UOL Notícias Internacional
 

06/05/2009

O fim violento de um escritor, e o seu legado ativista

The New York Times
Patricia Cohen
"Recebi um telefonema surpreendente nesta semana", disse o escritor Richard North Patterson à plateia que no último final de semana se reuniu para participar do Festival de Literatura Internacional PEN World Voices. Quem ligou foi o ex-presidente dos EUA, Bill Clinton. O novo livro de Patterson, "Eclipse", baseia-se no caso do escritor e ativista nigeriano Ken Saro-Wiwa, e Clinton falou sobre um telefonema que deu 14 anos atrás ao general Sani Abacha, da Nigéria, pedindo que este impedisse que Saro-Wiwa fosse enforcado.

Clinton disse que Abacha "foi muito educado", mas que "ele foi frio", relatou Patterson. "Clinton concluiu a partir disso, entre outras coisas, que o petróleo e a necessidade de petróleo por parte do Ocidente e outras regiões fizeram com que Abacha se achasse invulnerável".

O moderador do evento, o escritor nigeriano Okey Ndibe, acrescentou um epílogo inesperado. Um amigo dele que trabalhava no gabinete de Abacha lhe disse que mais tarde o general se gabou: "Todos esses ativistas pró-democracia correm para os Estados Unidos e esperam que os norte-americanos os salvem. Mas o próprio presidente dos Estados Unidos está me chamando de 'senhor'. Ele tem medo de mim".

Saro-Wiwa, um escritor popular que ajudou a criar um movimento pacífico de massas em defesa do povo Ogoni, foi executado em novembro de 1995, juntamente com outros oito ativistas do meio ambiente e dos direitos humanos, devido àquilo que muitos consideraram falsas acusações de assassinato. O corpo dele foi queimado com ácido e jogado em uma sepultura anônima.

A PEN, uma associação internacional de escritores dedicada a defender a livre expressão, juntamente com a revista literária online "Guernica", patrocinou o painel com Patterson, Ndibe e Ken Wiwa, o filho de Saro-Wiwa, a fim de discutir o legado cultural e literário deste último.

Passaram-se 14 anos. Abacha morreu, e Saro-Wiwa recebeu um sepultamento digno, mas as circunstâncias em torno das nove execuções, juntamente com os incidentes relacionados de ataques brutais e torturas, estão sendo novamente investigados. Neste mês o processo da família Wiwa contra a Royal Dutch Shell devido ao papel desempenhando pela empresa nesses acontecimentos será julgado em um tribunal federal na cidade de Nova York.

"Sentimos que as impressões digitais da Shell estão por toda parte", disse Ken Wiwa à plateia. "Não há dúvida de que a Shell financiou a operação e forneceu apoio logístico".

"Uma das acusações é de que funcionários da Shell estavam presentes quando duas testemunhas receberam propinas para depor contra Saro-Wiwa", afirma Jennie Green, advogado do Centro de Direitos Constitucionais, uma organização sem fins lucrativos, que está representando a família. Segundo ela, o irmão de Saro-Wiwa, Owen, também declarou que o diretor-gerente da Shell, Brian Anderson (atualmente aposentado), disse a ele: "Se você desmobilizar a campanha, talvez possamos fazer algo pelo seu irmão".

Green afirma que, segundo a lei dos Estados Unidos, para ser considerado culpado o indivíduo não precisa ser necessariamente aquele que "apertou a torquês".

Em uma declaração, a Shell disse: "A Shell não encorajou nem defendeu de forma alguma nenhum ato de violência contra eles ou os seus companheiros ogonis. Acreditamos que as evidências revelarão claramente que a Shell não foi responsável por esses trágicos eventos". A companhia acrescentou: "A Shell tentou persuadir o governo a mostrar clemência".

Wiwa, 40, diz que o seu pai era um homem entusiasmado e ambicioso, dono de um senso de humor ferino. "Meu pai provavelmente teria sido humorista ou ator, mas ele sentia necessidade de escrever", afirma Wiwa.

No início do evento, dois atores leram um trecho curto da peça de Saro-Wiwa, "O Rádio Transistorizado", uma das várias que ele escreveu para a rádio e a televisão nigerianas satirizando a pobreza chocante e a corrupção generalizada do país. "Por que você foi demitido?", perguntou um dos homens. O outro respondeu: "Por ter conseguido o emprego".

Wiwa, que em 2001 publicou o livro de memórias "In the Shadow of a Saint: A Son's Journey to Understand His Father's Legacy" ("À Sombra de um Santo: Uma Jornada de um Filho para Entender o Legado do seu Pai"), afirma: "O meu pai foi um grande homem. Eu cresci com esse homem, o mito e a memória dele sempre à minha frente".

Ele acrescenta: "A luta do indivíduo para se definir em relação ao pai dá a ele inicialmente uma ideia de algo sobre o que escrever", conforme aconteceu no caso da situação política na qual ele se viu lançado.

Wiwa está escrevendo um livro, mas ele também sentiu a necessidade de levar adiante o trabalho ambientalista e de direitos humanos realizado por seu pai. Ele atua como assessor especial do governo, mas adverte que a devastação ecológica e humana no delta do Rio Níger, uma das maiores regiões pantanosas do mundo, está pior do que nunca.

Milhares de quilômetros de oleodutos cortam a costa ocupada pelo povo ogoni, uma das 250 tribos étnicas da Nigéria. Fumaça tóxica, vazamentos e construções transformaram a região em uma área devastada, provocando desmatamento e uma pobreza desesperadora.

"Atuar por conta própria e escrever, sem ser perturbado pela política, era um sonho de 30 anos", diz Wiwa, que, assim como o pai, é de etnia ogoni. Mas ele acrescenta: "Muitos dos meus pensamentos mais profundos originam-se do fato de eu estar envolvido nessa luta. Ela me faz pensar no que acontecerá se eu simplesmente seguir em frente e escrever. Porque o indivíduo pode não ter nada a dizer".

Ndibe pergunta a ele a respeito do sacrifício feito pela sua família devido aos compromissos do seu pai, mas Wiwa hesita.

"Todos nós temos opções, proporcionar segurança para os nossos filhos no mundo ou tornar o mundo seguro para os nossos filhos, e há consequências resultantes de tais opções", diz Wiwa, referindo-se a outras pessoas que viram-se na mesma situação, como a filha de Nelson Mandela, Zindzi, e Nkosinathi Biko, filho do ativista sul-africano Steve Biko. "Os nossos pais escolheram uma rota diferente".

Patterson era membro da diretoria da PEN, 15 anos atrás, quando a organização atuou em defesa de Saro-Wiwa. Antes do início do painel, ele explicou como acabou escrevendo "Eclipse". Segundo Patterson, depois de 11 de setembro de 2001 os Estados Unidos tornaram-se ainda mais dependentes do petróleo nigeriano. "Achei que era chegada a hora de colocar Saro-Wiwa no contexto da atual política do petróleo: como é que nós influímos nas vidas de pessoas que sequer conhecemos".

Durante a sua prisão, Saro-Wiwa disse que frequentemente invejava os escritores ocidentais, "que podem praticar pacificamente a sua arte". Mas ele também reconheceu que essa não era a sua rota. Conforme escreveu em 1993, "O escritor não pode ser apenas um contador de estórias, não pode ser um simples professor; ele não pode meramente tirar uma radiografia das fraquezas da sociedade, das suas doenças, dos seus perigos. Ele ou ela precisa envolver-se ativamente na criação do seu presente e do seu futuro".

Tradução: UOL

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