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29/04/2009

Estados Unidos combaterão produção de ópio para conter Taleban

The New York Times
Dexter Filkins
Em Zangabad (Afeganistão)
Os comandantes norte-americanos pretendem cortar a principal fonte financeira do Taleban, a multimilionária produção de ópio - um derivado da papoula - do país, enviando milhares de soldados às três províncias que financiam grande parte das operações do grupo.

O plano para o envio de 20 mil fuzileiros navais e soldados do exército para as províncias de Helmand, Kandahar e Zabul neste verão promete semanas e talvez meses de pesados combates, já que as autoridades norte-americanas acreditam que o Taleban defenderá vigorosamente aquilo que funciona como o motor econômico da insurgência. As tropas adicionais, o fator fundamental da tentativa do presidente Barack Obama de reverter o curso desta guerra que já dura sete anos, praticamente dobrará o número de soldados que já se encontram aqui, e que acredita-se que não conseguem dar mais conta da tarefa.

Por meio de extorsão e taxação, o Taleban obteria até US$ 300 milhões anualmente com o comércio de ópio do Afeganistão, que atualmente representa 90% das transações comerciais do país. Segundo os norte-americanos, isto é o suficiente para sustentar todas as operações militares do Taleban no sul do Afeganistão durante um ano inteiro. "O ópio é o motor econômico deles", afirma o general John Nicholson, vice-comandante das forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no sul do Afeganistão. "É por isso que acreditamos que eles lutarão por essas áreas".

Os norte-americanos dizem que o seu principal objetivo neste verão será proporcionar segurança à população afegã, e, desta maneira, isolar os insurgentes.

Mas, como o ópio é comercializado em áreas densamente habitadas, e ainda devido ao fato de o Taleban estar espalhado em meio à população, os norte-americanos dizem que, para ter sucesso, precisarão romper o controle do grupo sobre o cultivo da papoula.

Ninguém aqui acredita que essa será uma tarefa fácil.

Na última segunda-feira, após passarem apenas dez minutos na pequena aldeia de Zangabad, que fica 32 quilômetros ao sul de Kandahar, os soldados norte-americanos depararam-se com um campo de papoulas plenamente florido. Combatentes talebans abriram fogo de três lados.

"Do norte!", um dos soldados gritou, girando e atirando.

"Oeste!", gritou um outro, também girando e atirando.

Uma hora se passou e milhares de balas cortaram o ar. A munição diminuía. O Taleban fechava o certo.

Foi então que as aeronaves de combate chegaram, sobrevoando o local, despejando os cartuchos deflagrados sobre os soldados lá embaixo, os seus foguetes cintilando e destruindo. Atrás da barragem de artilharia, os soldados abriram caminho a tiros para fora de Zangabad e buscaram cobertura em um parreiral.

"Quando é que vocês lançarão a bomba?", perguntou pelo rádio o capitão Chris Brawley, tendo ao fundo o ruído dos disparos de metralhadora. "Estou em um parreiral".

A bomba foi lançada, e o tiroteio cessou.

O tiroteio foi uma amostra do que será o verão dos norte-americanos no sul do Afeganistão. Segundo a opinião dos especialistas, será um verão sangrento.

Como bons guerrilheiros, os combatentes talebans muitas vezes desaparecem ao serem confrontados por um exército convencional. Mas, no Afeganistão, conforme fizeram em Zangabad, o Taleban provavelmente não recuará, e lutará.

O Taleban também obtém dinheiro com o comércio do ópio ao cobrar dos fazendeiros taxas de proteção. Se os norte-americanos e britânicos atacarem, acredita-se que o Taleban cumprirá a sua parte do acordo.

De fato, combatentes talebans passaram a resistir a qualquer iniciativa dos norte-americanos e britânicos no sentido de deslocarem-se para as áreas nas quais a papoula é cultivada e o ópio produzido. No mês passado, um contingente de fuzileiros navais britânicos deslocou-se para um distrito chamado Nad Ali, na província de Helmand, o centro do cultivo da papoula no país. O Taleban estava esperando. Em uma batalha de cinco dias, os britânicos mataram 120 guerreiros talebans e feriram 150. Apenas um soldado britânico foi ferido.

Segundo as autoridades norte-americanas, atualmente o comércio de ópio representa quase 60% do produto interno bruto do Afeganistão. Muitos dos novos soldados norte-americanos atuarão na área vasta e em grande parte desguarnecida ao longo da fronteira de 880 quilômetros com o Paquistão. Entre eles haverá soldados que usarão o Stryker, um veículo blindado relativamente rápido e leve, capaz de cruzar as extensas áreas adjacentes à fronteira.

