UOL Notícias Internacional
 

06/05/2009

Um ano após o terremoto na China, novos nascimentos, velhas feridas e intransigência do governo

The New York Times
Edward Wong
Em Mianzhu (China)
Com apenas 45 dias de idade e enfaixado em rosa, Sang Ruifeng já tem um propósito na vida: levar à Justiça os responsáveis pela morte de seu irmão de 11 anos.

Ruifeng terá que assegurar, disse seu pai, que o governo chinês preste contas plenas do motivo para milhares de estudantes terem morrido em desabamentos de escolas durante o terremoto que devastou o sudoeste da China há um ano. O irmão que Ruifeng nunca conheceu estava entre os 126 alunos esmagados até a morte na Escola Primária Nº 2 de Fuxin, nos arredores desta rica cidade rural.

  • Reuters

    Homem que perdeu a perna durante os terremotos em Sichuan caminha pelo vilarejo de Xiaoyudong

"Eu não me sinto nem um pouco feliz", disse o pai, Sang Jun, a respeito do nascimento de seu novo filho enquanto sua esposa balançava o bebê na casa do vizinho. "Eu disse hoje para minha esposa, se não conseguirmos que a justiça seja feita, nosso filho terá que prosseguir nesta busca. Esta questão será um fardo sobre esta criança."

Um ano após o terremoto na província de Sichuan ter matado cerca de 70 mil pessoas e deixado 18 mil desaparecidos, mães por toda a região estão grávidas ou dando à luz, auxiliadas por equipes médicas do governo que fornecem orientações sobre fertilidade e realizam procedimentos de reversão de esterilização. Devido à política da China de limitar a maioria das famílias a ter apenas um filho, os estudantes que morreram frequentemente eram filhos únicos de seus pais. As autoridades esperam que uma onda de nascimentos ajude a desarmar a raiva que muitos pais em luto sentem devido aos desabamentos de muitas escolas em 12 de maio de 2008, enquanto prédios próximos freqüentemente permaneciam em pé.

Mas as feridas infeccionaram, em parte porque o governo chinês, desconfiado de qualquer contestação ao seu estilo autoritário, abafou os pais e reprimiu a discussão pública sobre escolas mal construídas. À medida que a atenção se volta de novo para Sichuan durante o primeiro aniversário do terremoto, o governo intensificou sua campanha para silenciar os pais e a imprensa, recorrendo à pressão por parte da polícia e ameaças de prisão.

"O governo diz: 'Como vocês já tem um segundo filho, por que ainda estão perguntando a respeito disso?'" disse Sang, um ex-operário de fábrica que foi detido pela polícia em janeiro, quando tentou tomar um trem para Pequim para impetrar uma queixa formal. "Nós dizemos ao governo: 'Isto é responsabilidade sua, isto é culpa sua. Por que não deveríamos questionar isto?"

O governo chinês se recusa a divulgar o número de estudantes que morreram ou seus nomes. Mas um relatório oficial de logo após o terremoto, estimou que até 10 mil estudantes morreram no desmoronamento de 7 mil salas de aula e quartos de dormitório.

No ano passado, as autoridades no governo central anunciaram que realizariam uma investigação sobre o desmoronamento das escolas, mas nenhum resultado foi divulgado. Em março, uma autoridade provincial de Sichian disse aos repórteres em Pequim que foi a força do terremoto, e não má construção, que levou aos desmoronamentos.

Em 4 de abril, durante o "Dia de Varrer os Túmulos", quando os chineses homenageiam os mortos, grupos de pais tentaram se reunir nos locais das escolas desmoronadas para lamentar a perda de seus filhos. Policiais à paisana rapidamente os cercaram.

