UOL Notícias Internacional
 

05/05/2009

Em Estado indiano, um plano de aquisição de terras pode derrubar os comunistas

The New York Times
Somini Sengupta
Em Nandigram (Índia)
Prometendo terra aos sem-terra, os comunistas conquistaram o coração de Abdul Bakir Shah décadas atrás.

Segundo um ambicioso plano de reforma agrária, Shah, um arrendatário por toda sua vida, recebeu o título de propriedade de quase meio hectare de terra fértil. Sua aldeia e outras como ela passaram a votar desde então nos comunistas, mantendo o partido no poder por 32 anos consecutivos aqui no Estado de Bengala Ocidental.

  • Ruth Fremson/The New York Times

    Foice e o martelo, símbolo do comunismo, são vistos em rua de Calcutá; desempenho dos comunistas no seu reduto de Bengala Ocidental determinará a influência eles terão no próximo governo da Índia

Mas as coisas ficaram caóticas há dois anos. Quando Bengala ingressou na lenta, mas inexorável marcha da Índia ao capitalismo, o governo estadual comandado pelos comunistas buscou remover este aglomerado inteiro de vilarejos de casas de pau-a-pique para abrir espaço para a construção de um complexo industrial químico multinacional. Os comunistas, sob cuja liderança fábrica após fábrica foi fechada por todo o Estado, disseram que era hora de trazer a indústria privada e os empregos de volta a Bengala.

"Reformar ou morrer", passou a ser o lema deles.

Foi quando os comunistas perderam a confiança de Shah.

"Nós não temos mais nenhuma fé neles", ele disse.

Agora, nas eleições parlamentares em andamento, o Partido Comunista da Índia (Marxista) enfrenta uma das disputas políticas mais difíceis de sua longa história. Ele é um partido dividido entre a atração do capitalismo industrial - não diferente da China - e sua tradição de defesa dos pobres rurais. Esta luta reflete muito do conflito que tem atormentado a Índia nos últimos anos, e uma discórdia amarga em torno da aquisição de terras estourou em muitas partes do país.

O desempenho dos comunistas aqui no seu reduto de Bengala Ocidental determinará, em grande parte, quanta influência eles terão no próximo governo da Índia e, por extensão, sobre a política externa e econômica do país.

Apesar dos comunistas daqui serem assumidamente capitalistas, no governo central eles seguem uma ideologia mais tradicional, bloqueando várias reformas econômicas e criticando veementemente o aprofundamento da amizade com os Estados Unidos.

Nos últimos cinco anos, controlando uma entre 10 cadeiras do Parlamento da Índia, que conta com 543 cadeiras, eles foram particularmente influentes. Desta vez poderão não ser, ao se tornarem vulneráveis ao seu afastarem de seus velhos princípios centrais. A disputa pelo coração de homens como Shah está no centro de seu desafio.

"Nosso eleitorado básico é o pobre rural", insistiu Mohammad Salim, um parlamentar veterano do partido. "O pensamento deles foi sequestrado por um grupo poderoso, por um grande ruído."

Muito do "grande ruído" vem, de um lado, da mal-humorada líder de oposição política, Mamata Banerjee, que usurpou a retórica do Partido Comunista e se lançou como a salvadora dos pobres rurais.

Do outro lado, guerrilheiros maoístas começaram a ganhar terreno, particularmente entre os povos nativos de cantos remotos e destituídos do Estado.

Outro dia, empunhando arcos e flechas, centenas deles bloquearam o trânsito no centro da capital do Estado, Calcutá.

Enquanto os eleitores de Bengala iam às urnas na quinta-feira, a suspeita era de que os maoístas plantaram bombas e emboscaram um carro, matando três funcionários eleitorais, e impuseram um boicote razoavelmente bem-sucedido em partes do Estado.

A aquisição de terras de pessoas que não conhecem outra vida é de qualquer forma difícil. Mas aqui em Bengala, a fúria é ainda maior do que em outros lugares. A terra é fértil e excepcionalmente lotada - com uma média de 904 pessoas por cada quilômetro quadrado- e, como Salim reconheceu, ainda mais cobiçada por aqueles que foram sem-terra por tanto tempo.

