UOL Notícias Internacional
 

02/05/2009

Ex-espião é agora negociador de encontros entre radicais islâmicos e o Ocidente

The New York Times
Robert F. Worth
Em Beirute (Líbano)
Conversar com os radicais islâmicos é a nova ordem do dia em Washington e Londres. O governo Obama deseja dialogar com o Irã e o Ministério das Relações Exteriores britânico decidiu reabrir contatos diplomáticos com o Hizbollah, o grupo militante xiita sediado aqui.

Mas por vários anos, pequenos grupos de diplomatas ocidentais fizeram viagens discretas a Beirute para sessões confidenciais com membros do Hamas, Hizbollah e outros grupos radicais islâmicos com os quais não queriam ser vistos conversando. Em salas de conferência de hotéis, eles cuidadosamente apertavam mãos e então passavam horas escutando e discutindo acusações de terrorismo de um lado e arrogância imperial do outro.

O organizador desses encontros discretos é Alastair Crooke, um homem loiro e quieto de 59 anos que passou três décadas trabalhando para o MI6, o serviço secreto de inteligência britânico. Ele agora dirige uma organização aqui chamada Conflicts Forum, com um conselho consultivo incomum que inclui ex-espiões, diplomatas e ativistas da paz.

Crooke passou grande parte de sua carreira conversando com radicais islâmicos. Nos anos 80, como um jovem agente secreto no Paquistão e Afeganistão, ele ajudou a fornecer armas para os jihadistas que lutavam contra os soviéticos. Posteriormente, ele passou anos trabalhando com o Hamas e o Fatah como negociador para a União Europeia, e ajudou a mediar vários cessar-fogos com Israel entre 2001 e 2003. Ele conquistou uma reputação de coragem e tenacidade, mas pessoalmente ele é desarmadoramente educado e gentil, um homem de baixa estatura com sorriso travesso.

A missão do Conflicts Forum, que ele fundou em 2004, lembra a planta dos atuais esforços do governo Obama: "abrir um novo relacionamento entre o Ocidente e o mundo muçulmano" por meio do diálogo e de um melhor entendimento mútuo.

Mas Crooke, que é lendário por sua rede profunda de contatos entre os grupos islâmicos por todo o Oriente Médio, não se anima com as perspectivas de um mero diálogo, especialmente com o Irã.

"Eu acho que há um temor real de que será um processo onde cada um falará e não ouvirá", disse Crooke. "Os iranianos dirão: 'nós queremos conversar sobre justiça e respeito'. Os Estados Unidos dirão: 'vocês estão dispostos a abrir mão do enriquecimento ou não?'"

Para superar esse impasse com o Irã, e com os grupos radicais islâmicos em geral, o Ocidente precisará mudar sua linguagem diplomática de ameaças e recompensas, disse Crooke, e mostrar mais respeito pelo ponto de vista de seus adversários.

Crooke passou os últimos anos tentando explicar isso para ocidentais cheios de suspeita, em uma série de artigos, discursos e conferências. Apesar de não ser um arabista por treinamento, ele desenvolveu um profundo conhecimento sobre os movimentos islâmicos modernos, realiza facilmente análises da política palestina, até mesmo da filosofia islâmica medieval.

Recentemente, ele levou ainda mais longe seus esforços de explicação. Em um novo livro, "Resistance: the Essence of the Islamist Revolution" (resistência: a essência da revolução islâmica), ele evita deliberadamente os assuntos mais controversos, como Israel e o status da mulher no mundo islâmico. Em vez disso, ele se concentra no que chama de essência da revolução islâmica, que ele define como uma resistência metafísica à definição ocidental baseada no mercado de indivíduo e sociedade. Ele invoca críticos sociais europeus como Theodor Adorno e Max Horkheimer para endossar suas críticas ao pensamento ocidental e argumentando que o islamismo oferece um modelo mais holístico.

Sem causar surpresa, o livro recebeu algumas críticas duras e novas acusações de que Crooke se tornou nativo. Mesmo alguns de seus companheiros no Conflicts Forum disseram ter ficado um tanto desnorteados - não pelo seu apreço pelos islamitas, mas pelos amplos temas filosóficos do livro.

