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03/05/2009

Tigela premiada serve vitórias a um vilarejo

The New York Times
Por Edward Wong
Em Manao (China)
O "dragon boat", ou barco dragão (canoa típica chinesa), era o primeiro na procissão, com seus 23 metros de comprimento, carregado por um trator, passou na frente do templo budista e por uma plantação de coqueiros.

Depois vieram os tratores lotados com remadores: dezenas de mulheres vestidas com blusas brancas e saias turquesa, rindo, aplaudindo e acenando.

E assim aconteceu outro desfile de vitória neste vilarejo tropical do sudoeste da China.

Todos os anos, Manao e outros onze vilarejos da etnia Dai participam da regata de barcos-dragão no rio Mekong, na altura da cidade de Jinghong. Depois do término da regata deste ano, e com o sol já se escondendo atrás dos seringais e bananais, era chegada a hora de jantar e dançar.

Todos os vilarejos que participaram da regata em 16 de abril festejariam naquela noite, mas aqui em Manao o vinho de arroz se derramaria com mais abundância, as mulheres cantariam mais alto e os monges em túnicas cor de açafrão disparariam fogos caseiros no céu porque Manao havia se afirmado mais uma vez como o vilarejo com os melhores remadores da região.

"Quando você ganha o primeiro lugar, você se sente diferente, fica feliz", diz Yi Xiangsan, uma das remadoras. "Você fica orgulhoso."

No que diz respeito às regatas de barcos-dragão, Manao tem uma aura de invencibilidade, graças a uma lenda que começou em 1961, com a visita do então primeiro-ministro chinês Zhou Enlai à região. Naquele ano, com a presença de Zhou na plateia, Manao venceu a regata anual. Zhou, que é reverenciado pelos chineses como uma espécie de antagonista de Mao Tsé-tung, presenteou vários vilarejos Dai com uma tigela de prata, dizem os moradores locais. Mas a que ele ofereceu a Manao era um pouco maior, mais trabalhada.

A história da tigela circulou entre os Dai, um grupo étnico que chega a 1,16 milhão de pessoas na China e é mais comum na região de Xishuangbanna, na província de Yunnan, ao sul do país, ao longo da fronteira com o Laos.

"Nós normalmente não perdemos", diz Yi Ying, 36, que remou com a equipe feminina do vilarejo em meia dúzia de competições (e que, como todas as mulheres Dai, tem Yi no começo do nome). "Se perdêssemos, não seríamos capazes de olhar para a tigela".

Yi Ying levantou a tigela sob a luz brilhante da tarde, sentada num banquinho em sua casa de madeira. Seu sogro é o guardião oficial do prêmio, que fica guardado num armário da casa. Poucas pessoas pedem para vê-la, e ela levou 15 minutos para encontrá-la no meio das coisas.

A tigela tem inscrições apagadas na língua Dai, dizendo que o ganhador dela tirou o primeiro lugar na corrida de barcos-dragão daquele ano.
Yi Ying diz que Zhou deu a tigela de presente para os remadores mais importantes da canoa - posicionados na proa e na popa. Os dois homens já estão mortos.

"É claro que é uma honra ter a tigela", diz Yi.

Diferentes das regatas de barcos-dragão que os chineses Han faziam durante o verão, os Dai, que podem ser encontrados por todo o sudeste asiático, fazem sua competição durante o Festival da Água, uma celebração de três dias em abril que culmina no Ano Novo chinês. A maior regata da região acontece numa faixa ampla do rio Mekong, que atravessa a cidade de Jinghong, a menos de uma hora de carro de Manao.

Doze vilarejos participam. Num ano são as mulheres que remam, no outro os homens.

Em 1961, Zhou chegou à região durante o Festival da Água para se encontrar com o primeiro-ministro de Burma, hoje Myanmar, U Nu. Os dois assistiram a apresentações de música e dança, visitaram um instituto de pesquisa de plantas tropicais e, às 14h10 do dia 14 de abril, viram os Dai em roupas típicas remarem 19 canoas cruzando o Mekong, de acordo com um site do governo de Xishuangbanna. Os dois primeiros-ministros então entregaram as tigelas de prata.

O barco-dragão de madeira de Manao é o mesmo usado há cerca de três décadas e fica guardado sob um telhado no templo do vilarejo. Nele cabem 70 remadores. No dia da regata, os moradores do vilarejo oram para a canoa e colocam em sua popa uma vela acesa, uma garrafa de vinho de arroz, um maço de cigarros e muitos quitutes de arroz doce enrolado em folhas de bananeira.

A tradição da regata está evoluindo. Mais e mais barcos são montados com partes de metal, o que os torna mais duráveis. Yi Xiangsan disse que percebeu que sete ou oito dos doze vilarejos que participam da competição anual têm agora esse novo estilo de canoa.

Em Manao, antes da regata anual, os remadores treinam por dez dias sob as ordens do chefe do vilarejo. "Todos os moradores maiores de 20 anos e menores de 50 devem se apresentar", diz Yi Xiangsan. Acredita-se que as mulheres que têm filhos sejam as remadoras mais fortes. As mulheres, também, são as mais dedicadas aos treinos. Segundo ela, "as mulheres, se não se preparam bem, não remam. Os homens remam de qualquer jeito."

Na competição deste ano, que teve apenas remadoras, a equipe de Manao fez o percurso quatro vezes.

"O motivo pelo qual fazemos isso é para expressar totalmente o espírito e a história do povo Dai", diz Yi Xiangsan, veterana de 13 competições.

"É muito cansativo", diz ela. "Há quem não consiga sair da cama na manhã seguinte porque está com o corpo todo dolorido".

Dois dias depois da regata, ela estava em sua casa de madeira consertando um vestido na máquina de costura. Sua equipe havia voltado com um certificado e o prêmio de primeiro lugar de cerca de US$ 1.300.

Na noite após a regata, as mulheres se reuniram numa quadra com os homens do vilarejo para festejar e cantar serenatas para eles. (Em resposta, de acordo com a tradição, os homens oferecem dinheiro a elas.)

Enquanto Yi Xiangsan falava, sua filha de 16 anos traduzia da língua Dai para o mandarim. Perguntei se ela tem vontade de remar quando chegar aos 20 anos.

"Sou muito nova para pensar nisso", disse.

A mãe imediatamente ergueu a voz: "Com certeza quero que ela participe".

Tradução: Eloise De Vylder

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