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05/05/2009

Apesar da recessão, brasileiros mantêm boom na venda de carros blindados

The New York Times
Alexei Barrionuevo
Em São Paulo
Após ser assaltado duas vezes no trânsito, uma delas com arma apontada, João Neves deixou de lado qualquer preocupação que tinha sobre a crise econômica global e há dois meses comprou um carro blindado.

"Apesar da crise, eu considero meu bem-estar e segurança uma prioridade", disse Neves, dono de uma pequena agência publicitária. "Eu tenho medo de morrer baleado."

Em vez de comprar um carro novo, Neves optou por um Volkswagen Passat 2005 capaz de suportar os disparos de um revólver Magnum 44 ou de uma metralhadora de 9mm.

SLalo de Almeida/The New York Times 
Trabalhadores preparam a blindagem de um automóvel, em São Paulo

Os brasileiros já reduziram seu apetite por eletrodomésticos e eletrônicos por causa da recessão, mas blindagem é uma despesa da qual não abrirão mão facilmente. Antes um domínio dos muito ricos, os carros blindados se transformaram em uma obsessão das classes média e média alta, especialmente nesta cidade imensa, notória por seus assaltos no trânsito e sequestros.

Oficialmente, a criminalidade está em queda. Mas com a piora da economia e o aumento do desemprego, há um temor palpável de que o crime de rua também piorará, dizem os economistas daqui. Muitos paulistanos dizem que os congestionamentos intermináveis e a desigualdade de renda são uma receita para assaltos e roubos de carros, especialmente agora que os tempos de boom do Brasil acabaram.

"A pergunta não é se você será assaltado, é quando acontecerá", disse Craig Bavington, que dirige uma agência de turismo daqui. Após ser assaltado duas vezes, ele decidiu comprar um carro blindado usado há dois anos, quando sua esposa ficou grávida do primeiro filho do casal.

Mais de 7 mil veículos foram blindados para uso civil no Brasil em 2008, em comparação a 1.782 uma década atrás, e o ritmo se manteve em 2009 apesar da desaceleração econômica no primeiro trimestre, segundo a Associação Brasileira de Blindagem. Há uma década, havia apenas um punhado de empresas de blindagem no Brasil. Hoje, há cerca de 120. São Paulo lidera o país -e o mundo- na blindagem e venda de carros blindados. O Rio de Janeiro, uma cidade com preocupações legítimas com balas perdidas da guerra das gangues nas favelas que pairam sobre a cidade, é o segundo maior mercado do Brasil.

O governo, talvez não intencionalmente, ajudou a perpetuar a onda de blindagem. Com a queda da produção industrial no ano passado, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva removeu um imposto sobre a indústria automotiva, poupando aos compradores de 5% a 7,5%. A mudança foi tão popular que o governo adotou recentemente uma medida semelhante para eletrônicos e eletrodomésticos, na esperança de também ajudar esses setores.

Logo, apesar das vendas de automóveis estarem sofrendo em outras partes do mundo, elas aumentaram aqui nos últimos quatro meses, a série mais longa de aumentos mensais desde 2002, segundo Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). E quando as vendas de automóveis estão altas, dizem representantes do setor, a blindagem invariavelmente acompanha.

Com tantas empresas atualmente no setor, o custo para blindagem de um carro caiu no Brasil ao longo da última década, de US$ 55 mil para cerca de US$ 22 mil, abrindo a opção para uma nova categoria de consumidor. Há uma década, BMWs, Mercedes-Benz e Jeep Cherokees eram os modelos que costumavam receber blindagem; hoje, Toyotas, Volkswagens e Chevrolets estão entre os cinco mais.

No final, a criminalidade é a força por trás de tudo. O contágio econômico no final dos anos 90 se espalhou da Ásia para o Brasil, provocando desvalorização da moeda, desemprego recorde e alta pobreza. Em 1999, a cidade de São Paulo registrou um índice de homicídios de quase 53 por 100 mil pessoas, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP) estadual -muito pior do que já registrou a cidade de Nova York. No final dos anos 90, a ONU classificou o Jardim Ângela, em São Paulo, como o bairro mais violento do mundo.

