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04/05/2009

Um ano depois de tempestade, Mianmar se abre um pouco

The New York Times
Pathein (Mianmar)
Depois de um ano, a grama finalmente pegou no solo salgado dos cemitérios. Os corpos, quase 85 mil, foram pescados dos rios, desenterrados da lama, retirados das lagoas e colocados para descansar.

Além disso, cerca de 45 mil pessoas ainda são listadas como desaparecidas, mas todos que sobreviveram ao ciclone Nargis no delta birmanês sabem muito bem que à essa altura "desaparecidos" significam "mortos".

O ciclone, que atingiu Mianmar na noite de 2 de maio do ano passado, foi uma das tempestades mais mortíferas de que se tem registro, superando em muito o número de mortos do furacão Katrina. Ele destruiu 700 mil casas no delta. Matou três quartos da criação de animais, afundou metade da frota de barcos pesqueiros e salgou mais de um milhão de acres de plantações de arroz por causa do mar revolto.

Apenas um ano depois desse horror, sob vários aspectos, a vida no Delta Irrawaddy voltou ao normal e retomou alguns de seus ritmos
familiares: a plantação e a colheita. É uma vida possível, porém precária; a vida esperada pelos centros de controle climático e pelos fazendeiros.

Mas algo inesperado aconteceu, de acordo com autoridades da ONU, voluntários e diplomatas estrangeiros em Mianmar. A tempestade - e o aumento da ajuda humanitária que se seguiu a ela - podem ter aberto uma brecha no duro cerco político de Mianmar.

Nos dias após o ciclone, os generais linha-dura que governam Mianmar não sabiam o que os havia atingido, literalmente. O tamanho do desastre estava além de sua imaginação - e além de seu reconhecimento. Navios militares franceses e americanos que carregavam suprimentos para a ajuda humanitária esperaram no litoral por mais de duas semanas enquanto os generais decidiam. Por fim, sem permissão para entregar suas cargas, os navios se retiraram - e a junta foi condenada pelo mundo inteiro.

"Os generais acharam que se tratava de apenas um ciclone comum, que a marinha entregaria um pouco de arroz e algumas barracas e isso seria suficiente", disse um diretor de programas da ONU que falou sob condição de anonimato por temer irritar o governo.

"O regime cometeu alguns erros chocantes no início, verdadeiramente horríveis, ao impedir a ajuda. Mas foram decisões guiadas pelo orgulho nacional. Eles pensaram: 'Nós mesmos podemos dar conta disso.'

"Com toda a agitação internacional, eles finalmente perceberam: 'Isto é muito, muito grande para nós'", disse o diretor de programas. "E depois disso, fizeram muita coisa. Seguiu-se uma grande resposta nacional".

Hoje, a junta militar reservada e xenófoba - ainda temendo uma invasão marinha das potências ocidentais - aceita prontamente carregamentos aéreos com a ajuda internacional, até mesmo do Ocidente. Apesar de os estrangeiros ainda não poderem entrar no delta sem permissão oficial, o número de grupos de ajuda internacional que receberam permissão para trabalhar em Mianmar dobrou no ano passado.

Os vizinhos de Mianmar na Associação das Nações do Sudeste Asiático, especialmente a Indonésia e Cingapura, são considerados amplamente responsáveis por ajudar a junta a assumir uma postura um pouco mais relaxada.

"A resposta geral do governo foi notável", diz Lilianne Fan, ex-conselheira política do grupo de ajuda Oxfam em Mianmar. "Cada vez mais eles compreendem que estão envolvidos num processo de recuperação."

Especialistas em saúde também citam os esforços do governo em combater uma variedade de problemas de saúde pública, principalmente a gripe aviária, o HIV e a Aids.

"É possível trabalhar muito bem aqui, dizer que não é uma mentira", diz o doutor Frank Smithuis, diretor do Médicos Sem Fronteiras no país. "Veja bem, as estatísticas de direitos humanos aqui são frágeis, sim, e é politicamente fácil criticar Burma, mas os militares na verdade têm sido bastante cooperativos conosco."

A junta militar é vista com maus olhos por muitos. Ela prendeu oponentes políticos, monges budistas e uma vencedora do Nobel da Paz sem pedir desculpas. Quando o comediante mais famoso do país, Zarganar, também conhecido como Pinça, censurou o governo por sua lenta resposta em relação ao ciclone Nargis, foi preso e condenado a
59 anos de prisão; a sentença foi mais tarde reduzida para 35 anos.

E apesar de a ajuda a curto prazo chegar no delta, doadores de peso ficaram de fora, incluindo o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, e o Fundo Mundial para a Luta contra a Aids, Tubercolose e Malária. De acordo com um novo plano de recuperação, o delta precisará de US$ 690 milhões de ajuda durante os próximos três anos, apesar de ser difícil levantar esse valor. A ONU fez um apelo durante um ano, que terminou recentemente com apenas US$ 162 milhões, ou um terço de seu objetivo.

A geopolítica, é claro, importa pouco para os fazendeiros do delta, onde até mesmo lamentar se tornou um luxo. Apesar do influxo de ajuda, eles dizem que ainda precisam de blocos para fundações e telhados reforçados, mais agricultores (ou mais búfalos d'água) e dinheiro para sementes, fertilizantes e escolas.

"Os moradores do delta não estão derrotados, mas perdidos", disse um diplomata ocidental que visitou a área recentemente mas não foi autorizado por seu governo a identificar-se à reportagem. "Eles estão desesperados. Não tinham muita coisa antes, e agora não têm quase nada. Eles simplesmente não veem como sair dessa situação."

Há muita coisa para com que se preocupar: campos, poços e reservatórios salgados; a dependência das doações de alimentos; a falta de crédito local; abrigos frágeis de palha; mais uma estação de monções se aproximando.

Moe Seh, 50, é um fazendeiro cuja comunidade desapareceu completamente na tempestade. Seus terraços de arroz, alagados pela água do mar, não retornaram - e pode ser que nunca voltem à fertilidade total, pelo menos não enquanto ele viver. Ele pediu dinheiro emprestado para comprar sementes e as plantou depois do ciclone, mas a colheita foi de apenas um décimo do normal - nem de longe suficiente para pagar os juros de seu empréstimo. Ele e um de seus filhos agora vão de cidade em cidade, a pé, tentando conseguir empregos urbanos ou trabalho no campo.

A mulher de Moe Seh e seus sete filhos sobreviveram ao ciclone, mas assim como muitas pessoas aqui, preocupam-se com os fantasmas de amigos e vizinhos que estão lá fora no escuro, ao longo dos rios, no bambuzal.

Os fantasmas normalmente surgem durante as noites sem lua, dizem os moradores do delta, principalmente quando o vento fica mais forte.
Eles dizem que podem ouvir os fantasmas nas margens dos rios, ou movendo-se lentamente nos bambuzais.

"Alguns gritam alto, e parecem tristes, e outros parecem estar com raiva", diz Moe Seh. "Eles assustam meus filhos. Tenho que admitir que eu também tenho medo."

Tradução: Eloise De Vylder

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