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25/04/2009

Com queda de empregos nos países ricos, imigrantes voltam para casa

The New York Times
Rachel Donadio, em Alcala de Henares, Madri e Roma
E Nelson Schwartz, em Paris e Viena
Seis anos após o boom de construção espanhol o ter atraído para Espanha desde seu país natal, a Romênia, Constantin Marius Craiova está voltando para casa, outra vítima da recessão que está revertendo a maré humana que transformou a Europa na última década.

Imigrantes deixam Europa

  • NYT

    Constantin Marius Craiova, que planeja retornar à Romênia no próximo mês, é um dos milhões de imigrantes do Leste Europeu que foi buscar uma vida melhor em países de rápido crescimento e agora quer voltar para casa

  • NYT

    O migrante boliviano Sandro Garnica se despede de duas amigas bolivianas em aeroporto de Madrid, na Espanha. A partida dos imigrantes é um claro sinal da deterioração da economia

"Todo mundo diz que não há trabalho na Romênia", disse Craiova, 30 anos, com um toque de bravata enquanto colocava na cabeça seus óculos Ray-Ban espelhados. "Se há 26 milhões de pessoas lá, elas têm que fazer algo. Eu quero ver pessoalmente."

Craiova, que planeja retornar à Romênia no próximo mês, é um dos milhões de imigrantes do Leste Europeu, América Latina e África que seguiram para locais de rápido crescimento como a Espanha, Irlanda e Reino Unido na última década, atraídos pelo baixo desemprego e políticas de imigração liberais.

Mas em um sinal de quão rapidamente as economias da Europa Ocidental se deterioraram, trabalhadores como Craiova agora estão voltando para casa, na esperança de encontrarem melhores perspectivas de emprego, ou pelo menos um custo de vida mais baixo.

De muitas formas, isto é o que a União Europeia visava ser - uma zona na qual os trabalhadores poderiam se deslocar livremente à procura de emprego. Mas com o aprofundamento da crise econômica, linhas divisórias estão surgindo por todo o continente, onde as fronteiras podem ser porosas mas as identidades nacionais permanecem rígidas.

De fato, apesar de todos os trabalhadores serem teoricamente iguais segundo as leis europeias, alguns podem ser mais iguais do que outros à medida que preocupações nacionais, ou mesmo locais, ganham força.

Considere a capital da Irlanda, que recebeu o apelido de Dublinski após cerca de 180 mil poloneses, tchecos e outros cidadãos do Leste Europeu terem ido para lá à procura de trabalho, depois da expansão da União Europeia em 2004. Agora, um impressionante aumento da taxa de desemprego, atualmente em 10,4%, está fazendo mesmo os recém-chegados repensarem seus planos.

"Desde 2000, houve uma volta da migração intraeuropeia", disse Reiner Muenz, um estudioso de migração que é chefe de pesquisa e desenvolvimento do Erste Bank, em Viena. "Até certo ponto, isto está claramente se desfazendo agora."

Entre abril de 2008 e o fim deste mês, até 50 mil trabalhadores provavelmente terão retornado da Irlanda para casa, a maioria para o Leste Europeu, segundo Alan Barrett, do Instituto de Pesquisa Econômica e Social, em Dublin.

"As coisas mudaram rapidamente", disse Monica Jelinkova, 25 anos, que se mudou da República Tcheca para Dublin há 18 meses. "Eu conhecia 15 pessoas aqui. Agora restam apenas quatro amigos."

Apesar do desemprego também estar aumentando na República Tcheca, "é mais fácil estar em casa com a família e com os amigos quando você não tem emprego", ela disse, "do que estar aqui e desempregada".

Até recentemente, países como Espanha, Irlanda e Itália eram nações de emigrantes, não de imigrantes.

Isso mudou na década de expansão que teve início no final dos anos 90. Na Espanha, onde o crescimento foi o mais explosivo, a população estrangeira cresceu de 750 mil, em 1999, para 5,2 milhões no ano passada, dentre um total de 45 milhões de pessoas, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas. A população da Irlanda, atualmente de 4,1 milhões, também foi transformada, com o percentual de residentes nascidos no exterior saltando de 7%, em 2002, para 11% em 2006.

