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26/04/2009

Com a multiplicação dos cavalos selvagens, uma voz pede por controle da natalidade

The New York Times
Jim Robbins
Em Hot Springs, Dakota do Sul
Uma antiga controvérsia sobre o que fazer a respeito dos cavalos selvagens dos Estados Unidos voltou novamente a ferver nesta semana.

No ano passado as autoridades federais disseram que tinham tantos cavalos selvagens em cativeiro - cerca de 34 mil e crescendo - que queriam autorização para praticar eutanásia. Alguns Estados estão considerando abatê-los. Cuidar dos animais custa US$ 27 milhões por ano, segundo o Birô de Gestão de Terras, que supervisiona o programa de cavalos selvagens.

Em fevereiro, os deputados Nick J. Rahall, democrata de Virgínia Ocidental, e Raul M. Grijalva, democrata do Arizona, apresentaram uma legislação federal proibindo o abate.

A verdadeira resposta, segundo Jay F. Kirkpatrick, diretor do centro de ciência e conservação sem fins lucrativos do jardim zoológico de Montana, em Billings, é um contraceptivo chamado PZP.

"Há mais de 30 mil cavalos selvagens à solta e estão se reproduzindo", disse Kirkpatrick. "O verdadeiro problema não é o que fazer com o excesso de cavalos, mas sim a reprodução. O que se faz com cães e gatos em excesso? Você os castra e esteriliza."

Kirkpatrick, 69 anos, usa a droga de controle de natalidade zona pelúcida suína, ou PZP, desde 1988 para controlar as populações de cavalos e cervos. Ele tem promovido seu uso para os cavalos selvagens do Oeste junto ao governo federal quase desde então, mas sem sucesso.

Ele tem uma ideia do motivo para não ser amplamente usado. "O problema não é científico, é político e cultural", ele disse. "Nós estamos lidando com a cultura do caubói. Um me disse: 'Nós não podemos fazer isso dessa forma; nós fazemos isso montados a cavalo e com cordas'."

O Birô de Gestão de Terras tem outro ponto de vista. Ele usa o contraceptivo em cerca de 2.200 cavalos, mas diz que a técnica tem limites. "Em sua forma líquida, ele só dura um ano", disse Tom Gorey, um porta-voz do Programa de Cavalos Selvagens e Burros do birô, em Washington. "Nós só reunimos a manada a cada quatro anos, de forma que é um problema."

"Se houvesse uma forma de controlar a natalidade lá fora, nós adoraríamos", acrescentou Gorey.

Os cavalos selvagens, ele disse, estão espalhados por todo o Oeste, e rastreá-los para tratamento anual é impossível. "Nós não somos a Ilha Assateague", ele disse, se referindo ao pequeno refúgio contido para cavalos selvagens em Maryland.

Quando a Ilha Assateague de Maryland se tornou um parque nacional em 1968, havia 28 cavalos. A população cresceu para 166 em 1994, quando o Serviço de Parques Nacionais pediu a Kirkpatrick que iniciasse um programa para redução da fertilidade com PZP. O número de cavalos atingiu o pico de 175 em 2001, mas de lá para cá caiu para 130.

Enquanto outras abordagens para controle da natalidade ou esterilização são hormonais ou químicas, o PZP é um imunocontraceptivo que cria anticorpos que não permitem que o esperma penetre no óvulo.

Em dois dias em março, aqui no privado Santuário do Cavalo Selvagem de Black Hills, Kirkpatrick vacinou 140 cavalos com o contraceptivo, por meio de dardos de uma arma de ar comprimido. A cada disparo o cavalo saltava, como se tivesse sido picado, mas rapidamente voltava a pastar. Uma dose de reforço um mês depois deve impedir 95% das éguas de terem potros ao longo dos próximos anos. Somada a uma taxa de mortalidade de 5%, isso deve impedir o crescimento da manada por meio de reprodução.

Dayton O. Hyde, o proprietário do refúgio daqui, quer limitar a taxa de natalidade para que possa aceitar mais cavalos. "Os dias em que cavalos selvagens podiam correr livremente pelo Oeste acabaram", disse Hyde. "A realidade é que precisamos reduzir o número deles."

Mas Ginger Kathrens, uma documentarista especializada em cavalos selvagens e na defesa deles, acredita que o PZP não deve ser usado em manadas selvagens porque, em alguns cavalos, apenas atrasa o nascimento. "Ele causa nascimentos fora da estação", disse Kathrens.

Apesar de cavalos em um refúgio poderem ser tratados, os cavalos selvagens que dão cria no outono correm risco devido ao tempo mais adverso. "É uma situação que ameaça a vida", ela disse. "É cruel assistir uma mãe tentar cuidar de um potro em uma nevasca. Eles sofrem e alguns morrem."

Vários estudos publicados por Kirkpatrick e outros em publicações de pesquisa da vida selvagem demonstram que o PZP é eficaz em tudo, de alces a cangurus. O PZP também está sendo usado em cervos que lotam áreas urbanas e suburbanas. Em um estudo publicado no ano passado na "Wildlife Research", dois pesquisadores usando PZP em veados no Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, em Gaithersburg, Maryland, escreveram que ao longo de um período de nove anos, o controle da natalidade reduziu os números para quase 60%.

"Nós resolvemos o problema técnico para a questão dos cervos em cidades, subúrbios e parques", disse Allen T. Rutberg, um professor assistente de pesquisa da Escola Cummings de Medicina Veterinária, da Universidade Tufts.

Quentin Kujala, chefe da divisão de gestão da vida selvagem do Departamento de Pesca, Vida Selvagem e Parques de Montana, disse que a agência não usa o PZP por alguns motivos. Um deles é que alguns cervos estão em um sistema "aberto" e têm acesso aos cervos selvagens, o que dificulta saber qual foi tratado e qual não foi. Os cervos em Maryland estão em um sistema fechado.

Também há questões filosóficas. "Também é uma questão de como vemos a vida selvagem", disse Kujala. "Quando é dado a um animal uma droga para controlar a procriação, este não é um passo para transformar o animal selvagem em animal domesticado?"

Ainda assim, alguns dizem que é melhor do que caçar cervos em limites urbanos. Dave Pauli, um diretor regional da Humane Society dos Estados Unidos, disse que o PZP é importante. "É uma ferramenta em um kit", disse Pauli. "Mas ele apenas reduz os cervos, de forma que você ainda precisará de coisas como arbustos à prova de cervos e bolas de tênis para atirar contra eles."

Kirkpatrick e outros produzem eles mesmos o PZP, usando ovários de suínos, em um laboratório no zoológico em Billings. É um processo laborioso e que consome tempo, mas ninguém encontrou uma forma de sintetizá-lo. Ele custa US$ 21 por dose e US$ 2 por dado.

Na Ilha Assateague, Zimmerman estima que custe US$ 35 mil por ano para tratar os cavalos, incluindo o tempo dos funcionários.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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