UOL Notícias Internacional
 

27/04/2009

Com a chegada das eleições, dinheiro flui no Líbano

The New York Times
Robert F. Worth
Em Beirute (Líbano)
É temporada de eleição no Líbano, e Hussein H., um desempregado de 24 anos do sul de Beirute, está ansioso para vender seu voto para quem fizer a melhor oferta.

"Quem pagar mais leva meu voto", diz ele. "Não vou aceitar menos de $ 800."

Ele pode conseguir mais que isso. As eleições parlamentares que acontecerão em junho já dão indícios de serem as mais caras que já aconteceram em qualquer lugar, com centenas de milhões de dólares vindos do mundo inteiro invadindo este pequeno país.

Há tempos o Líbano é visto como um campo de batalha pela influência regional, e agora, sem exércitos estrangeiros no local, a Arábia Saudita e outros países da região estão munindo seus aliados no país com dinheiro de campanha ao invés de armas. O resultado é uma disputa vista por muitos como a mais livre e competitiva que já aconteceu aqui em décadas, com uma participação recorde de candidatos. Mas que também pode ser a eleição mais corrupta.

Os votos são comprados com dinheiro ou serviços. Os candidatos pagam grandes somas para seus adversários desistirem da disputa. O preço da cobertura noticiosa favorável na televisão está aumentando, e milhares de libaneses expatriados voltaram para casa, de graça, para votar nos distritos mais disputados. Os pagamentos, de acordo com os leitores, fiscais eleitorais e vários candidatos antigos e atuais entrevistados pela reportagem, alimentam o profundo cinismo popular em relação à política no Líbano, que em tese é provavelmente o Estado mais democrático do mundo árabe, mas que, na prática, é em grande parte governado pela patronagem, sectarismo e lealdade aos clãs.

Apesar das grandes somas gastas, muitos libaneses consideram praticamente irrelevante a disputa que coloca o Hizbollah e seus aliados contra uma coalizão rebelde de grupos políticos mais alinhados com o Ocidente. A estrutura política sectária do Líbano praticamente garante a continuação do atual governo de "unidade nacional", no qual a coalizão vencedora no parlamento de 128 cadeiras dá ao perdedor o poder de voto para preservar a paz civil.

Ainda assim, uma vitória apertada do Hizbollah e seus aliados, hoje na oposição do parlamento, seria vista como uma vitória para o Irã - que financia o Hizbollah há décadas - e como um golpe para os aliados americanos na região, especialmente para a Arábia Saudita e o Egito.
Portanto, o dinheiro flui.

"Estamos investindo muito nisso", diz um conselheiro do governo saudita, que acrescentou que só a contribuição saudita deveria atingir centenas de milhões de dólares num país de apenas 4 milhões de pessoas. "Estamos apoiando os candidatos que concorrem contra o Hizbollah, e vamos fazer o Irã sentir essa pressão".

De fato, esta é a primeira vez que o Líbano tem limites para os gastos de campanha, e o primeiro sistema de monitoramento de gastos do mundo árabe, de acordo com a lei de Transparência Internacional do Líbano. Mas os limites - que para começar são muito flexíveis - valem apenas nos últimos dois meses de campanha. E, de acordo com fiscais eleitorais e autoridades libanesas, eles são ridiculamente fáceis de burlar.

Os reformistas tentaram sem sucesso introduzir uma cédula nacional única, que poderia reduzir a influência do dinheiro e tornar o sistema menos vulnerável à fraude. Hoje, os partidos ou coalizões políticas normalmente imprimem suas próprias cédulas e as entregam aos eleitores antes que eles entrem na cabine, assegurando-se mais facilmente de conseguir os votos pelos quais pagaram.

Alguns eleitores, principalmente nos distritos mais competitivos, recebem ligações oferecendo dinheiro por seus votos. Mas a pressão política funciona principalmente através dos patriarcas locais conhecidos como "chaves eleitorais", que conseguem entregar os votos de todo um clã em troca de dinheiro ou serviços - bolsas de estudos, um novo hospital, estradas recapeadas e assim por diante.

Em um país em que um professor de escola pública ganha menos do que US$ 700 por mês, esses pagamentos são uma fonte significativa de apoio para muitas comunidades. E como as vagas no parlamento libanês são designadas de acordo com as seitas religiosas, as eleições tendem a reforçar a estrutura de poder essencialmente feudal do Líbano, com uma rede de chefes de famílias conhecidas representando cada seita e região.

Todos os principais grupos políticos negam a compra de votos, que é ilegal de acordo com a lei libanesa, mas os fiscais eleitorais reconhecem que trata-se de uma prática de rotina. "Desde os anos 90, mais dinheiro tem entrado no processo", diz Paul Salem, diretor do Centro Carnegie para o Oriente Médio em Beirute. "Infelizmente, o sistema se ajusta a isso e de certa forma espera por isso, principalmente os pobres".

De fato, muitos libaneses mais pobres esperam pelas eleições como uma espécie de Natal, quando o dinheiro, os vales-saúde, refeições outras doações são abundantes.

A benevolência se estende por todo o globo. Desde o Brasil até a Austrália, milhares de expatriados recebem viagens de avião gratuitas para voltar para casa e votar. Saad Hariri, o líder bilionário da maioria atual do parlamento e aliado saudita, tem a reputação de ter os maiores gastos eleitorais. O fato de ter iniciado sua campanha com um espalhafatoso evento televisivo que lembrava o cenário do programa "Quem quer ser um Milionário" pode não ter ajudado. Mas os membros de seu movimento dizem que a acusação é injusta, e que seu próprio dinheiro é superado pelas centenas de milhões de dólares que o Irã deu ao Hizbollah ao longo dos anos.

Os candidatos e partidos políticos normalmente não admitem que recebem dinheiro do exterior.

Um deles, entretanto, quebrou a regra recentemente ao reconhecer isso abertamente. Ahmed al-Asaad, 46, disse que o governo da Arábia Saudita era "uma fonte significativa de apoio" para sua campanha contra o Hizbollah no sul do Líbano. Ele disse que seu objetivo era colocar os xiitas do Líbano longe do Irã.

"Preciso de armas para lutar contra, e se os sauditas têm interesse em construir um Estado aqui, por que eu não deveria tirar vantagem disso?", disse Asaad, um empresário educado nos Estados Unidos, durante uma entrevista em seu escritório nos arredores de Beirute.

Os candidatos que não se aliam com uma máquina eleitoral poderosa são praticamente desconhecidos por aqui.

Walid Maalouf, um banqueiro que trabalhou por pouco tempo como diplomata enquanto morou nos Estados Unidos, faz uma campanha independente com um orçamento apertado, viajando de cidade em cidade em seu distrito nas montanhas. Segundo ele, a maioria das pessoas nos vilarejos diz que ele é o único político que se dá ao trabalho de visitá-los. Eles ficam agradecidos, mas ele não oferece dinheiro ou patronagem, e os eleitores não sabem ao certo o que pensar dele.

Recentemente, Maalouf tentava explicar a um líder local que eles deveriam pensar nos candidatos como empregados, e não como patrões - como alguém que eles iriam contratar para representá-los efetivamente no governo.

"Ele olhou para mim", lembra-se Maalouf, "e disse: 'Volte para os Estados Unidos'".


Hwaida Saad contribuiu com a reportagem em Beirute.

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h09

    -0,80
    3,132
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h14

    1,08
    64.447,24
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host