Banerjee tem explorado essa ansiedade e teve sucesso em bloquear vários projetos industriais desejados pelos comunistas.

Uma fábrica para construção do carro mais barato do mundo, o Tata Nano, foi forçada a sair do Estado. Planos para uma usina nuclear também foram descartados. O mesmo aconteceu à indústria química, que o Estado propôs transferir para o delta dos Sunderbans; isso também enfrentou protestos. Uma siderúrgica mais ao leste é alvo de ataques dos maoístas.

Banerjee, que já se aliou ao Partido Bharatiya Janata de direita, por sua vez transformou a si mesma em amiga dos destituídos. "Vocês costumavam dizer, 'Vida Longa a Karl Marx'", ela disse sobre os comunistas enquanto fazia campanha outro dia. "Agora vocês dizem, 'Vida Longa a Tata, adeus Karl Marx'."

Ela promete reabrir as fábricas fechadas pelos comunistas. Ela promete mais dinheiro para aqueles que perderam terras. Ela acusa os comunistas de intimidarem os eleitores. Banerjee é freqüentemente vista na televisão brigando com a polícia em protestos de rua.

"Hoje eles tomarão seus votos, amanhã eles tomarão suas terras, no terceiro dia eles pedirão sua filha, seu filho", ela alertou sombriamente. "Esta é uma luta por sua sobrevivência."

Seus críticos a chamam de oportunista. Um outdoor de campanha do Partido Comunista, no centro de Calcutá, mostra um jovem com uma pasta executiva e cabeça baixa, e um slogan que culpa Banerjee por afastar empregos do Estado.

Outro, uma charge, mostra uma solene Banerjee, segurando uma tigela de esmola e placas dizendo: "Sem Indústria", "Sem Progresso", "Sem Estradas".

Cada partido acusa grupos do outro de assassinato e caos. Seus cartazes de campanha contêm imagens de corpos mutilados, incinerados.

Parte do problema é que Bengala, após mais de 30 anos de liderança esquerdista, continua sendo um dos Estados mais carentes e disfuncionais do país. Ele possui um dos mais altos índices de evasão escolar. Quase metade dos pobres não tem acesso aos subsídios públicos a alimentos, como deveriam. A reforma agrária desacelerou até quase parar na última década.

Em Nandigram, o descontentamento cresceu contra o governo. Ele explodiu por causa de sua oferta pelas terras. Em 2007, no auge da disputa, pelo menos 14 pessoas morreram em confrontos entre oponentes e defensores do Partido Comunista.

Um ano depois, o partido Congresso Trinamool de Banerjee teve uma vitória esmagadora nas eleições para os conselhos das aldeias pela primeira vez em mais de três décadas. A situação permanece tão tensa que, em uma aldeia, uma conversa com jornalistas visitantes quase levou os simpatizantes dos dois partidos rivais a um confronto físico.

As pessoas na aldeia de Shah antes eram todas comunistas. Agora, os poucos comunistas que restam estão reunidos em um lado da rua principal. Eles dizem estar proibidos de entrar na casa de chá na rua principal. Eles têm medo de votar. Eles odeiam Banerjee por ter afastado uma fábrica potencial de sua área.

"Ela apenas quer que os pobres continuem pobres", disse Zahidul Mullick, que disse achar que sua idade é 18 anos. Ela disse que abandonou a escola na 5ª série e que trabalhava como alfaiate, como a maioria dos homens da aldeia.

"Veja, nós não temos instrução", disse Halima Begum, 22 anos, balançando um bebê em seu colo. "Nós não poderíamos trabalhar na fábrica. Mas poderíamos limpar as casas das pessoas que viriam para trabalhar nela."

Do outro lado da rua, Shah disse que suspeitava do complexo químico proposto.

Ele ficou com medo de ser desapropriado. Pela primeira vez em mais de 30 anos, ele e seus vizinhos se voltaram contra os comunistas.

"Eles acharam que o partido era tão forte que faríamos qualquer coisa que dissessem", disse um de seus vizinhos, Atibul Shah, 22 anos.

Sua família, disse, votou nos comunistas por três gerações. Desta vez, ele viajou de trem por dois dias vindo de Mumbai, onde trabalha em uma confecção, pela chance de votar contra os comunistas.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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