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01/05/2009

As credenciais preferidas dos extremistas? Sites de combate ao terrorismo

The New York Times
Robert F. Worth
Em Beirute (Líbano)
Ele é mentor de alguns dos terroristas mais brutais do planeta. Contudo, Abu Muhammad Al Maqdisi, clérigo proeminente e teórico da jihad que mora na Jordânia, cansou-se de ouvir jovens extremistas acusarem-no de ter amolecido.

Então, em recente publicação na internet para seus seguidores, Maqdisi defendeu suas credenciais de radical invocando uma autoridade ainda maior: o Centro de Combate ao Terrorismo de West Point.

"Deve-se dar crédito ao testemunho dos inimigos", escreveu Maqdisi, enquanto apontava para seus leitores um recente artigo de jornal por Joas Wagemakers, acadêmico holandês sobre o jihadismo e o "Atlas de Ideologia Militante", ambos publicados pelo centro. Os dois identificam Maqdisi como teórico jihadista influente e perigoso, observou.

Além desses, há dois artigos de colunistas árabes liberais, acrescentou orgulhosamente o clérigo, inclusive um que se referiu a ele como "xeque da violência" e "cabeça da cobra".

Não é novidade os extremistas islâmicos citarem relatórios ocidentais de combate ao terrorismo. Ayman Al Zawahri, vice de Osama Bin Laden, referiu-se ao menos duas vezes em suas declarações gravadas ao artigo de 2004 também publicado pelo centro chamado "Roubo do Livro de Regulamentos da Al Qaeda".

Entretanto, recentemente, Maqdisi elevou esse fenômeno de espelhamento para um novo nível, reclamando amargamente que os analistas seculares ocidentais em geral o entendem melhor do que muitos em sua própria comunidade.

"Fico surpreso com o baixo nível do pensamento", escreveu Maqdisi de seus críticos, "e como os inimigos da religião nos leem e compreendem melhor do que eles".

A reclamação é um testemunho de uma comunidade crescente de observadores ocidentais da jihad, uma turma obsessiva e multilíngue que monitora e debate cada nova declaração terrorista na internet como acadêmicos do Talmud destrinchando um manuscrito. Ela também ilustra a fragmentação da autoridade dentro do movimento jihadista global, no qual até figuras proeminentes como Maqdisi são vulneráveis a críticos mais jovens que se sentem livres para interpretar o chamado a jihad e o Alcorão em geral como quiserem.

Para os analistas ocidentais, ser citado com aprovação por uma figura da Al Qaeda pode ser desconcertante.

"Inevitavelmente, é um pouco envaidecedor, mas me deixa preocupado com as implicações do que eu faço e do que escrevo", disse Thomas Hegghammer, professor da Faculdade John F. Kennedy de Governo em Harvard, que apontou a reclamação de Maqdisi no blog que edita, chamado Jihadica.

A página inicial do site Jihadica, fundado há um ano pelo acadêmico William F. MacCants, traz uma citação anônima que teria sido tirada de uma pesquisa de jihadistas sobre sites na internet que monitoram o islamismo militante online: "É, na minha opinião, o site mais importante e perigoso neste grupo."

O fenômeno é multiplicado pela internet, que se tornou um instrumento essencial de recrutamento de jihadistas, mas também é especialmente vulnerável a espiões e informantes. O fato de acadêmicos ocidentais e analistas de defesa terem proposto ocasionalmente usar teóricos influentes como Maqdisi para influenciar e minar movimentos jihadistas apenas agrava a questão.

Com todas as suspeitas entre si, muitos islamitas militantes frequentemente falam dos analistas ocidentais - especialmente daqueles com ligação clara com os militares - com o respeito devido a um verdadeiro inimigo. Maqdisi, cujo site inclui a maior compilação do mundo de literatura jihadista (com milhares de artigos que podem ser pesquisados por autor) claramente tem consciência do que é escrito sobre ele e sobre a jihad em geral no Ocidente.

Apesar de sua estatura, há anos que combate críticas de outros jihadistas. Nascido em 1959, no que hoje se chama Cisjordânia, Maqdisi passou um período no Paquistão e no Afeganistão nos anos 80, onde seus escritos e discursos legitimando a violência influenciaram Bin Laden e outros. Em meados dos anos 90, ele foi preso na Jordânia e se tornou mentor espiritual de um prisioneiro chamado Abu Musab Al Zarqawi, que mais tarde tornou-se famoso por decapitar reféns como líder da Al Qaeda na Mesopotâmia.

Em 2005, Maqdisi foi brevemente liberado da prisão e criticou a campanha sangrenta de explosão de carros de Al Zarqawi contra os xiitas do Iraque. Isso levou alguns a acusarem-no de se tornar um instrumento das autoridades jordanianas ou americanas, acusação que foi renovada nos últimos meses.

Maqdisi, que agora está em prisão domiciliar na Jordânia, voltou a acusação irada contra seus críticos, argumentando que os esforços para miná-lo e outros líderes jihadistas vêm de uma estratégia projetada por analistas ocidentais trabalhando para a "Crusader Rand Corp.".

De fato, ao menos alguns islamitas parecem ver a mão da Rand Corp., uma organização americana que produz relatórios sobre o terrorismo e outros assuntos, em muitos cenários sinistros. No início do ano, um clérigo radical saudita disse durante uma entrevista que os "randitas" estavam tentando "des-islamizar" a Arábia Saudita.

O problema de Maqdisi, contudo, é mais interno. Uma nova geração de jihadistas, muitos deles com menos educação e respeito à autoridade que seus antigos, começaram a criticá-lo. Maqdisi considera os atentados suicidas como uma tática legítima, mas disse que não devem ser usados indiscriminadamente. Além disso, foi contra os massacres sectários executados por Al Zarqawi e outros no Iraque. Por isso, é acusado de virar as costas à jihad.

De certa forma, Maqdisi não pode reclamar, já que fez a mesma coisa com a geração anterior de clérigos, quando era jovem.

"Há várias décadas que há uma dinâmica na comunidade islâmica sunita onde cada nova geração tem menos princípios, é menos educada, mais radical e mais violenta que a anterior", disse Bernard Haykel, professor de estudos de Oriente Médio em Princeton.

De fato, alguns especialistas ocidentais no combate ao terrorismo recentemente usaram essa tendência como prova de que a Al Qaeda e seus afiliados estão destinados a se destruírem em uma orgia de violência e de lutas entre facções.

Veremos se Maqdisi também citará essas teorias ocidentais em defesa de sua própria abordagem.

Tradução: Deborah Weinberg

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