UOL Notícias Internacional
 

27/04/2009

Novos suportes digitais para livros lançam dúvida sobre o futuro do mundo editorial

The New York Times
Por Joanne Kaufman
Sara Nelson, ex-editora da Publishers Weekly, estava recentemente num jantar, quando o consultor de campanhas republicano Ed Rollins chegou carregando um Kindle [recente suporte digital para livros e jornais].

"E eu disse simplesmente: 'posso ver?'", conta Sara, autora de "So Many Books, So Little Time" [tantos livros, tão pouco tempo", em tradução livre]. "Nesse período de lua de mel do Kindle - quando muitas pessoas ainda não os têm - você pode ver o que alguém está lendo, sob pretexto de conhecer o hardware". (Só para constar, o Kindle de Rollins estava cheio com os jornais do dia.)

Suporte digital para livros e jornais

  • Michael Appleton/New York Times

    O mundo editorial está tomado por sérias dúvidas em relação ao Kindle e outros aparelhos do tipo. Será que eles irão ajudar ou prejudicar as vendas de livros e o pagamento dos autores? Irão estimular ou canibalizar o setor?

Nelson tem um Kindle e um Sony Reader. E para ela, ser dona de um leitor eletrônico de livros, embora não seja necessariamente um distintivo de honra literária, demonstra pelo menos um compromisso com os livros.

"É muito caro", diz ela sobre o Kindle 2, que a Amazon vende por US$ 359 (R$ 790). "Se você decide pagar por isso, está afirmando para o mundo inteiro que gosta de ler - e você provavelmente não o usa para ler um best-seller qualquer".

Mas para outros escritores e editores, o Kindle é a mais recente má ideia que virou moda. A escritora Anne Fadiman ficou aliviada ao saber que sua coleção de ensaios "Ex Libris" não estava disponível para o Kindle. "Seria muito irônico se estivesse", diz ela sobre o livro, que fala sobre sua paixão permanente por livros enquanto objetos.

"Há um pequeno link no site da Amazon que diz: 'Diga ao editor que eu gostaria de ler este livro no Kindle'", diz ela. "Espero que ninguém diga nada ao editor".

O mundo editorial está tomado por sérias dúvidas em relação ao Kindle e outros aparelhos do tipo. Será que eles irão ajudar ou prejudicar as vendas de livros e o pagamento dos autores? Irão estimular ou canibalizar o setor?

Mas, convenhamos, eles estão deixando de lado a questão mais importante: como o Kindle afetará o esnobismo literário? Se você tem 1.500 livros em seu Kindle - essa é a quantidade que ele suporta - isso o torna mais ou menos bibliófilo do que se tivesse os mesmos 1.500 livros expostos numa estante? (Para o bem da argumentação, vamos assumir que você de fato tenha lido alguns deles.)

O hábito de julgar as pessoas pelas capas dos livros é antigo e consagrado. E o Kindle, que se parece um pouco com uma calculadora branca gigante, é o equivalente tecnológico de um embrulho em papel pardo. Se as pessoas se desfizerem de suas coleções de livros ou pararem de comprar novos volumes, será cada vez mais difícil dar opiniões a respeito delas apenas perambulando por suas salas de estar.

"Eu sempre noto quantos livros há na estante, e quais são os livros", diz Ammon Shea, que passou um ano lendo o Dicionário de Inglês Oxford inteiro e publicou um livro sobre ele. "Esta é a versão pseudo-intelectual de xeretar o armário de remédios de alguém."

É uma aposta segura dizer que é improvável que o Kindle atraia as pessoas que raramente abrem um livro ou aquelas que, no outro extremo, perambulam por feiras de antiguidades procurando primeiras edições.

Mas para o propósito de julgar uma pessoa estranha à distância, o maior problema do Kindle e semelhantes talvez seja o fator camuflagem.

Quando ninguém consegue saber o que você está lendo, como você pode deixar claro que está debruçado sobre a nova biografia de Lincoln e não, digamos, sobre um livro como "Ele Simplesmente Não Está a Fim de Você'.