De lá para cá, o índice de homicídios caiu 78% e o furto de veículos em 38%, apesar dos assaltos à mão armada terem caído apenas 6%. Mais policiais estão nas ruas, especialmente nas grandes avenidas congestionadas, disse Túlio Kahn, o coordenador de análise e planejamento da SSP de São Paulo. Sistemas de posicionamento global e dispositivos de travamento com código ajudaram muitos proprietários a rastrearem e recuperarem os veículos roubados.

Mas a queda nas estatísticas da criminalidade "não fez com que as pessoas deixassem de se sentir inseguras", disse Kahn.

Uma nova onda de sequestros-relâmpago, assaltos não planejados nos quais os assaltantes levam seus prisioneiros a caixas eletrônicos e então os libertam após poucas horas, também não ajudou. "Este tipo de crime realmente assusta as pessoas", disse Kahn.

O boom liderado pelas commodities dos últimos anos no Brasil deu a muitos paulistanos o dinheiro para reagirem. A inflação controlada provocou uma expansão sem precedente no crédito ao consumidor. As vendas de carros aumentaram a níveis recordes, atingindo 2,8 milhões em 2008, em comparação a 1,9 milhão em 2006; segundo estatísticas do governo, há cerca de 6,4 milhões de carros nas ruas de São Paulo, uma cidade com população de 11 milhões.

A capacidade de comprar carros de forma parcelada também ajudou a tornar os carros blindados mais acessíveis a profissionais de classe média e média alta como Neves. Hoje, dentistas, filhos de pequenos empresários, mesmo donos de lojas de calçados estão comprando carros blindados, muitos deles usados, disse João Jorge Chamlian, proprietário da Auto Miami, uma revendedora daqui de carros blindados.

Na periferia da cidade, em uma fábrica do tamanho de um hangar da Truffi, uma das maiores empresas de blindagem do Brasil, cerca de 100 funcionários instalavam Kevlar amarelo e vidros espessos em uma manhã recente. A blindagem à prova de balas acrescenta cerca de 180 quilos ao carro, o que aumenta o consumo de combustível e o desgaste do veículo.

Para Neves, que gasta mais de duas horas e meia por dia se deslocando pela cidade, quanto mais proteção, melhor. Ele ficou abalado quando um cliente seu foi morto a tiros por um assaltante que levou apenas o relógio do homem. "Quando você está dentro de um carro blindado, você sente como se estivesse no interior de uma fortaleza", disse Neves.

Para Alessandra Amara, o carro blindado se tornou uma despesa necessária há três anos, ela disse, após ser assaltada pela 11ª vez em pouco mais de 10 anos. "Ter um carro blindado é essencial nesta cidade", disse Amara, 34 anos, que trabalha no departamento financeiro de uma concessionária de carros. "Eu já fui assaltada de toda forma imaginável."

Certa vez, assaltantes a sequestraram em seu carro com arma apontada e a fizeram sacar dinheiro de dois caixas eletrônicos antes de libertá-la. Outra noite, enquanto ela aguardava em seu carro no semáforo fechado, um homem armado roubou sua carteira enquanto testemunhas viam tudo em silêncio.

A gota d'água foi quando estava deixando o trabalho em um trânsito congestionado. De repente, um homem quebrou seu vidro com uma pedra e agarrou sua bolsa. Ela tirou o pé da embreagem e bateu no carro da frente. Ela se agarrou à bolsa e o ladrão fugiu.

Ela chegou em casa, tremendo de medo. Logo depois, ela engravidou, então ela e seu marido decidiram comprar um carro blindado usado. "Se o governo não consegue me manter em segurança, então tenho que procurar essa segurança por conta própria", disse Amara.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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