UOL Notícias Internacional
 

01/05/2009

Matando porcos no combate à gripe, o Egito enfurece os criadores e consterna a ONU

The New York Times
Nadim Audi
Em Cairo (Egito)
O Egito começou a sacrificar à força os rebanhos de porcos do país como precaução contra a gripe suína, uma medida que a ONU descreveu como "um verdadeiro erro" e um que pode provocar revolta entre os criadores de porcos do país.

A decisão, anunciada na quarta-feira (29), já está piorando as relações tensas entre a maioria muçulmana do Egito e seus cristãos coptas. A maioria dos criadores de porcos do Egito é cristã, e alguns acusam o governo de usar o medo da gripe suína para puni-los economicamente.

Segundo autoridades da Organização Mundial de Saúde (OMS), a decisão de sacrificar os porcos não tem base científica. "Nós não temos nenhuma evidência de que alguém tenha sido infectado por porcos", disse o dr. Keiji Fukuda, o diretor geral assistente da Organização Mundial de Saúde. "Este parece ser um vírus que está sendo transmitido de uma pessoa para outra."

O surto foi chamado de gripe suína - agora oficialmente chamado de Gripe A (H1N1) - porque os cientistas acreditam que tenha começado em porcos, mas não sabem se isso ocorreu recentemente ou anos atrás. A mudança do nome visa acalmar o temor em relação aos porcos ou ao consumo de carne de porco. O Egito não relatou nenhum caso do novo vírus que já atingiu outros 11 países, mas o país foi duramente atingido pela gripe aviária.

A grande maioria dos egípcios é muçulmana e não come carne de porco devido a restrições religiosas, mas cerca de 10% da população é cristã copta. Como resultado, os criadores egípcios de porcos são predominantemente cristãos. E apesar de alguns dos cristãos do país serem de classe média ou ricos, os criadores cristãos geralmente são pobres.

Na terça-feira, vários criadores de porcos no Cairo disseram considerar a decisão do governo como apenas outra expressão do ressentimento dos muçulmanos egípcios contra os cristãos. No ano passado ocorreram vários incidentes violentos que alguns acreditam visarem os cristãos, incluindo o sequestro e espancamento de monges. O governo egípcio negou que os incidentes tivessem conotações sectárias, dizendo que envolviam outros conflitos, incluindo uma disputa por terras.

Barsoum Girgis, um criador de porcos de 26 anos, vive em um bairro pobre, Manshiet Nasser, construído ao longo das colinas de Mukatam, na margem leste da cidade, onde a maioria das casas desalinhadas de tijolos vermelhos foi construída ilegalmente.

Girgis ganha a vida por meio de uma combinação de criação de porcos e coleta de lixo - duas profissões que costumam estar ligadas em uma cidade onde a coleta de lixo pode ser uma atividade informal e onde os criadores pobres dependem dos restos de comida para alimentar seus animais.

Ele acorda toda manhã por volta das 4 horas para coletar lixo pela cidade. Quando volta para Manshiet Nasser, por volta das 9 horas, ele separa o lixo, deixando de lado o que pode ser vendido no crescente mercado de sucata da cidade e o que pode ser usado como ração para os porcos.

"O governo daqui está perseguindo nosso ganha-pão", ele disse, mexendo nervosamente no crucifixo de madeira que usa no pescoço. "Estes porcos são saudáveis. Como vou alimentar meus filhos e mandá-los para a escola sem meus animais?"

Girgis vive com sua família estendida, cerca de 30 pessoas, nos primeiros dois andares de um prédio que se apóia contra a colina. Seus 60 porcos pequenos vivem no andar térreo. Eles têm pele escura e peluda e o guinchar deles pode ser ouvido a uma quadra da casa de Girgis.

Muitos dos criadores de porcos do Cairo vivem em condições semelhantes, dividindo seus pequenos espaços na cidade lotada com seus animais.

Após as autoridades internacionais de saúde terem criticado a decisão do Egito de abater cerca de 300 mil porcos, o chefe de doenças infecciosas do Ministério da Agricultura, Saber Abdel Aziz Galal, explicou que o abate era uma "medida geral de saúde", segundo a agência de notícias France-Presse.

"É bom reestruturar este tipo de criação em boas fazendas, não no lixo", a agência o citou como tendo dito.

"Nós construiremos novas fazendas em áreas especiais, como na Europa", ele disse. "Em dois anos os porcos retornarão, mas precisamos primeiro construir as novas fazendas."

Ainda não se sabe se o governo indenizará os criadores por suas perdas. O Ministério da Saúde disse originalmente que os criadores seriam pagos, mas após muitos no Parlamento discordarem, o ministério pareceu recuar.

Algumas pessoas no Cairo, ansiosas com as reportagens a respeito da gripe suína, concordaram com a medida do governo.

"Agora sabemos que há um motivo para Deus proibir os porcos: eles espalham doenças", disse Mohsen Hamady, um contador de 50 anos que estava bebendo chá após o trabalho em uma casa de chá do Cairo.

Mas muitos criadores de porcos dizem que realizam um serviço valioso para o restante do Cairo, que só será reconhecido após eles pararem de coletar o lixo.

"Se tirarem nossos porcos, por que sairíamos para coletar o lixo toda manhã?" disse Marcos Shalab, um criador de porcos de 40 anos de Manshiet Nasser.

Girgis exibiu o mesmo sentimento. "Nós somos cristãos e somos a classe baixa, então é muito fácil nos perseguir. Mas esta cidade depende de nós para processar seu lixo. Ela depende dos porcos."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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