UOL Notícias Internacional
 

03/05/2009

Países em desenvolvimento impulsionam o crescimento dos sites, mas não os lucros

The New York Times
Brad Stone e Miguel Helft
O Facebook está prosperando na Turquia e na Indonésia. O público do YouTube praticamente dobrou na Índia e no Brasil. Parecem boas notícias. Mas são também uma importante razão para que estas e outras empresas da web com grandes públicos globais e marcas famosas têm dificuldades para obterem até um lucro minúsculo.

Pode-se chamar de paradoxo global.

Empresas da web que dependem da propaganda estão tendo um dos mais vibrantes crescimentos nos países em desenvolvimento. Contudo, esses são os lugares mais caros de se operar, já que as empresas de web frequentemente precisam de mais servidores para tornar o conteúdo disponível em partes do mundo com conexões de velocidade limitada. E nesses países, a propaganda online se traduz menos em resultados.

Essa contradição intratável se tornou um peso sério nos balanços dos sites de compartilhamento de fotos, redes sociais e distribuidores de vídeo como YouTube. Também está ameaçando o idealismo fervoroso de empreendedores da internet, que esperavam unir o mundo em uma única aldeia online, mas estão cada vez mais descobrindo que o lado econômico dessa visão simplesmente não funciona.

No ano passado, o Veoh, site de compartilhamento de vídeos operado a partir de San Diego, decidiu bloquear seus serviços para usuários na África, Ásia, América Latina e Europa Oriental, citando as fracas perspectivas de fazer dinheiro e o alto custo para a transmissão de vídeos nesses lugares.

"Acredito em comunicações livres e gratuitas. Mas essas pessoas estão tão esfomeadas por este conteúdo que se sentam ali e assistem, assistem e assistem. O problema é que estão comendo a conexão e é muito difícil tirar receita daí", disse Dmitry Shapiro, diretor executivo da empresa.

Novas empresas na internet que amadureceram na era da web 2.0, de 2004 até o início da recessão no final de 2007, geralmente apostaram em uma estratégia amplamente aceita: construir públicos globais gigantescos com um serviço gratuito e deixar a propaganda pagar as contas.

Muitas delas, contudo, bateram de cara com a realidade econômica mundial. Talvez haja 1,6 bilhão de pessoas no mundo com acesso à internet, mas menos da metade delas têm renda suficiente para interessar os principais anunciantes.

"É um problema que toda empresa de internet tem", disse Michelangelo Volpi, diretor executivo do Joost, site de vídeos que tem metade de seu público fora dos EUA. "Toda vez que você tem muito material gerado pelo usuário, sua conexão é utilizada pela Ásia, Oriente Médio e América Latina, onde a banda larga é cara e o preço dos anúncios é ridiculamente baixo", disse Volpi. Se as empresas da web "realmente quiserem fazer dinheiro, devem deixar de fora esses países".

Poucas empresas de internet tomaram essa medida drástica, mas muitas estão explorando outras formas de aumentar a renda ou cortar custos nos países em desenvolvimento.

O MySpace -a rede social da News Corp. com 130 milhões de membros, cerca de 45% no exterior- está testando uma característica para países com conexões de internet mais lentas, chamado Profile Light. É uma versão mais leve do site que é menos cara para transmitir porque requer menos velocidade.

MySpace diz que talvez torne o Profile Light a versão primária para seus membros na Índia, onde tem 760 mil usuários, apesar das pessoas poderem clicar em um link para mudar para a versão mais rica do site.

Talvez nenhuma empresa esteja mais presa ao paradoxo internacional do que o YouTube. Um analista do Credit Suisse, Spencer Wang, recentemente estimou que a empresa poderia perder US$ 470 milhões em 2009, em parte por causa do alto custo para transmitir bilhões de vídeos por mês. O Google, proprietário do YouTube, refutou a análise mas não ofereceu detalhes da situação financeira do site.

Tom Pickett, diretor das vendas online e operações do YouTube, diz que a empresa ainda trabalha para realizar sua visão de levar o vídeo online para todo o planeta. Nos últimos dois anos, esforçou-se para criar versões locais de seu site em países como Índia, Brasil e Polônia.

Pickett, contudo, também diz que o YouTube diminuiu a criação de novos centros internacionais e mudou seu foco para fazer dinheiro. Ele diz que também não exclui a possibilidade de restringir a velocidade em certos países como forma de controlar custos -essencialmente tornando o YouTube mais lento e de menor qualidade no mundo em desenvolvimento.

"Talvez escolhamos estabelecer um limite para gastos com custos de conexão", disse Pickett. Em alguns países, "talvez haja horários de pico em que, em vez de alta definição, diminuímos a resolução", disse ele.

A rede social Facebook também está considerando diminuir a qualidade dos vídeos e das fotografias enviadas a algumas regiões, em um esforço para reduzir custos.

"Podemos decidir país por país ou usuário por usuário e formatar a qualidade do serviço para aqueles usuários", disse Jonathan Heiliger, executivo que supervisiona a infraestrutura de computação do Facebook.

O Facebook está em uma situação particularmente difícil. Dos seus 200 milhões de membros, 70% moram fora dos EUA, muitos em regiões que não contribuem muito para o balanço da empresa. Ao mesmo tempo, o Facebook enfrenta a perspectiva cara de armazenar 850 milhões de fotos e 8 milhões de vídeos carregados no site a cada mês.

O Facebook, que diz que prefere o crescimento do número de membros sobre a lucratividade por enquanto, está tentando aumentar a renda no exterior contratando vendedores de propaganda em países como Reino Unido, Austrália e França.

Em outras partes do mundo, a Microsoft oferece anúncios no site e o Facebook dá ferramentas a quem anunciar. Essas propagandas, entretanto, são muito menos lucrativas do que as que o Facebook vende nos EUA e na Europa Ocidental.

Como resultado, especula-se sobre as finanças do Facebook. Analistas da indústria se preocupam com a velocidade que a empresa está perdendo dinheiro e se não precisa solicitar outra rodada de investimentos.

O Facebook disse no mês passado que deveria ter lucro no ano que vem. Entretanto, na mesma época, seu diretor financeiro experiente, Gideon Yu, deixou a empresa. Três pessoas que conhecem as manobras internas do Facebook disseram que Yu objetou a tal projeção cor de rosa enquanto a empresa tinha dificuldades de financiar seu caro crescimento global.

Empresários da web como Shapiro da Veoh, que ainda sofrem com a decisão de restringir seu site à grande parte do mundo, talvez encontrem uma forma de aliviar suas consciências.

"A parte em mim que quer mudar o mundo diz: 'Isso não é justo, não deveria ser assim'", disse Shapiro. "Por outro lado, de ponto de vista empresarial, servir vídeos ao mundo todo simplesmente não é sustentável nesta altura."

Tradução: Deborah Weinberg

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