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27/04/2009

China quer eliminar nomes com caracteres incomuns

The New York Times
Sharon La Franiere*
Em Pequim
"Ma", o ideograma chinês para cavalo, é o 13º sobrenome mais comum na China, compartilhado por quase 17 milhões de pessoas. Isso pode causar uma confusão infinita quando os Ma se reúnem, principalmente se esses Ma também têm o mesmo nome, como acontece com muitos chineses.

O avô de Ma Cheng, que adorava livros, criou uma solução elegante para esse problema tão comum. Há 26 anos, quando sua neta nasceu, ele vasculhou sua biblioteca de dicionários chineses e encontrou um caractere que se pronuncia "cheng". Cheng, que significa "corcéis galopantes", parece muito com o caractere para cavalo, mas é mais condensado e escrito três vezes seguidas.

O caractere é tão raro que quando as pessoas o veem, diz Ma Cheng, costumam se lembrar dela e de seu nome. Esta é uma das razões pela qual ela gosta tanto dele.

É também o motivo pelo qual o governo quer que ela mude seu nome.

Para Ma Cheng e milhões de outras pessoas, o desejo dos pais chineses de dar a seus filhos um pouco de individualidade vai de encontro ao desejo de ordem da burocracia chinesa. Em busca de modernizar sua ampla base de dados com 1,3 bilhão de cidadãos da China, o Departamento de Segurança Pública do governo está substituindo as cédulas de identidade escritas à mão, obrigatórias para todos os chineses, por uma que pode ser lida por computador, com foto colorida e microchip. As novas identidades são mais difíceis de falsificar e podem ser escaneadas em lugares como aeroportos, onde a segurança é uma prioridade.

Os computadores do departamento, entretanto, estão programados para ler apenas 32.252 dos quase 55 mil caracteres chineses, de acordo com um relatório do governo de 2006. O resultado é que Ma e pelo menos cerca de 60 milhões de chineses com caracteres obscuros em seus nomes não podem receber as novas cédulas de identidade - a menos que mudem seus nomes para algo mais comum.

Além disso, a situação deve piorar ou, na visão do governo, melhorar.
Desde pelo menos 2003, a China vem trabalhando numa lista de caracteres padronizada para as pessoas usarem na vida cotidiana, inclusive ao dar nomes para seus filhos.

Um jornal informou na semana passada que a lista seria divulgada no final deste ano e proibiria os nomes diferentes. Um funcionário de linguística do governo disse à agência estatal de notícias Xinhua que a lista incluirá mais de 8 mil caracteres. Apesar de ser bem menos do que a base de dados supostamente inclui hoje, o oficial diz que a seleção é mais do que suficiente para "transmitir um conceito em qualquer assunto". Cerca de 3.500 caracteres fazem parte do uso cotidiano da língua.

Autoridades do governo dizem que os nomes saíram do controle, com muitos pais escolhendo os caracteres mais obscuros que encontram ou até inventando caracteres, como se fossem acessórios lingüísticos de moda.

Mas muitos casais chineses se orgulham de vasculhar os ricos arquivos do chinês clássico para encontrar um nome diferente e agradável, em parte para ajudar seus filhos a se destacarem numa sociedade que tem muito poucos sobrenomes.

De acordo com algumas estimativas, apenas 100 sobrenomes cobrem 85% dos cidadãos chineses. Laobaixing, ou "cem sobrenomes antigos", é um termo coloquial para designar as massas. Em comparação, 70 mil sobrenomes cobrem 90% da população norte-americana.

O número de sobrenomes chineses em uso foi diminuindo conforme a população da China crescia, numa seleção de sobrenomes que aconteceu em muitas culturas com o tempo.

Na última contagem, os Wang lideravam na China com mais de 92 milhões, seguidos por 91 milhões de Li e 86 milhões de Zhang. Para se referir a uma pessoa estranha - o equivalente a um "fulano" em português - há um ditado chinês que pode ser traduzido como "algum Zhang, algum Li".

O potencial para confusões é vasto. Há tantos chineses chamados Zhang Wei que quase seriam suficientes para povoar a cidade de Pittsburgh.
Os apelidos são dados com liberdade nas salas de aula e locais de trabalho, para distinguir as pessoas. Ao se deparar com três alunos chamados Liu Fang, por exemplo, um professor de ensino médio os apelidou Grande, Pequeno e Médio.

Wang Daliang, linguista da Universidade Jovem da China de Ciências Políticas, disse que escolher caracteres raros para o primeiro nome só aumenta o problema e as inconveniências para todos. "Usar nomes obscuros para evitar a duplicação de nomes ou para ser único não é bom", respondeu por e-mail.

"Hoje muitas pessoas estão confusas com seus nomes", diz ele. O computador não consegue reconhecê-los e as pessoas não sabem lê-los.
Isso se tornou um obstáculo à comunicação.

Mas o professor Zhou Youyong, reitor da faculdade de direito da Universidade do Sudeste, disse que o governo deveria ser cuidadoso ao sancionar a nova norma. "Dar nome aos filhos é um direito básico dos cidadãos", diz ele.

Ma diz que apesar de seu primeiro nome ser incomum, os funcionários de banco, da alfândega e agentes de viagens sempre conseguiram lidar com isso, normalmente escrevendo-o à mão. Mas quando ela tentou renovar sua carteira de identidade em agosto passado, os oficiais do serviço de segurança de Pequim a rejeitaram secamente. "Seu nome é complicado e problemático", ela se lembra de o funcionário dizer. "Simplesmente, mude-o".

Ma defende que a tecnologia do governo deve se adaptar, e não ela.

"Não havia esse tipo de normas quando eu nasci, então eu deveria ter o direito de manter o meu nome por toda minha vida", diz. Se ela mudar o nome para conseguir uma identidade, acrescentou, ele ficaria errado em todos os seus outros documentos, como seu passaporte e diploma universitário.

Além disso, diz ela, "não consigo pensar em nenhum nome melhor".

Usando o consagrado "jeitinho" chinês de conexões de bastidores, Ma conseguiu em janeiro uma identidade temporária. Ela precisa renová-la a cada três meses, mas considera isso um sacrifício pequeno para manter seu nome.

Zhao C., um estudante universitário de 23 anos, desistiu da luta por seu nome. Seu pai, que é advogado, escolheu a letra C. do alfabeto inglês, dizendo que era simples, fácil de lembrar e é a primeira letra do nome do país.

Quando não conseguiu uma nova identidade em 2006, Zhao C. entrou com um processo. Mas as autoridades de segurança o convenceram que alterar a base de dados custaria milhões de dólares, disse seu pai, então ele retirou o processo em fevereiro.

O caso dele pode sugerir que a resistência contra a poderosa burocracia chinesa é inútil. Ainda assim, o plano do governo de limitar o uso de caracteres encontra empecilhos.

As novas regras deveriam ter sido originalmente sancionadas em 2005.
Hoje, 70 revisões mais tarde, elas ainda precisam ser aplicadas.

Um funcionário recusou-se a responder perguntas esta semana, dizendo que a publicidade pode atrasar ainda mais as novas regras.

Tradução: Eloise De Vylder

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