UOL Notícias Internacional
 

08/05/2009

Gripe suína ganha importante papel na campanha política mexicana

The New York Times
Marc Lacey e Elisabeth Malkin
A economia em crise e a sangrenta guerra do narcotráfico vinham sendo as principais preocupações dos eleitores mexicanos para as eleições de julho próximo. Foi então que o misterioso vírus A (H1N1) aplicou nos mexicanos o maior susto de suas vidas, e fez com que aqueles que não foram parar em um leito hospitalar - ou na sepultura - sentissem que são pessoas de sorte.

Os especialistas em pesquisas de opinião, que antes da chegada do vírus da gripe constataram que o Partido da Ação Nacional, do presidente Felipe Calderón, estava com baixa popularidade, estão retornando a campo para determinar como o surto de gripe pode ter modificado a dinâmica da temporada eleitoral. Será que o governo Calderón reagiu de forma exagerada? Ou ele gerenciou bem a crise e fez com que o número de mortes mantivesse-se baixo?

EFE 
Gripe suína pode ter ajudado Calderón, que estava com baixa popularidade antes do surto


"Quando há uma grande crise econômica, antes que a situação fique muito ruim é difícil encontrar evidências de que as pessoas que estão no poder foram atingidas", explica Daniel Lund, especialista em pesquisas de opinião e presidente do Gripo MUND, que está fazendo pesquisas de grupo sobre os efeitos da gripe. "Em um desastre natural, o partido do governo é prejudicado por uma resposta lenta ou corrupta. Mas, quando se trata da gripe, não sabemos o que ocorre, porque nunca antes vimos algo como isso".

A campanha já vinha revelando alguns sinais iniciais de sujeiras, com os partidos rivais acusando-se mutuamente de terem conexões com o cartel de drogas. Mas, no que diz respeito a medidas sanitárias, esta pode ser a campanha mais limpa da história. O Ministério da Saúde pediu as candidatos que disputam vários cargos municipais, estaduais e federais em 5 de julho que tomem precauções, incluindo o uso intenso de bactericidas nas mãos, para evitar o alastramento do vírus da gripe suína.

Grandes comícios políticos - aqueles com mais de 40 pessoas - estão sendo desencorajados, e nas palestras a portas fechadas a distância mínima entre cada participante deve ser de generosos 2,5 metros. Pede-se aos candidatos que não usem gravatas, já que elas são consideradas potenciais portadoras do vírus. Beijar bebês - ou beijar qualquer pessoa - é uma prática condenada, assim como os apertos de mão.

O surto já teve um efeito político. O prefeito da Cidade do México, Marcelo Ebrard, que é um potencial candidato presidencial de 2012, fez a sua primeira visita a Los Pinos, a residência presidencial, nos três anos decorridos desde que Calderón foi eleito.

O Partido da Revolução Democrática (PRD), de Ebrard, contestou a apertada vitória de Calderón em 2006, e, desde então, o prefeito deu pouco crédito ao presidente. Durante a maior parte da crise da gripe, Ebrard organizou as suas próprias entrevistas coletivas à imprensa, e baixou os seus próprios decretos, incluindo aquele que determinou o fechamento dos restaurantes da Cidade do México.

Entretanto, em uma reunião convocada por Calderón na última segunda-feira, Ebrard estava sentado à mesma mesa que o presidente (embora usando uma máscara cirúrgica).

Após ter sido criticado por não agir energicamente enquanto o vírus se multiplicava, Calderón fez dois pronunciamentos televisados à nação nos últimos dias. No evento que contou com a participação de Ebrard e governadores de todo o país, o presidente procurou contestar a crítica de que o seu governo teria reagido exageradamente à gripe suína.

"Sem dúvida, a reação, decidida e no momento preciso, de todos, de todas as autoridades do país, salvou não só milhares de vidas no México, mas permitiu que o resto do mundo tomasse as medidas certas para se preparar melhor, com bastante antecedência, e com mais informações para enfrentar esta epidemia", afirmou Calderón.
Andres Manuel Lopez Obrador, o adversário de Calderón em 2006, criticou a restrição aos comícios nesta semana no Estado de Tabasco, no sul do país, onde o seu website afirma que ele atraiu 2.000 pessoas. "O governo usurpador abandonou o povo, e por este simples motivo essa epidemia afeta a população mexicana", acusou Obrador.

As primeiras pesquisas indicam apoio às ações do governo, embora o ceticismo que muitos mexicanos sentem em relação às declarações de qualquer político também tenham ficado evidentes, diz Jose Antonio Crespo, analista do CIDE, um instituto de pesquisas da Cidade do México.

Especialmente agora que os cientistas dizem que a gripe pode não ser tão grave como originalmente se achava, alguns mexicanos estão questionando se era mesmo necessário usar máscaras durante uma semana.

"A verdade é que o governo exagerou", disse na segunda-feira a contadora Georgina Moreno Montemayor, 27, quando o governo anunciou a abertura gradual de escolas e o retorno a algo mais parecido com a vida normal.

Moreno afirmou que os mexicanos estão questionando até se o vírus é real ou se não se trata de algo mais semelhante ao Chupacabra, o monstro lendário que sugaria o sangue dos caprinos.

Devido aos seus vínculos estreitos com os Estados Unidos, o México já vinha sendo um dos países mais duramente atingidos pela recessão econômica global, e as autoridades do banco central estimavam uma contração econômica neste ano da ordem de 3,8% a 4,8%. Segundo as autoridades, a epidemia de gripe agravará o estado da economia, subtraindo de 0,3% a 0,5% adicionais do produto interno bruto.

Pelo menos por ora, a gripe conseguiu eclipsar a guerra do narcotráfico, que continua provocando pesadas baixas. No entanto, a resposta agressiva do governo à gripe pode ter acabado com a impressão de que as quadrilhas de narcotraficantes haviam colocado o México à beira de um colapso.

Com a proibição de grandes comícios, as campanhas estão despejando mais dinheiro em meios virtuais como a internet e recorrem até mesmo às mensagens de texto. E, embora os candidatos continuem defendendo propostas para reavivar a economia e aumentar a segurança, eles estão também claramente tentando tirar vantagem da crise de saúde, e alguns fazem isso de forma desavergonhada.

Desinfetantes para as mãos e máscaras tornaram-se os novos objetos distribuídos gratuitamente pelos candidatos, superando as tradicionais camisetas e bonés. E, em alguns casos, os candidatos imprimiram os seus nomes e os logotipos dos seus partidos nas máscaras, transformando as faces dos eleitores em cartazes eleitorais ambulantes.

Barbara Botella, candidata oposicionista à prefeitura de Leon, uma grande cidade industrial no Estado de Guanajuato, na região central do México, começou a sua campanha no último domingo usando uma máscara com a inscrição, "Bárbara, na boca de todos".

Ela usava a máscara de uma forma incorreta, que não contribui para reduzir a transmissão da gripe, cobrindo apenas a boca, mas deixando o nariz exposto.

Em uma entrevista, Botella acusou o partido governista, o PAN, de se aproveitar da crise de gripe. A candidata defendeu a sua própria abordagem, dizendo que o objetivo é simplesmente fazer com que os eleitores saibam que ela estará preparada para lidar com qualquer consequência da epidemia.

Em um comentário publicado em um jornal na última terça-feira, o presidente nacional do PAN, German Martinez Cazares, repeliu a acusação de que a resposta do governo teria sido motivada por fatores políticos.


Antonio Betancourt contribuiu para esta matéria.

Tradução: UOL

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host