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04/05/2009

Celulares falsificados conquistam o mercado na China

The New York Times
David Barboza
Em Shenzhen
As linhas elegantes e a tela sensível do telefone são inequivocamente familiares. Assim como o logo na parte de trás. Mas um vendedor do mercado de eletrônicos da cidade costeira de Shenzhen, na China, admite o que fica claro depois de uma inspeção mais minuciosa: não se trata de um iPhone da Apple; mas sim de um Hi-Phone.

"Mas é tão bom quanto", diz o vendedor.

Nas proximidades, dezenas de outros vendedores oferecem telefones Nokia, Motorola e Samsung falsificados - assim como cópias mais baratas que não fazem questão de dissimular a pirataria.

"Há cinco anos, não havia telefones falsificados", diz Xiong Ting, gerente de vendas da Triquint Semiconductor, fabricante de componentes para celulares, em visita a Shenzhen. "Não havia design para o hardware. Mas hoje, uma empresa com cinco pessoas pode fazer isso. E todos os fornecedores estão num raio de 160 quilômetros daqui."
  • Ryan Pyle/The New York Times

    Homem testa celular em mercado em Shenzhen

  • The New York Times

    Publicidade mostra um iPhone falso na China

  • Ryan Pyle/The New York Times

    Entrada de centro comercial de venda de celulares



Avanços tecnológicos permitiram que centenas de pequenas companhias chinesas, algumas com apenas dez funcionários, produzissem os chamados celulares "shanzhai", vendidos no mercado negro até por US$ 20 cada.

E assim como as companhias chinesas tentam aumentar seu valor na cadeia de produtos manufaturados, deixando de fabricar brinquedos e roupas para produzir computadores e carros elétricos, os falsificadores também estão evoluindo. Depois de anos fabricando bolsas de luxo falsificadas e DVDs piratas, eles capturam a fatia de mercado das maiores fabricantes de celulares do mundo.

Apesar de os telefones shanzhai estarem no mercado há poucos anos, eles já respondem por mais de 20% das vendas na China, que é o maior mercado de celulares do mundo, de acordo com uma pesquisa do grupo Gartner Inc.

Eles também são exportados ilegalmente para a Rússia, Índia, Oriente Médio, Europa e até para os Estados Unidos.

"O mercado dos telefones shanzhai está se expandindo de uma forma insana", diz Wang Jiping, analista do IDC, uma empresa que acompanha as grandes marcas tecnológicas. "Eles copiam a Apple, Nokia, o que quiserem, assim que saem no mercado".

Alarmadas com o rápido crescimento das cópias e falsificações, as grandes marcas pressionam o governo chinês para impedir sua proliferação, e alertam os consumidores quanto a possíveis riscos para a saúde, como baterias baratas que podem explodir.

A Nokia, maior fabricante de celulares do mundo, diz que está cooperando com o governo chinês na luta contra a falsificação. A Motorola diz o mesmo. A Apple Inc. recusou-se a comentar o assunto.

Até os produtores de telefones celulares chineses estão perdendo sua fatia do mercado para as empresas irregulares, que têm uma vantagem de custos porque burlam impostos, taxas de regulamentação e testes de segurança.

"Estamos sofrendo um grande prejuízo com os telefones shanzhai", diz Chen Zhao, diretor de vendas da fabricante chinesa de celulares Konka.
"Os fabricante de celulares legalizados devem pagar 17% de sua receita em impostos sobre a mercadoria, mas os fabricantes de shanzhai, obviamente, não pagam nada."

Até agora, entretanto, a China fez muito pouco para impedir a proliferação dos telefones falsos, que têm até mesmo informes comerciais na televisão, tarde da noite, com chamadas como "um quinto do preço, mas as mesmas funções e a aparência", ou apelos patrióticos como "compre shanzhai para mostrar que ama nosso país".

No mês passado, o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação alertou os consumidores sobre os perigos dos telefones shanzhai, dizendo que "a radiação deles normalmente ultrapassa os limites seguros". A agência de proteção aos consumidores da China disse que os celulares com defeitos foram a principal queixa no ano passado.