"Será que perdemos todas as maravilhas de ver um livro real?", diz Kurt Andersen, escritor e apresentador do programa de rádio "Studio 360". "Com certeza. Mas eu não acho que isso seja o fim do mundo. Pelo menos as pessoas ainda pagam 10 dólares pelo livro". (A maioria dos livros para Kindle custam US$ 9,99, cerca de R$ 21, na Amazon.com).

Andersen tem orgulho de viver numa casa com dois Kindle. "É bom e justo dar às pessoas um jeito novo e diferente de ler livros", declarou.

Para alguns editores e amantes de livros, há uma coleção de motivos para desaprovar o Kindle. As editoras não sentirão mais o impacto que acontece quando um viajante vê alguém lendo, digamos, o último livro de James Patterson e diz para si mesmo: "Eu estava pensando em ler esse livro. Acho que vou comprá-lo na Hudson News antes de subir no trem".

Benefícios do livro em papel

  • Richard Perry/New York Times

    Para alguns editores e amantes de livros, há uma coleção de motivos para desaprovar o Kindle. As editoras não sentirão mais o impacto que acontece quando um viajante vê alguém lendo, digamos, o último livro de James Patterson e diz para si mesmo: "Eu estava pensando em ler esse livro"

E à medida que os livros saem do papel, será o fim das cantadas no estilo: "Ah, vejo que você está lendo o último (preencha aqui o nome de um autor consagrado)".

Michael Silverblatt, âncora do programa de radio semanal "Bookworm" [algo como "Rato de Biblioteca"], usa o termo "desejo literário" para descrever a atração que surge ao ver um estranho lendo seu livro ou autor favorito. "Quando eu era adolescente e via alguém lendo um livro que eu amava, enquanto esperava na fila para ver um filme no Museu de Arte Moderna, começava a ter fantasias a respeito de ser o melhor amigo ou amante daquela pessoa", diz.

David Rosenthal, o vice-presidente executivo e editor da Simon & Schuster, lembra-se da chegada dos livros Vintage, uma linha de ficção literária que "cabia exatamente no bolso de sua calça Levi's com o título para fora, e fazia propaganda do tipo de intelectual que você era".

Ele usa um Sony Reader para manuscritos "porque é mais fácil do que carregá-los para casa", mas não lê livros por prazer no aparelho. "Com certeza é conveniente, mas eu ainda não consegui ler um livro já publicado nele", diz Rosenthal. "Para mim, parece estranho ter uma tabuleta de metal em vez de um livro".

Ellen Feldman, escritora de ficção, se preocupa com o que acontecerá com a identificação sagrada que existe entre os amantes de livros se o Kindle se tornar onipresente. Um dia, ela almoçava num restaurante no Upper East Side quando viu o homem da mesa ao lado lendo "Poemas Reunidos de Emily Dickinson".

"Comecei a especular sobre ele", diz Feldman, cujos títulos incluem "Scottsboro" e "The Boy Who Loved Anne Frank". "Eu tive todas essas fantasias - fiquei tentando lembrar se havia uma faculdade nos arredores e fiquei imaginando se ele era um professor".

Nicholson Baker, que escreve livros de ficção e não-ficção, tem um sentimento parecido, embora ainda defina a si mesmo pelo conteúdo de sua biblioteca física. Há alguns anos, ele se apresentou no primeiro dia de trabalho temporário carregando um exemplar de "Ulysses". "Eu queria que as pessoas soubessem que eu não era simplesmente um trabalhador temporário", diz ele, "mas um temporário que lia 'Ulysses'".

Hoje em dia, ele se diz emocionado quando as pessoas lêem seus livros. "Não importa como elas leem".

Dado o estado financeiro lastimável do setor de livros, a maioria dos autores pode estar disposta a deixar de lado quaisquer preconceitos.

Chris Clave, novelista que escreve uma coluna para o jornal The Guardian, diz isso de forma direta. "Adoro meus leitores e quero que eles leiam minhas coisas", diz ele. "Eu escreveria à mão para eles se fosse necessário."

Tradução: Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,97
    3,127
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,99
    64.389,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host