Crooke diz que o livro brotou de seus esforços para encontrar um consenso com os islamitas e olhar além dos obstáculos habituais.

"Me parecia que havia uma necessidade real de entender melhor o que estava acontecendo dentro do islamismo, e valorizar o que estavam dizendo de formas que poderiam ser entendidas pelo Ocidente", ele disse.

O projeto parece inseparável de sua defesa mais ampla do diálogo. Para ilustrá-la, Crooke descreve um episódio do conflito na Irlanda do Norte, no qual os britânicos colocaram duas facções opostas em uma sala para conversar, "imaginando ingenuamente que conversar ajudaria". Isso fez o oposto, reforçou a raiva deles. Assim, os negociadores tentaram outra abordagem: eles pediram a ambos os lados que escrevessem sua história e visão para o futuro em um pedaço de papel. Após outros três anos de conversações, as facções finalmente chegaram a um ponto em que reconheciam a legitimidade do pedaço de papel do outro lado.

"George Mitchell certa vez me disse, 'você nem mesmo tem um processo político até aceitar que o outro lado tem um ponto de vista legítimo'", disse Crooke, se referindo ao famoso Acordo da Sexta-Feira Santa de 1998, na Irlanda do Norte, e o relacionando aos muitos obstáculos entre os Estados Unidos e o Irã.

"A América tem a vontade e a paciência para isso?" ele perguntou. "Eu não sei ao certo se já chegamos lá."

Paciência, segundo todos os relatos, é algo que Crooke possui. Mark Perry, o co-diretor do Conflicts Forum, descreveu um episódio em Gaza em 2002, em que dois homens tentaram estabelecer um cessar-fogo entre Israel e as facções palestinas. Após semanas de negociações, Israel jogou uma bomba sobre o líder do Hamas cuja assinatura eles precisavam, arruinando seus esforços. "Nós estávamos exaustos", lembrou Perry. "No dia seguinte no quarto do hotel, eu olhei para Alastair e disse: 'O que faremos agora?' Ele apenas disse: 'Tentamos de novo'."

Não está totalmente claro de onde vem essa firmeza. Ele é um pouco evasivo sobre sua própria vida e carreira, talvez por treinamento. Nascido na Irlanda, ele foi praticamente criado na Rodésia, atual Zimbábue, e foi educado em um internato suíço e na Saint Andrew's na Escócia, obtendo um diploma de economia. Antes de ingressar no MI6, ele trabalhou em finanças em Londres.

"É uma área perigosa na qual trabalhar", ele disse sobre seus anos como banqueiro, aparentemente sem ironia, "porque é fácil demais se deixar seduzir pelo enriquecimento".

Ele é impedido por lei de falar sobre seu serviço no MI6, que inclui anos de trabalho diplomático na questão Israel-Palestina. Como negociador nos territórios palestinos, ele já viajou sozinho, de táxi, evitando os comboios de segurança armados de muitos diplomatas ocidentais. Colegas que trabalharam com ele dizem que Iasser Arafat e os líderes do Hamas confiavam plenamente em Crooke, assim como algumas autoridades israelenses.

Alguns israelenses, entretanto, se queixam de que ele tem laços estreitos demais com o Hamas. No final de 2003, ele foi chamado a Londres -ele tinha chegado à idade de aposentadoria- e discretamente dispensado do serviço ao governo, com honras. Ele disse não lamentar nada, mas alguns de seus colegas no Conflicts Forum disseram que ele guarda uma certa amargura pela forma como foi tratado. Em 2005 ele se mudou para Beirute, onde vive com sua parceira, Aisling Byrne, e a filha de um ano do casal, Amistis, em um elegante apartamento de era do mandato francês, trabalhando em um escritório em casa.

Crooke sorri com a sugestão de que o Conflicts Forum poderia lhe proporcionar um caminho de volta à diplomacia, o que ele não nega totalmente. "Não somos implementadores", ele disse. "O que estamos tentando fazer é criar e catalisar idéias. A segunda parte é, como podemos fazer para multiplicar algo, feito por um número pequeno de pessoas em uma sala, em algo maior?"

Tradução: George El Khouri Andolfato

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