Há poucas semanas, no sul da China, um homem de 45 anos sofreu queimaduras graves por conta de um telefone celular que explodiu no bolso de sua camisa, informou a imprensa oficial.

Mas isso não pareceu afetar o comércio do mercado negro de telefones, que são vendidos normalmente no varejo por US$ 100 a US$ 150. No espírito "shanzhai" - que equivale ao termo "pirata" e se aplica a produtos falsificados de todos os tipos -, muitos consumidores estão dispostos a se arriscar comprando um produto mais barato que tenha estilo.

"Vi fotos do iPhone na internet; é muito bonito. Mas custa mais de US$ 500 - muito caro", diz Yang Guibin, 30, que trabalha num escritório em Chongqing. "Então decidi comprar um iPhone shanzhai. Comprei no mercado de eletrônicos aqui; e é igualzinho a um iPhone".

Alguns especialistas acreditam que o fenômeno shanzhai está ligado à criatividade, ao estilo chinês.

"As companhias locais são na verdade muito inovadoras", diz Yu Zhou, professor do Vassar College. "Não é tanto a tecnologia, mas a maneira como elas formam redes de fornecedores e a rapidez com que respondem às novas tendências".

Apesar de os telefones se parecerem com marcas famosas, as companhias na verdade acrescentam características especiais como telas grandes, a possibilidade de usar dois chips (que permitem o uso de números de
telefone) e até mesmo lentes mais poderosas para a câmera do telefone.

Como os telefones da China funcionam com chips, como na maioria dos lugares exceto os Estados Unidos, basta colocar um chip válido num telefone shanzhai que ele funciona.

Todas essas inovações partiram de um setor que decolou apenas em 2005, depois que a Mediatek, empresa que produz semicondutores em Taiwan, ajudou a reduzir significativamente o custo e a dificuldade de fabricar um telefone celular.

Usando o que os especialistas chamam de uma solução de pronta entrega, a Mediatek desenvolveu uma placa de circuito mais barata que poderia integrar as funções de vários chips, oferecendo às companhias uma plataforma para produzir telefones celulares de baixo custo.

O setor recebeu um novo impulso em 2007, quando as agências reguladoras disseram que as companhias não precisavam mais de uma licença para produzir telefones celulares.

Isso deu início a uma competição forte entre os empresários deste centro manufatureiro de eletrônicos. A falsificação e as cópias sem marca proliferaram. Pequenas companhias passaram a comprar um chip Mediatek carregado de softwares, encomendar outros componentes e pedir para que outra fábrica os montassem.

A estratégia de marketing é simples: roubar. Os desenhos e nomes de marcas são copiados de forma idêntica ou imitados. (Sumsung em vez de Samsung, ou Nckia em vez de Nokia.)

Acessar as redes de fornecedores das grandes marcas é fácil, dizem os fabricantes.

"É muito comum que as fábricas façam turnos noturnos para outras companhias", diz Zhang Haizhen, que foi gerente de uma companhia shanzhai até recentemente. "Ninguém recusa um pedido de mais de cinco mil telefones celulares".

As pessoas que falsificam iPhones admitem que é um negócio irregular.

"Somos uma espécie de fabricante ilegal", diz Zhang Feiyang, cuja companhia, Yuanyang, faz clones do iPhone. "Em Shenzhen há muitas fábricas pequenas, escondidas. Basicamente, podemos fazer qualquer tipo de telefone celular."

A concorrência já obriga as grandes marcas a baixarem o preço, dizem os analistas. E novas marcas chinesas estão surgindo, como a Meizu, que se espelha na Apple e abriu lojas elegantes por aqui.

"Nosso telefone é ainda melhor do que o iPhone", diz Liu Zeyu, vendedor da Meizu em Shenzhen. "Nosso objetivo é criar um telefone que deixe os chineses orgulhosos".

Tradução: Eloise De Vylder

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