O novo contingente deverá estar no local, em sua totalidade, até 20 de agosto, a fim de proporcionar segurança para a eleição presidencial do Afeganistão.

A presença de papoulas e do ópio aqui gerou uma grande dose de incerteza em relação à guerra. Segundo as regras de combate da Otan, as forças estadunidenses ou de outros países não podem atacar alvos ou indivíduos vinculados apenas à produção de narcóticos. Tais indivíduos não são considerados combatentes.

Mas as forças dos Estados Unidos e de outras nações têm permissão para atacar narcotraficantes ou instalações que auxiliem o Taleban. Em uma entrevista, Nicholson disse que a produção de ópio e o Taleban encontram-se frequentemente tão entrelaçados que as regas geralmente não inibem as operações norte-americanas.

"Muitas vezes encontramos um complexo dentro do qual há, lado a lado, ópio e material para a confecção de dispositivos explosivos improvisados (IEDs), ou ópio, materiais explosivos e armas", diz Nicholson. "O mais frequente é nos depararmos com tal tipo de situação".

Mas a perspectiva de combate em áreas populosas poderia provocar a revolta ainda maior da população afegã. Durante o tiroteio em Zangabad, os norte-americanos cobriram a sua retirada com uma barragem de vinte projéteis de artilharia de 155 milímetros altamente explosivos - necessários para protegê-los do Taleban, mas também suficientes para infligir sérios danos a pessoas e propriedades. Um morador local que foi entrevistado por telefone após a luta disse que quatro casas foram destruídas pelos disparos de artilharia.

Além disso, há o problema de afastar os camponeses da atividade de cultivo da papoula - uma tarefa que mostrou-se impossível em vários países, como a Colômbia, onde o governo norte-americano tentou acabar com a produção de papoulas. Esta é, de longe, a cultura mais lucrativa na qual um agricultor afegão pode se engajar. Além do mais, os traficantes de ópio do país geralmente oferecem incentivos que nenhuma autoridade governamental afegã é capaz de fornecer: eles podem garantir ao agricultor um preço mínimo pela produção, bem como o transporte da safra para o mercado, apesar do estado pavoroso da maioria das estradas afegãs.

"As pessoas não gostam de cultivar papoulas, mas elas estão desesperadas", disse no início deste mês, a um grupo de visitantes, o governador da província de Zabul, Mohammed Ashraf Nasery.

Para proporcionar uma alternativa ao cultivo da papoula, as forças armadas dos Estados Unidos estão destinando US$ 250 milhões para projetos agrícolas como a melhoria do sistema de irrigação e de cultivo de trigo. Nicholson diz que também está sendo elaborado um plano no valor de US$ 200 milhões para melhoria da infraestrutura, destinados em grande parte para as estradas necessárias para o transporte da produção até o mercado.

Segundo Nicholson, a ideia é tentar restaurar a economia agrícola que prosperava no Afeganistão na década de 1970. Ele acredita que isto, mais do que a força militar, derrotará o Taleban.

"Acreditamos que podemos neutralizar uma parcela significativa do inimigo com incentivos", diz o general. "Podemos empregar muitos desses jovens, afastando-os desta forma dos quadros do Taleban".

Ainda que os norte-americanos sejam capazes de reduzir a produção de ópio, a redução da oferta poderá inflacionar os preços da droga, o que acabaria afetando pouco os lucros do Taleban.

A batalha em Zangabad indica as dificuldades que há pela frente. O terreno é um sonho para a guerrilha. Além de alqueires cultivados com pés de papoula que chegam à altura dos ombros, há inúmeras fileiras de muros de terra bastante rígidos, utilizados para elevar as videiras. Isso proporciona locais ideais para emboscadas e defesa.

Mas o mais complicado será obter o apoio dos afegãos. O Taleban está radicado nas aldeias e vales ao longo de rios no sul do Afeganistão. Os moradores locais, que foram pegos entre dois inimigos, parecem estar esperando para ver qual dos dois prevalecerá.

A caminho de Zangabad, os soldados pararam em um campo de trigo para falar com um agricultor local. O nome dele era Ahmetullah. Os norte-americanos falaram por meio de um intérprete do idioma pashtu.

"Estou muito feliz em vê-los", disse o agricultor aos norte-americanos.

"Realmente?", perguntou um dos soldados.

"Sim", respondeu o agricultor.

O tradutor suspirou e falou em inglês: "Ele é um mentiroso".

Tradução: UOL

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