UOL Notícias Internacional
 

30/04/2009

Milão despojada

The New York Times
Alice Rawsthorn
Em Milão (Itália)
Apesar do pessimismo econômico, Milão parecia tão frenética como de costume durante a feira de móveis realizada aqui na semana passada. Os hotéis estavam lotados, apesar das diárias exorbitantes, os táxis eram raros (táxis vazios, pelo menos) e as ruas estavam congestionadas. Ocorreram centenas de festas, incluindo uma toda noite na loja matriz da Skitsch, uma nova empresa italiana de móveis.

Por trás da bravata, alguns fabricantes cortam custos lançando menos produtos do que o habitual, e os designers trocavam histórias tristes de projetos cancelados e encolhimento dos royalties. O número de pessoas que visitaram o Salone del Mobile, que ocorreu de 22 a 27 de abril no labiríntico complexo Rho-Pero, caiu do recorde do ano passado de 348.452 para 304.702, segundo a organizadora, a Cosmit.

Havia também uma consciência desconfortável de que as decisões de investimento para aprovação dos novos produtos e empreendimentos desta temporada, como a Skitsch, foram tomadas há mais de um ano, quando as perspectivas do setor eram muito diferentes.

"O mercado está obviamente mais difícil agora", disse Alasdhair Willis, presidente-executivo da empresa de móveis britânica Established & Sons. "Mas só veremos o efeito pleno da recessão sobre a feira a partir do próximo ano."

As empresas mais jovens, como a Established & Sons, que tem cinco anos, ainda podem crescer, mesmo que mais lentamente, expandindo para novos países. As principais baixas da crise econômica são os fabricantes europeus maiores e há muito estabelecidos, cujas vendas caíram. Mas estas empresas já enfrentaram recessões antes. Algumas têm a vantagem de serem de capital fechado, portanto livres da pressão de investidores externos.

"A propriedade familiar é uma grande força, especialmente em um momento difícil como este", observou Rolf Fehlbaum, presidente da Vitra, um grupo de móveis suíço fundado por seu pai em 1950. "É preciso paixão, compromisso e loucura."

Mas a tempestade econômica também agravou os problemas de longo prazo dos fabricantes europeus com a forte concorrência da China, e seu próprio fracasso em atender a exigência dos consumidores de produtos sustentáveis. As imagens mais deprimentes em Milão na semana passada eram a das aparentemente incontáveis "eco-instalações", geralmente contando com música New Age delicada e árvores animadas digitalmente, aparentemente com inclinação de devorar tanta energia quanto inutilmente possível.

Dito isso, havia algumas gemas presentes entre os estandes da feira. Entre os sucessos técnicos estavam a Vegetal, uma cadeira de plástico complexamente moldada pelos irmãos Ronan e Erwan Bouroullec para a Vitra, e a coleção de móveis de escritório 360º de Konstantin Grcic para a Magis, outra inovação em plásticos avançados. Igualmente geniais eram as luzes de Paul Cocksedge para a Flos, uma delas ligada ao colocar uma flor em um vaso e desligada quando a flor é retirada, e a ecológica série 10-Unit de móveis desenhados por Shigeru Ban para a Artek, feitos de peças idênticas em forma de L de material composto reciclado.

Vários fabricantes responderam à crise com coisas que esperam que vão interessar às pessoas e elas usarão por mais tempo, porque foram cuidadosamente projetadas e fabricadas.

Este foi o tema de uma exposição discretamente elegante da escola holandesa Design Academy Eindhoven, que exibiu produtos que visavam encorajar o desfrute dos rituais do dia a dia, como uma série de sabões líquidos e sólidos visando tornar a lavagem mais agradável. (A exposição foi a estréia de Alexander van Slobbe, um estilista de moda holandês, como diretor artístico da Eindhoven; ele tem a tarefa ingrata de suceder o formidável Li Edelkoort, que a estabeleceu como a escola de design mais dinâmica e influente do mundo.)

Algumas empresas colocam a teoria da "consideração" em prática. A fabricante de cerâmica holandesa de 400 anos, Royal Tichelaar Makkum, exibiu o talento de seus trabalhadores nos fogões revestidos de Dick van Hoff, assim como a fabricantes de vidro veneziana Venini, nos belos vasos Lanterne Marine de BarberOsgerby.

Outros exemplos foram a abordagem digital da Amsterdam Armoire, Scholten & Baijings ao antigo armário holandês com decoração pintada em tela, e a lindamente contida e improvavelmente estreita cadeira Iri do jovem designer italiano Paolo Cappello, o astro em ascensão da feira neste ano. Saído há poucos anos da escola de design, ele também mostrou uma mesa, em estilo tão purista quanto a cadeira, pela qual ganhou um prêmio da "Abitare", a revista italiana de design.

Outro tema foi a funcionalidade, uma variação dura do estilo sobrevivencialista distópico que surgiu em Milão no ano passado. Este assumiu a forma de composições espaçadas de formas regulares feitas de materiais brutos em cores ousadamente contrastantes e refletindo a influência de Grcic e do conceitualista holandês Jurgen Bey.

Estas qualidades eram visíveis na obra de Nacho Carbonell, Peter Marigold e Raw Edges na instalação "Craft Punk" da Design Miami, assim como nas cadeiras de madeira Standard Unique de Maarten Baas, talhadas de forma rudimentar para a Established & Sons, e as mesas circulares que Martino Gamper fez a partir de pedaços recuperados de armários laminados de hotel, originalmente desenhados por Gio Ponti em 1960, para a galeria Nilufar.

Independente do que vier a acontecer à economia, o futuro do design supostamente está não na reinvenção de velhos estilos ou no sonhar de novos, mas na exploração da tecnologia para desenvolver soluções para os problemas do mundo. Um grupo de fabricantes japoneses encarou o desafio ao convidar os designers a inventarem aplicações práticas para suas nanofibras recém-desenvolvidas - algumas com 1/7.500 da espessura do cabelo humano- e exibindo os resultados em uma exposição no La Triennale di Milano, um museu de design.

Dos "robôs faxineiros", que esfregam o piso como minúsculas nuvens e o limpam após detectar sujeira com seus sensores, a um sofá que muda de forma ao toque de um controle remoto, os resultados eram pragmáticos e otimistas, oferecendo um vislumbre estimulante de um futuro no qual o design ajudará a melhorar nossas vidas - felizmente sem uma nota de música New Age delicada.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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