"Nos Estados Unidos, foram necessárias gerações para tamanho acúmulo de população nascida no exterior", disse Demetrios Papademetriou, chefe do Instituto de Política de Migração, um grupo de pesquisa em Washington. "Estes países fizeram isso em uma taxa sem precedente, mas a sociedade e as instituições ainda nem começaram a ter a chance de se adaptarem às mudanças."

Alcala, uma cidade-dormitório de Madri e local de nascimento de Miguel de Cervantes, é lar de tantos imigrantes romenos - 20 mil segundo algumas estimativas - a ponto do presidente da Romênia, Traian Basescu, ter feito campanha aqui para as eleições parlamentares em outubro.

Mas os sinais de migração reversa de romenos já são evidentes. "Lentamente, lentamente, eles estão desaparecendo", disse Gheorghe Gainar, o presidente da associação cultural romena em Alcala. "Quando você procura por eles, você não os encontra. Às vezes você pergunta a um parente, e eles dizem que eles voltaram para casa."

O êxodo reverso dos países mais prósperos da Europa Ocidental provavelmente aumentará as pressões econômicas que já atingem a Europa Central e Oriental, onde imigrantes de países em desenvolvimento, por sua vez, estão sendo encorajados a partir.

O governo tcheco anunciou em fevereiro que pagaria 500 euros e forneceria passagens aéreas só de ida para cada estrangeiro que perdeu seu emprego e deseja voltar para casa.

E em Bucareste, a capital da Romênia, os trabalhadores chineses estão acampados há dois meses diante da embaixada da China, em meio a um clima gélido, basicamente presos no país após o desaparecimento dos empregos no setor de construção.

Como a República Tcheca, a Espanha está oferecendo incentivos financeiros para a partida. Um novo programa voltado aos imigrantes legais sul-americanos permite que recebam os pagamentos do seguro-desemprego de uma só vez caso concordem em partir e não retornar por pelo menos três anos. O governo espanhol diz que apenas cerca de 3 mil pessoas fizeram uso do plano, mas muitas outras estão deixando o país por conta própria.

As companhias aéreas na Espanha estão oferecendo promoções em passagens só de ida para a América Latina, e dizem que a demanda aumentou significativamente. Todo dia, o Aeroporto de Barajas de Madri é cenário de partidas emocionadas, enquanto as famílias enviam seus entes queridos desempregados de volta para casa.

Cidadãos de países da União Europeia, como Craiova, não têm direito ao plano de incentivo disponível aos imigrantes latino-americanos, mas estão encontrando outras soluções criativas para sua situação difícil.

Como muitos outros romenos que estão deixando a Espanha, Craiova disse que planeja levar o dinheiro do seguro-desemprego que o governo espanhol lhe deve para a Romênia, onde vai durar mais. Ele precisa apenas voltar à Espanha a cada três vezes para recebê-lo. Sua esposa peruana e seus filhos irão para a Romênia assim que ele encontrar trabalho.

Independente de seu destino, muitos imigrantes entendem que as circunstâncias econômicas também estão pressionando a população local.

Em uma recente noite de dia útil, Juan e Miriam Garnica, bolivianos que são moradores legais na Espanha, estavam se despedindo de um primo de Juan, que não encontrou emprego nos campos para permanecer os três anos necessários para estabelecer residência.

O primo, Sandro Garnica, 36 anos, parecia desanimado enquanto segurava duas mochilas e uma nova câmera digital. Mas Miriam Garnica, 35 anos, uma funcionária da prefeitura de Madri, foi filosófica.

"Nós temos um plano B", ela disse. "Pelo menos podemos voltar para casa. Mas e os espanhóis? O que podem fazer?"

Eamon Quinn, em Dublin (Irlanda), e Davin Ellicson, em Bucareste (Romênia), contribuíram com reportagem adicional

Tradução: George El Khouri Andolfato

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