

Ele liderou a força-tarefa do partido do governo que concebeu o plano de repatriação, parte de uma estratégia mais ampla de emergência para combate ao aumento do desemprego.

Segundo o programa de emergência, apresentado neste mês, é oferecido aos trabalhadores convidados brasileiros e de outros países latino-americanos US$ 3 mil para passagem aérea, mais US$ 2 mil por cada dependente - somas atraentes para muitos imigrantes aqui. Os trabalhadores que partem são informados que podem embolsar qualquer troco.

Mas aqueles que voltarem para casa às custas do Japão não poderão pedir novamente um visto de trabalho. Privados desse status, uma volta seria praticamente impossível. Eles poderiam voltar com vistos de turismo de três meses. Ou, caso se tornem médicos, banqueiros ou outras profissões específicas, e contarem com uma empresa patrocinadora, poderiam pedir um visto profissional. A Espanha, com uma taxa de desemprego de 15,5%, adotou um programa semelhante, mas os imigrantes podem recuperar sua residência e os vistos de trabalho após três anos.

O Japão está sob pressão para permitir o retorno e as autoridades disseram que considerarão essa modificação, mas ainda não se comprometeram.

"Naturalmente, nós não queremos que as mesmas pessoas voltem ao Japão após dois meses", disse Kawasaki. "Os contribuintes japoneses perguntariam: 'Que política ridícula é essa?'"

O plano foi um choque para muitos, especialmente após o governo ter apresentado várias medidas nos últimos meses para ajudar os estrangeiros desempregados, incluindo cursos gratuitos de língua japonesa, treinamento vocacional e orientação profissional. Os trabalhadores convidados têm direito a um seguro desemprego limitado, caso tenham pago as contribuições mensais.

"É desconcertante", disse Ângelo Ishi, um professor associado de sociologia da Universidade Musashi, em Tóquio. "O governo japonês já tinha deixado claro que os nipo-brasileiros eram bem-vindos, mas isto é um insulto à comunidade."

Também poderia prejudicar o Japão a longo prazo. O país que está envelhecendo enfrenta uma escassez de mão-de-obra iminente. A população tem encolhido desde 2005, e sua população em idade de trabalho poderá cair em um terço em 2050. Apesar do setor manufatureiro estar demitindo trabalhadores, os setores agrícola e de atendimento aos idosos ainda enfrentam escassez.

Mas Kawasaki disse que a recessão foi uma boa oportunidade para reformar a política de imigração do Japão como um todo.

"Nós temos que parar de permitir a entrada de trabalhadores não qualificados no Japão. Nós temos que assegurar que até mesmo os empregos três-K sejam bem-remunerados e que sejam preenchidos por japoneses", ele disse. "Eu não acho que o Japão deve se tornar uma sociedade multiétnica.

Ele disse que os Estados Unidos foram "um fracasso na frente da imigração" e citou as desigualdades extremas de renda entre os americanos ricos e os imigrantes pobres.

Em uma reunião lotada no prédio da prefeitura em Hamamatsu, imigrantes expressaram descrença de que seriam impedidos de voltar. Membros enfurecidos na platéia se voltaram contra as autoridades. Outros abandonaram a sala de reunião.

"Vocês estão dizendo que mesmo nossos filhos não poderão voltar?" gritou um participante.

"Isso mesmo, eles não poderão voltar", respondeu calmamente uma autoridade local do trabalho, Masahiro Watai.

Cláudio Nishimori, 30 anos, disse que estava considerando voltar ao Brasil porque seus turnos na fábrica de peças eletrônicas foram recentemente reduzidos. Mas que se sentia ansioso em relação a voltar a um país que deixou há tanto tempo.

"Eu moro no Japão há 13 anos. Eu não sei ao certo que emprego posso encontrar quando voltar ao Brasil", ele disse. Mas sua esposa está desempregada desde que foi demitida no ano passado e ele não consegue mais sustentar sua família.

Yamaoka e seu marido, Sérgio, que vieram para cá há três anos no auge do boom de exportação, estão indecisos. Mas ambos perderam seus empregos na indústria automotiva. Outros já decidiram partir. Cerca de 1.000 dos brasileiros que moravam em Hamamatsu deixaram a cidade antes que a ajuda fosse anunciada. A escola primária brasileira da cidade fechou no mês passado.

"Eles nos toleraram enquanto precisavam do nosso trabalho", disse Wellington Shibuya, que chegou há seis anos e perdeu seu emprego em uma fábrica de fogões em outubro. "Mas agora que a economia está ruim, eles nos atiram um pouco de dinheiro e dizem adeus."

Ele pediu recentemente a ajuda do governo para repatriação e deverá partir em junho.

"Nós trabalhamos arduamente, tentamos nos encaixar. Mas eles não perderam tempo em nos chutar para fora", ele disse. "Eu fico feliz por partir de um país como este."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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