Autoridades de propaganda ordenaram recentemente que os órgãos de imprensa chineses divulgassem apenas histórias positivas relacionadas ao terremoto, e o governo de Sichuan proibiu explicitamente a imprensa de noticiar os abortos sofridos por mulheres nos campos de moradias temporárias. Alguns sobreviventes do terremoto disseram temer que os abortos foram causados pelos altos níveis de formaldeído nas moradias pré-fabricadas.

"Mulheres grávidas demais estão sofrendo aborto", disse Ren, uma mulher em um campo em Dujiangyan, que disse apenas seu sobrenome por temer represália do governo. Seu neto estava entre os centenas que morreram na Escola Primária de Xinjian. Sua nora engravidou no final do ano passado, ela disse, mas sofreu um aborto.

"O quarto no Hospital do Povo de Dujiangyan estava cheio de mulheres com o mesmo problema", Ren disse enquanto chorava.

O governo central começou a enviar especialistas em fertilidade para a região do terremoto no ano passado. O "Sichuan Daily", um jornal oficial, noticiou em 29 de fevereiro que quase 1.000 mulheres na região do terremoto engravidaram, citando a Comissão de Planejamento Familiar da Província de Sichuan. As autoridades de planejamento familiar em Chengdu, a capital de Sichuan, recusaram os pedidos de entrevista.

Uma das mulheres grávidas é Liu Li, cujo sobretudo marrom se estica em torno de sua barriga. Ela disse: "havia sentimentos complicados" ao descobrir que estava grávida no início do ano.

"Eu senti nervosismo, alegria e também certa culpa, porque ocorreu cedo demais após a morte de nosso primeiro filho", disse Liu, 35 anos, enquanto enchia uma tanque plástico de lavar no campo de Dujiangyan.

Como muitos pais cujos filhos morreram, Liu recebeu um pagamento de cerca de US$ 8.800 do governo local e uma garantia de pensão em troca de silêncio.

Mas muitos pais, mesmo aqueles esperando outro filho, se recusaram a ficar calados.

Aqui em Mianzhu, as mulheres de mais da metade dos 126 lares que perderam filhos em Escola Primária Nº2 de Fuxin estão grávidas ou deram à luz recentemente, segundo vários pais. Um pai, Bi Kaiwei, elogiou o atendimento gratuito de saúde fornecido pelo governo para sua esposa, agora grávida de mais de quatro meses. Mas a gravidez não substitui a justiça, ele disse.

Todo dia, os dois visitam o túmulo de sua filha morta. Eles mantiveram todos os pertences dela, incluindo um cachorrinho branco de pelúcia e um cobertor leve que agora está na cama dos pais. Fotos emolduradas da menina estão exibidas por toda a casa pré-fabricada deles a poucas centenas de metros do local da escola de Fuxin.

"Eu sinto que isto é o retorno de nossa filha", disse a esposa de Bi, Liu Xiaoying, enquanto acariciava sua barriga. "Mas apesar de me confortar, de dizer a mim mesma que é ela, eu ainda não me sinto alegre. Eu estou muito deprimida." Liu fez parte de um grupo de pais de Mianzhu que viajou secretamente para Pequim em janeiro, para apresentar uma petição ao governo central. As autoridades de lá lhes disseram para apresentá-la ao governo de Sichuan.

Mas as autoridades de Sichuan estão tentando quebrar a vontade dos pais. Sang, o pai do menino com 45 dias, disse que a polícia o ameaçou de prisão.

Um homem que atendeu ao telefone no quartel da polícia de Mianzhu se recusou a comentar.

À beira de um campo de trigo daqui, Sang construiu uma nova casa para substituir aquela que ruiu durante o terremoto. Em um canto está o quarto de seu filho morto, Xingpeng. Em seu interior se encontra bem-guardada uma foto emoldurada do menino e seus bens mais preciosos -uma vara de pesca, sapatos de dança brancos e um aquário de peixe.´

O novo filho não dormirá ali.

"Nós manteremos (o quarto) assim para sempre", disse Sang.


Huang Yuanxi contribuiu com pesquisa.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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